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Coração das Trevas

Jornalista mostra versão dos militares da Guerrilha do Araguaia

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11/10 – Os mensageiros que trouxeram a informação sobre a ação militar do DA, foram também portadores de uma notícia má. No próprio dia 24, Paulo, que ficara com os demais combatentes que não participaram da ação, fugiu. E fugiu em péssima hora. Esse indivíduo, verdadeiro crápula, que causara os maiores aborrecimentos ao DA, parecia ter se aquietado, embora não merecesse a menor confiança. As suas possibilidades de sair da região são mínimas e acabará caindo em mãos do Exército ou da Polícia. Preso pelo inimigo, Paulo representa um perigo para o DA, pois é covarde e conhece camponeses amigos nossos. Conhece igualmente certas áreas, onde os combatentes costumam circular ou acampar. Na certa, se a reação o pegar, dirá tudo o que sabe. Estou torcendo para que não o prendam. Mais tarde, as FF GG ajustarão contas com esse traidor. Não fosse a ameaça de delação, a fuga desse pusilânime alivia o DA de pesada carga”[29]

Terceirização da Luta: 10 mil por Cabeça

Àquela altura, meados de novembro de 1973, havia 38 guerrilheiros em condições de combate. Nos dias subseqüentes, mais quatro deles seriam abatidos. Arildo Valadão, o Ari, do Destacamento C foi o primeiro[30]. Pode-se dizer que tenha sido a primeira vítima da aliança entre militares e os jagunços. Os GAD deram certo, e os militares foram muito auxiliados pelos moradores da região na caçada aos guerrilheiros. Havia guias remunerados. Não pegavam em armas, apenas guiavam. Havia também os mateiros. Esses andavam armados e iam à frente das patrulhas, como guias. Ganhavam por isso. Os guerrilheiros chamavam os dois grupos – tanto os guias quanto os mateiros – de “bate-paus”.

As novas táticas criadas e recriadas pelos militares não ficariam por aí. A idéia seguinte a ser adotada seria a terceirização da caçada aos guerrilheiros. Convocaram então os “bate paus” para fazer o serviço. Entrariam sozinhos mata adentro caçando guerrilheiros à velha moda dos jagunços. A tática foi concebida dentro de uma equipe de informações que atuava em Xambioá. Os militares espalhavam na região que estavam pagando por cabeça de guerrilheiro. A primeira idéia é que cada guerrilheiro vivo valeria 5 mil cruzeiros e cada morto valeria 10 mil. Com um pouco mais dava para comprar um Fusca zero quilômetros.[31]

Mas depois se criou uma nova tabela de preços para os mortos, em função da hierarquia. Osvaldão, Dina e os membros da Comissão Militar, como Mauricio Grabois e Ângelo Arroyo, valiam 10 mil cruzeiros cada. Os comandantes e subcomandantes de destacamento valiam 5 mil cruzeiros cada, quantia suficiente para comprar um sítio de 50 hectares na região. Os demais valiam 1 mil ou 2 mil cruzeiros, dependendo do caso. E a idéia de um prêmio por prisioneiros foi esquecida. Quando os militares começaram a oferecer dinheiro “por cabeça”, estariam se referindo à unidade de guerrilheiro.

Mas na área sul do Araguaia, a sudoeste da Serra das Andorinhas, os militares recrutaram uma tribo inteira de índios suruís. Eles tinham por hábito milenar cortar as cabeças dos inimigos. Certo dia, em fins de novembro, um mateiro, caboclo que morava perto da reserva suruí, apareceu com uma sacola diante de uma equipe de pára-quedistas que tomava café da manhã num acampamento perto de Xambioá. O mateiro então perguntou aos militares quanto estavam pagando por cabeça de “povo da mata”.[32] Um deles respondeu o valor. Então ele abriu a boca da sacola, sacudiu-a e de dentro caiu uma cabeça humana entre os pratos dos soldados. Era a cabeça de Arildo Valadão. O Dossiê registra sua morte como tendo sido a 26 de novembro de 1973.

 é repórter especial da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 9 de março de 2006, 13h18

Comentários de leitores

1 comentário

1. Os fatos narrados - sem juizo de valor - sã...

Marchini (Outros - Internet e Tecnologia)

1. Os fatos narrados - sem juizo de valor - são impressionantes e, com certeza, pincelados do que foi a realidade. A violência de ambos os lados foi bastante mais cruenta. 2. Entendo também que ainda prevalece no imaginário coletivo a versão de guerrilheiros românticos lutando pela pátria, o que não é exclusivamente verdade; houve reação e repressão tão brutal quanto as ações iniciais, nada foi de graça, sempre foi chumbo trocado. 3. Talvez em algumas décadas a verdade menos passional apareça.

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