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Coração das Trevas

Jornalista mostra versão dos militares da Guerrilha do Araguaia

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Em 24 de outubro de 1973, a equipe de Dr. Asdrúbal conseguiria um novo troféu: a guerrilheira Maria Lúcia de Souza, a Sônia, uma das mais conhecidas do Araguaia. Sua morte, envolta em heroísmo e violência,[20] povoa ainda hoje o imaginário dos guerrilheiros, dos moradores da região e, principalmente, dos militares. Para os comandantes militares, o ato de Sônia, logo na seqüência da reação de Zé Carlos, seria usado como justificativa definitiva para a violência utilizada na repressão aos guerrilheiros do Araguaia. Sobre a morte de Sônia, o ex-ministro do regime militar e ex-senador Jarbas Passarinho disse que “o episódio prova a radicalização e a total inexistência de escrúpulos de ambos os lados”.[21]

O corpo de Sônia foi deixado insepulto no local em que morreu. Ela não foi enterrada pela equipe que a abateu, pois, segundo alegam, era mais urgente salvar a vida do oficial que estava gravemente ferido, o Dr. Asdrúbal, que estava inconsciente, perdendo muito sangue por conta de um tiro que lhe esfacelara o rosto. Ou seja, os militares preferiram usar as energias para salvar a vida do companheiro ainda vivo do que perder tempo com uma inimiga já morta. Até aí, trata-se de um ato sensato. Mas Sônia também não foi enterrada pela equipe que desceu a fim de fotografá-la para reconhecimento posterior em Brasília. Ano e meio antes, o guerrilheiro Osvaldão, tal qual o rei Creonte do mito grego de Édipo,[22] havia proibido o sepultamento do cabo Rosa, sob pena de execução sumária de quem o desobedecesse.[23] Mas Osvaldão, de acordo com os próprios militares, era um terrorista, um bárbaro, um bandido. Já os militares representavam a lei e a ordem — e estavam no Araguaia tentando fazer valer a ordem estabelecida.

Portanto, ao abandonar o corpo de Sônia insepulto, eles estavam cometendo um ato que resultava numa inversão de seus próprios valores – e nesse caso, pouco importa os valores de Osvaldão e dos demais guerrilheiros. O direito natural a um sepultamento honrado é um fator que está impregnado nas raízes helênicas do imaginário ocidental. A importância capital do culto e do respeito pelos mortos está bem ilustrado desde os primórdios da civilização grega, na figura principal da Ilíada, Aquiles, o herói maior dentre os grandes heróis, é portador de uma mácula terrível, a de ter ultrajado o cadáver de Heitor.[24] O culto pelos mortos implica no respeito pelo corpo — e o contrário disso é a profanação.

Os rituais fúnebres sempre foram uma questão essencial no imaginário dos povos. A rede simbólica das mais diversas sociedades sempre institui, cada um a seu modo e em seu próprio tempo, os rituais de culto aos mortos, assim com a defesa intransigente do direito a um sepultamento digno. Mais do que um rito instituído pelo imaginário social, trata-se de um direito universal humanitário. O direito ao sepultamento encontra-se inclusive no Código Penal Brasileiro, que prevê os crimes contra o sentimento religioso e contra o respeito aos mortos, tais como violação de sepultura, vilipêndio de cadáver, destruição, subtração ou ocultação de cadáver.[25] Enfim, aquele ato de deixar o corpo de Sônia insepulto seria o primeiro ato indiscutivelmente condenável dos militares no Araguaia, prenúncio do que ainda estava por vir.

Os guerrilheiros perderiam um terceiro homem naqueles primeiros dias. Paulo, codinome de um membro do Destacamento A, desertou. Ele usava uma identidade falsa, com o nome de João Carlos Borgeth. Nem mesmo os próprios companheiros de guerrilha sabiam seu verdadeiro nome. Formara um casal com a Maria Célia Corrêa, a Rosa,[26] que permaneceu na área após sua fuga, foi aprisionada pelos militares e, antes de ser executada, contou que estava no Araguaia para acompanhar o homem que amava.[27] Três décadas depois, os militantes do PC do B ainda acreditam que Paulo fosse espião, infiltrado pelos militares. No início, os próprios militares achavam que ele tivesse sido justiçado pelos guerrilheiros. Em setembro de 2004, um dos militares que ajudaram a elaborar o Dossiê Araguaia descobriu que Paulo estava vivo, trabalhava como acupunturista em Niterói (RJ) e que seu nome verdadeiro é João Carlos Campos Wisnesky.[28] Velho Mário descreveu a deserção de Paulo, numa anotação do Diário de 11 de outubro de 1973:

 é repórter especial da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 9 de março de 2006, 13h18

Comentários de leitores

1 comentário

1. Os fatos narrados - sem juizo de valor - sã...

Marchini (Outros - Internet e Tecnologia)

1. Os fatos narrados - sem juizo de valor - são impressionantes e, com certeza, pincelados do que foi a realidade. A violência de ambos os lados foi bastante mais cruenta. 2. Entendo também que ainda prevalece no imaginário coletivo a versão de guerrilheiros românticos lutando pela pátria, o que não é exclusivamente verdade; houve reação e repressão tão brutal quanto as ações iniciais, nada foi de graça, sempre foi chumbo trocado. 3. Talvez em algumas décadas a verdade menos passional apareça.

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