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Coração das Trevas

Jornalista mostra versão dos militares da Guerrilha do Araguaia

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Ao chegarem em Marabá e Xambioá, já de madrugada, os grupos seguiram imediatamente para seus postos de combate transportados em cerca de 30 caminhões emprestados pelos governos de Goiás e do Pará. Nenhum veículo das Forças Armadas foi utilizado na área do conflito. A tropa de operações na selva posicionou-se nas imediações de Bacaba; os pára-quedistas ficaram perto de Xambioá. Ninguém poderia descer dos caminhões para que não fossem vistos pela população. Ninguém usava uniforme militar. Todos eles, sem exceção, portavam identidades falsas. Até os oficiais. E nem mesmo os oficiais superiores sabiam da verdadeira identidade dos soldados.

Antes de o sol nascer, agentes de informações que haviam trabalhado na Operação Sucuri foram incorporados a pequenos grupos, com seis ou sete militares. Cerca de 30 diferentes grupos foram organizados. Entraram imediatamente na mata. Haveria muito trabalho a partir da alvorada. Assim o Dossiê descreve o Dia D:

“No dia 7 de outubro de 1973 foi efetivamente iniciada a 3ª Fase de combate à guerrilha, que teve características totalmente diferentes das duas anteriores. A tropa penetrou na selva descaracterizada, passando a usar trajes civis; cada combatente adotou um codinome, tornando difícil e quase impossível uma identificação posterior através de nome, posto ou graduação. Com exceção do armamento, que era padronizado - e cada grupo possuía um grande poder de fogo - os equipamentos, tais como mochilas, etc, foram utilizados a critério de cada um, considerando que deveriam ser o mais confortável possível, de forma a enfrentar longas caminhadas através da selva”[12]

Quando o Dia D terminou, uma centena e meia de pessoas estava presa. O Exército havia feito um “arrastão”[13] com todos moradores da região suspeitos de colaborar com os guerrilheiros. Eles foram apontados pelos agentes da Operação Sucuri como amigos dos guerrilheiros, ou simplesmente fornecedores de suprimentos. Eram chamados de “apoio”. De início, alguns deles foram colocados em dois buracos cavados ainda nos tempos da Segunda Campanha dentro das bases de Bacaba e Xambioá. As valas tinham três metros de comprimento, dois de largura e três de profundidade. Não havia latrinas. Nem telhado para proteger os ocupantes do sol da Amazônia – ou da chuva. Os buracos foram fechados por grades de ferro. Quase totalidade, contudo, foi mantida fora dos buracos. Todos eles sofreram fortes pressões psicológicas; alguns levaram surras – mas não tortura, algo muito mais grave. Assim relata o Dossiê Araguaia:

“A primeira ação nessa 3ª Fase foi desencadeada no próprio dia 7 de outubro, com a prisão de 160 moradores da região que funcionavam ou eram suspeitos de funcionar como rede de apoio dos guerrilheiros. Essa ação teve como objetivo, além de retirar o apoio da Guerrilha, deixar claro a essas pessoas de que lado estavam a Lei e a Ordem”[14]

“Na reeducação dessas pessoas teve que ser empregado algum rigor, uma vez que o caboclo daquela região só conhecia uma lei: a lei do mais forte. Mesmo porque não havia tempo de usar a psicologia. O Exército queria fazer entender quem, a partir daquele momento, estava mandando. Após, todos os detidos foram liberados e passaram a temer mais ao Exército do que aos guerrilheiros”[15]

Primeiros Combates... e o Comandante Perde o Filho

O primeiro homem a morrer na Terceira Campanha, em 13 de outubro de 1973, foi o guerrilheiro André Grabois, o Zé Carlos, comandante do Destacamento A e filho do comandante-em-chefe Maurício Grabois. Tombou aos 27 anos, em combate com a equipe do Dr. Asdrúbal.[16] Tombaram juntos outros três guerrilheiros, o estudante João Gualberto Calatroni, o Zebão, o estudante Divino Ferreira de Souza, o Nunes, e o camponês Antônio Alfredo Lima.

 é repórter especial da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 9 de março de 2006, 13h18

Comentários de leitores

1 comentário

1. Os fatos narrados - sem juizo de valor - sã...

Marchini (Outros - Internet e Tecnologia)

1. Os fatos narrados - sem juizo de valor - são impressionantes e, com certeza, pincelados do que foi a realidade. A violência de ambos os lados foi bastante mais cruenta. 2. Entendo também que ainda prevalece no imaginário coletivo a versão de guerrilheiros românticos lutando pela pátria, o que não é exclusivamente verdade; houve reação e repressão tão brutal quanto as ações iniciais, nada foi de graça, sempre foi chumbo trocado. 3. Talvez em algumas décadas a verdade menos passional apareça.

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