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Coração das Trevas

Jornalista mostra versão dos militares da Guerrilha do Araguaia

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O jornalista Hugo Studart lança, pela Geração Editorial, a obra A Lei da Selva, de 382 páginas, neste sábado (11/3), na Bienal do Livro em São Paulo. Studart passou oito anos se metendo com homens de quepe e arquivos inéditos da Guerrilha do Araguaia, para epigrafar na história do Brasil simplesmente algo a que jamais havíamos franqueado acesso: a versão dos militares sobre a Guerrilha. A Guerrilha durou entre 1972 e 1974. No conflito tombaram mortos 90 brasileiros, e ainda há 70 corpos desaparecidos na mata.

Em A Lei da Selva, Hugo Studart traz à luz detalhes sobre a mobilização das tropas, os combates, as prisões de guerrilheiros e as execuções de prisioneiros. Revela, ainda, a até agora secreta identidade dos comandantes militares em cada uma das três campanhas e também a cadeia de comando na fase em que o Exército recebeu ordens de não fazer prisioneiros. Relata também episódios polêmicos, que tanto as Forças Armadas quanto o PCdoB até hoje tentam esconder.

A revista Consultor Jurídico publica com exclusividade os trechos do livro que redesenha essa história, escrita (como diziam os assassinos do jornalista Apulcro de Castro, no século 19) “a punhal, cacete e bala”.

Confira as novidades de Hugo Studart

RESUMO DO QUE FOI A GUERRILHA

Tanto os militares quanto o PC do B dividem a guerrilha em três campanhas distintas.[1] A primeira, iniciada em abril 1972, se deu quando as forças oficiais – Exército, Marinha e Aeronáutica – promoveram manobra de reconhecimento, integrada basicamente por conscritos, recrutas de 18 e 19 anos. Houve várias missões de reconhecimento, batizadas com nomes como Operação Peixe, Ouriço e Olho Vivo. Para os militares quase tudo deu errado. Mobilizaram 170 homens e foram embora em 40 dias. Os guerrilheiros comemoraram a vitória. Os militares, então, começaram a ocupar a região com operações de apoio social à população abandonada, enviando médicos, dentistas e sanitaristas. Batizaram essas ações de Operação Presença.

A segunda campanha, a Operação Papagaio, ocorreu entre setembro e outubro de 1972, quando o Exército voltou para realizar manobra de treinamento em campo de batalha real, desta vez com tropas profissionais – uma brigada de infantaria, forças especiais da Brigada Pára-quedista, um contingente de fuzileiros navais e uma Ala Numerada da Força Aérea. Nada menos que 3.260 homens combateram por 12 dias, todos regularmente fardados, na maior mobilização militar do País desde a II Guerra Mundial.

Nessas duas campanhas, 17 guerrilheiros morreram[2] e onze foram presos. Também morreram dois militares[3] e três moradores da região, nenhum desses em combate. Dois camponeses teriam cometido suicídio na prisão;[4] um terceiro teria sido executado pelos guerrilheiros, acusado de colaborar com o governo.[5]

Até esse ponto, os fatos teriam ocorrido dentro da normalidade de uma guerra convencional — até onde se pode considerar “normal” uma guerra fratricida e desproporcional em contingentes, humanos e materiais. Mas as Forças Armadas ainda combatiam com tropas fardadas. Enterravam nos cemitérios de Xambioá e Marabá os guerrilheiros que morriam em combate, ainda que sem identificação. Todos os prisioneiros dessas duas fases voltaram vivos para as cidades.

Deve-se registrar, contudo, excessos de ambos os lados. Da parte dos militares, prisões arbitrárias, espancamento de moradores, a morte de dois camponeses sob a custódia do Estado, como já dito, além da morte de quatro guerrilheiros que, a rigor, a tropa poderia, com algum empenho, capturar vivos e levar aos quartéis. Da parte dos guerrilheiros, justiçamentos. Um jovem camponês, de 17 anos, que guiou um grupo de militares ao esconderijo dos guerrilheiros, foi capturado, julgado por um Tribunal Revolucionário e executado a golpes de facões. Logo após a segunda campanha, teria havido a execução de mais três camponeses suspeitos de colaborar com o governo,[6] e de pelo menos um companheiro de guerrilha. Sobre essas duas campanhas, a historiografia disponível é rica em relatar e analisar os detalhes.

 é repórter especial da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 9 de março de 2006, 13h18

Comentários de leitores

1 comentário

1. Os fatos narrados - sem juizo de valor - sã...

Marchini (Outros - Internet e Tecnologia)

1. Os fatos narrados - sem juizo de valor - são impressionantes e, com certeza, pincelados do que foi a realidade. A violência de ambos os lados foi bastante mais cruenta. 2. Entendo também que ainda prevalece no imaginário coletivo a versão de guerrilheiros românticos lutando pela pátria, o que não é exclusivamente verdade; houve reação e repressão tão brutal quanto as ações iniciais, nada foi de graça, sempre foi chumbo trocado. 3. Talvez em algumas décadas a verdade menos passional apareça.

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