Consultor Jurídico

Notícias

Você leu 1 de 5 notícias liberadas no mês.
Faça seu CADASTRO GRATUITO e tenha acesso ilimitado.

Culpa dos ataques

Governador culpa “minoria branca” pela violência em São Paulo

“Eu me assusto com toda a realidade social brasileira. Acho que tudo isso foi um grande alerta para o Brasil.” A declaração é do governador de São Paulo, Cláudio Lembo, ao falar sobre os ataques a policiais e cidadãos nos últimos dias, em entrevista à Folha de S. Paulo. Segundo Lembo, a violência só vai acabar quando a “minoria branca” mudar a sua mentalidade que considerou “má” e “muito perversa”.

Quando perguntado sobre o aumento vertiginoso no número de mortes de suspeitos de envolvimento nos ataques, Lembo disse que a situação está sob controle e que a Polícia “está agindo dentro dos limites e com muita sobriedade” para evitar o pior.

Durante a entrevista, o governador além de criticar a burguesia, criticou o ex-governador Geraldo Alckmin, que disse que aceitaria ajuda federal contra as ações do PCC se ainda estivesse no cargo, e o ex-presidente FHC, que atacou a suposta negociação entre o estado e a facção criminosa para o fim dos ataques.

Leia abaixo trechos da entrevista feita pela jornalista Mônica Bergamo

Os jornais estão noticiando hoje [ontem] que houve uma matança em São Paulo na madrugada de terça. A polícia está sob controle ou está partindo para uma vingança?

Cláudio Lembo — A polícia está totalmente sob controle. Eu conversei muito longamente com o coronel Elizeu Eclair [comandante-geral da PM] e estou convicto de que ela está agindo dentro dos limites e com muita sobriedade. Todas as noites há confrontos nas ruas da cidade e esses conflitos foram exasperados nesses dias. Mas vingança, não. A polícia agiu para evitar o pior para a sociedade.

Foram 93 mortes. Elas estão dentro dos limites? O senhor tem segurança que todos que morreram estavam em confronto?

Lembo — E o conflito que houve da cidade com a bandidagem? Foi violento. É possível que tenha havido tragédias, mas pelo que estou informado não houve nada que fosse além dos confrontos diretos.

Só no IML (Instituto Médico Legal) estão 40 mortos e não se sabe nem o nome dessas pessoas.

Lembo — Os nomes vão ser revelados. Estamos resolvendo questões burocráticas, de identificação, mas vão ser revelados.

Jornalistas da Folha entraram no IML e viram fotos de pessoas mortas com tiros na cabeça. Que garantia a sociedade tem de que não morreram inocentes e de que o Estado, por meio da polícia, não está executando essas pessoas?

Lembo — Não está, de maneira alguma. E digo a você: fui muito aconselhado a falar tolices como "aplique-se a lei do Talião". Fui totalmente contrário. Faremos tudo dentro da legalidade e do Estado de Direito.

O senhor não se assusta com o número de mortos?

Lembo — Eu me assusto com toda a realidade social brasileira. Acho que tudo isso foi um grande alerta para o Brasil. A situação social e o câncer do crime é muito maior do que se imaginava. Este é o grande produto desses dias todos de conflito. Nós temos que começar a refletir sobre como resolver essa situação, que tem um componente social e um componente criminoso, ambos gravíssimos. O crime organizado trabalha com a droga. A droga é um produto caro, consumido por grandes segmentos da sociedade. Enquanto houver consumidor de drogas, haverá crime organizado no tráfico. É assim aqui, na Itália, nos EUA, na Espanha. O crime se alimenta do consumidor de drogas.

E da miséria...

Lembo — Talvez no Brasil tenha esse componente também. O crime organizado destruiu valores. O Brasil está desintegrado. Temos que recompor a sociedade. A questão social é muito grave.

O senhor é um homem público há tantos anos, está num partido, o PFL, que está no poder desde que, dizem, Cabral chegou ao Brasil.

Lembo — Essa piada é minha.

O que o senhor pode dizer para um jovem de 15 a 24 anos, que vive em ambientes violentos da periferia? Que ele vai ter escola? Saúde? Perspectivas de emprego? Como afastá-lo de organizações criminosas como o PCC?

Lembo — Acho que você tem duas situações muito graves: a desintegração familiar que existe no Brasil, e a perda... Eu sou laico, é bom que fique claro para não dizerem que sou da Opus Dei. Mas falta qualquer regramento religioso. O Brasil está desintegrado e perdeu seus valores cívicos. É ridículo falar isso mas o Brasil só acredita na camisa da seleção, que é símbolo de vitória. É um país que só conheceu derrotas. Derrotas sociais...Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa.

Que ficou assustada nos últimos dia.

Lembo — E que deu entrevistas geniais para o seu jornal. Não há nada mais dramático do que as entrevistas da Folha [com socialites, artistas, empresários e celebridades] desta quarta-feira. Na sua linda casa, dizem que vão sair às ruas fazendo protesto. Vai fazer protesto nada! Vai é para o melhor restaurante cinco estrelas junto com outras figuras da política brasileira fazer o bom jantar.

Tomar conhaque de R$ 900 [preço de uma única dose do conhaque Henessy no restaurante Fasano].

Lembo — Nossa burguesia devia é ficar quietinha e pensar muito no que ela fez para este país.

O senhor acha que essas pessoas são responsáveis e não percebem?

Lembo — O Brasil é o país do duplo pensar. Conhecemos a inquisição de 1500 até 1821. Então você tinha um comportamento na rua e um comportamento interior, na sua casa. Isso é o que está na sociedade hoje. Essas pessoas estão falando apenas para o público externo. É um país que é dúbio.

Onde o senhor responsabiliza essas pessoas?

Lembo — Onde? Na formação histórica do Brasil. A casa grande e a senzala. A casa grande tinha tudo e a senzala não tinha nada. Então é um drama. É um país que quando os escravos foram libertados, quem recebeu indenização foi o senhor, e não os libertos, como aconteceu nos EUA. Então é um país cínico. É disso que nós temos que ter consciência. O cinismo nacional mata o Brasil. Este país tem que deixar de ser cínico. Vou falar a verdade, doa a quem doer, destrua a quem destruir, porque eu acho que só a verdade vai construir este país.

Mas qual é, objetivamente, a responsabilidade delas nos fatos que ocorreram na cidade?

Lembo — O que eu vi [nas entrevistas para a Folha] foram dondocas de São Paulo dizendo coisinhas lindas. Não podiam dizer tanta tolice. Todos são bonzinhos publicamente. E depois exploram a sociedade, seus serviçais, exploram todos os serviços públicos. Querem estar sempre nos palácios dos governos porque querem ter benesses do governo. Isso não vai ter aqui nesses oito meses [prazo que resta para Lembo deixar o governo]. A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações.

O senhor diria que elas pensam que aquele rapaz de 15 a 24 anos, que vive perto da selvageria...

Lembo — ...pode ser o Bom Selvagem do Rosseau? Não pode.

O endurecimento na legislação pode resolver o problema?

Lembo — Transitoriamente pode resolver. Mas se nós não mudarmos a mentalidade brasileira, o cerne da minoria branca brasileira, não vamos a lugar algum.

O senhor diz que muita gente falou besteira sobre os episódios. Dos EUA, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso criticou a possibilidade de o governo ter feito acordo com os criminosos para cessar a violência.

Lembo — Eu acho que o presidente Fernando Henrique poderia ter ficado silencioso. Ele deveria me conhecer e conhecer o governo de SP. Eu não posso admitir nem a hipótese de se pensar isso. Para opinar sobre um tema tão amargo, tão grave, ele teria que refletir, pensar. E se informar. Quanto ao presidente [FHC], pode ser que eventualmente ele tenha precedente sobre acordos. Eu não tenho.

Vimos o senhor dando muitas entrevistas na TV. Mas SP teve um outro governador [Alckmin], tem um candidato ao governo e ex-prefeito [Serra]. O senhor ficou sozinho?

Lembo — No poder, um homem é absolutamente solitário. Houve momentos em que praticamente fiquei sozinho. Mas devo agradecer a Polícia Militar e a Polícia Civil também, que estiveram firmes ao meu lado.

O ex-governador Alckmin telefonou para o senhor em solidariedade?

Lembo — Dois telefonemas.

O senhor achou pouco?

Lembo — Eu acho normal. Os pulsos [telefônicos] são tão caros...

E o candidato José Serra?

Lembo — Não telefonou. Eu recebi telefonema da governadora Rosinha [do Rio de Janeiro] e de Aécio Neves [governador de MG], que estava em Washington, ele foi muito elegante. Um ofício do governador Mendonça, de Pernambuco. Recebi muitos apoios, do Poder Judiciário, e a Assembléia Legislativa, deputados de todas as bancadas, nenhum partido faltou.

As autoridades paulistanas garantiram, nos últimos anos, que o PCC estava desmantelado, que era um dentinho aqui ou ali. Elas enganaram os paulistanos?

Lembo — Não saberia responder. Eu não engano. Eu acho que nós ganhamos uma situação mas é um grande risco. Temos que ficar muito atentos.

Essas autoridades garantiram que o PCC tinha acabado. Ou elas enganaram...

Lembo — Ou o dentinho era maior do que elas diziam.

Ou foram incompetentes. O senhor vê terceira alternativa?

Lembo — Pode ser que tenham sido exageradas no momento de transferir segurança. Quiseram ser tranquilizadoras.

Então elas iludiram as pessoas?

Lembo — É possível.

O senhor pode dizer que o PCC pode acabar até o fim de seu governo?

Lembo — Só se eu fosse um louco. E ainda não estou com sinal de demência. Acho que o crime organizado é perigosíssimo. Ele se recompõe porque ele tem possibilidades enormes na sociedade.

O ex-presidente Fernando Henrique não telefonou?

Lembo — Não, não. Ele estava em Nova York. O presidente Lula telefonou, foi muito elegante comigo. Conversei muito com o presidente, ele me deu muito apoio. E o Márcio [Thomaz Bastos] veio, conversamos firmemente, com lealdade. E ele chegou à conclusão que não era necessário nem Exército nem a guarda nacional. Tivemos uma conversa responsável, e o equilíbrio voltou. Mostrei que a Polícia Civil e a Polícia Militar tinham condições de fazer retornar a SP a ordem e a disciplina social.

O Datafolha mostrou que 73% acham que o senhor deveria ter aceitado ajuda federal. O governador Alckmin disse que não rejeitaria a ajuda.

Lembo — Ele decidiria, se fosse governador, como achava melhor. Eu decidi da forma que achei melhor. Quanto às outras pessoas, faltou clareza de informação da minha parte. E aí me penitencio. Não é que não aceitei ajuda do governo. Ao contrário. Desde sempre houve vínculo forte entre o sistema de informação da polícia federal e a polícia de SP. A superintendência da PF em SP foi extremamente leal, solícita e dinâmica. Eu tinha uma Polícia Militar muito aparelhada. Eu não poderia tirar esse respeito e esse moral que a tropa tinha que ter naquele momento tão difícil aceitando tanques de guerra do Exército. E aí uma sociedade que gosta de paternalismo, como a brasileira, queria Exército, tropas americanas, tropas alemãs, tropas de todo o mundo aqui. Não é assim. Temos que ser fortes, saber decidir em momentos difíceis e dar valor ao que é nosso. Foi o que fiz. Em 48 horas liquidou-se o problema. O Exército é para matar o adversário. Eu queria recolher os adversários possíveis. Nós estávamos num conflito social.

Revista Consultor Jurídico, 18 de maio de 2006, 10h41

Comentários de leitores

14 comentários

Tem momentos que eu não sei em quem colocarei a...

gleice (Estudante de Direito)

Tem momentos que eu não sei em quem colocarei a culpa: na mídia, na educação, na política, nos políticos, na elite branca ou negra (qualquer uma), na menina, no menino, no presidente, no governador, na família, não sei. O que sei e posso dizer com certeza é que os valores morais, éticos estão denegridos em qualquer classe. Será que se investirmos mais em educação, saúde, conscientização o problema da violência no Brasil estaria resolvido? Será que se os governantes parassem de legislar em causa própria e começassem a olhar pela pátria táo querida isso seria resolvido? A única resposta que me vem a mente é NÃO SEI. Só Deus pode nos dá uma resposta.

O que está faltando para os nossos Governantes,...

Paulo Barreto (Funcionário público)

O que está faltando para os nossos Governantes, Judiciário e para a sociedade é mais coragem e vontade de mudar, ou seja, "Amar o próximo", soa meio religioso, mas sem estes sentimentos de respeito e amor não vamos acabar com está corrupção violenta que assola o nosso País. Entretanto, nunca foi tão necessário, como hoje reabilitar a ÉTICA. A crise que assola o nosso País é uma crise MORAL. Os descaminhos dos cidadãos, refletidos na violência, do crime organizado, no egoísmo desta "Elite podre", no desrespeito e na indiferença pela sorte dos nosso povo, assentam-se na perda de valores morais. De nada adianta reconhecer a dignidade das pessoas, se a conduta destes nossos governantes não pauta na ética e no respeito pelo próximo. O Governador foi infeliz ao dizer que a culpa pelo estado de violência vivido por todos nós é de "uma elite branca má e perversa". A culpa governador é de todos nós. Precisamos mudar urgentemente o nosso sistema educacional, político e judiciário. Estou cansado de ouvir nos noticiários as mesmas coisas sem uma atitude proativa dos mesmos. Mas acredito nas pessoas íntegras, honestas e ética do nosso País. Tenho certeza que vamos limpar está lama podre que consternam o nosso País.

Essse tipo de declaração lembra o truque da con...

Bira (Industrial)

Essse tipo de declaração lembra o truque da contra-informação muito utilizado pelo petismo para tirar atenção dos mensaleiros e máfia dos bingos.

Ver todos comentários

Comentários encerrados em 26/05/2006.
A seção de comentários de cada texto é encerrada 7 dias após a data da sua publicação.