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Entrevistas

Filhotes da ditadura

O Estado brasileiro faz uma segurança envergonhada

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ConJur — A mulher é valorizada na Polícia?

Hermes Bittencourt Cruz — A Polícia está descobrindo a mulher hoje. Antes, era usada para tratar de idoso, criança e mulheres. Hoje, já existem mulheres que são comandantes de unidades, de tropas masculinas. A mulher é mais disciplinada, é mais ordenada, é mais acostumada ao sofrimento e reclama menos. Ela também sabe administrar melhor os conflitos. Mas alguém já ouviu falar em colete a prova de balas feminino? Só agora estão pensando em um modelo feminino.

ConJur — Que motivação o policial tem para defender a população, arriscando a sua própria vida?

Hermes Bittencourt Cruz — As pessoas são movidas por valores aprendidos na família, no meio em que convivem. Quando o policial tem esses valores desenvolvidos, leva isso para a Polícia. Além disso, a Polícia é uma possibilidade de emprego. A Polícia Militar tem a vantagem de ser muito democrática. O policial tem a expectativa de promoção. Eu, por exemplo, fui soldado, cabo, sargento e cheguei a coronel sem nenhum padrinho, só estudando e me desenvolvendo. O mesmo não acontece na Polícia Civil. Lá, o investigador tem de fazer um concurso para ser promovido, não interessa se ele é o melhor na sua função ou não. A carreira é blindada. A Polícia, no geral, garante ao policial uma estabilidade de emprego e dá um status dentro da sociedade. Apesar de que, hoje, o policial tem de esconder que é policial para não ser morto.

ConJur — Uma estatística da Secretaria da Segurança Pública do estado de São Paulo diz que a razão do afastamento de 90% dos policiais civis punidos foi corrupção. Já para os policiais militares, 90% dos afastados foram punidos por questões de violência. Por que o PM é violento?

Hermes Bittencourt Cruz — Ele é um cara estressado porque ganha apenas R$ 1,2 mil por mês.

ConJur — Mas quase todo brasileiro é estressado.

Hermes Bittencourt Cruz — Mas nenhum está com a vida em risco e tem uma arma na mão. A arma é uma extensão do policial, ela amplia o eu da pessoa. O cidadão comum não tem essa ampliação do eu. Por isso, em uma situação de perigo, ele procura se defender, se refugiar. O policial não. Ele está preparado e não pode se esconder. O juramento do policial diz: “incorporando-me à Polícia Militar do estado de São Paulo, prometo cumprir rigorosamente as ordens das autoridades e dedicar-me inteiramente ao serviço da pátria cuja honra, integridade e instituições defenderei com sacrifício da própria vida”. Nós fazemos esse juramento com a bandeira nacional na mão. O policial que não enfrenta o criminoso quebra seu status dentro da própria organização.

ConJur — O que justifica a corrupção ser mais presente na Polícia Civil do que na Polícia Militar?

Hermes Bittencourt Cruz — Sir Robert Peel, criador da Polícia londrina, diz que toda polícia, mesmo civil, tem de ter uma organização militarizada. Na organização militar, existem graus hierárquicos bem definidos e dificilmente um se mistura com o outro. Essa hierarquia impede a promiscuidade. Assim, a corrupção fica isolada, individualizada.

ConJur — O policial ganha R$ 1,2 mil e lida direto com traficantes de drogas, por exemplo, que lidam com montanhas de dinheiro. É fácil resistir à tentação?

Hermes Bittencourt Cruz — Não é fácil porque a alta frustração de necessidade predispõe a pessoa ao crime. O policial vive em um quadro de alta frustração de necessidade e nem sempre os inibidores externos funcionam. Isso desequilibra. O policial pode ter inibidores internos, mas está com o filho doente em casa, morando na favela. É exigir muito do ser humano pedir que ele resista a essa tentação. Se até pessoas altamente posicionadas na política nacional não resistem, o que dirá do coitado do policial? Ele não é um super-homem.

Conjur — Com tudo isso, é estimulante ser policial no Brasil?

Hermes Bittencourt Cruz — Levando em conta as dificuldades do mercado de trabalho brasileiro, ser policial é uma boa opção. Qualquer concurso para a Polícia hoje, com mil vagas, tem 100 mil candidatos.

Conjur — Mas quem é atraído por esse salário de R$ 1,2 mil?

Hermes Bittencourt Cruz — Corre-se o risco de atrair aqueles que têm menor possibilidade no mercado de trabalho. Se considerarmos que essa menor possibilidade é decorrente de baixo nível cultural e físico, complica, não é? Por isso que o estímulo é importante. A Guarda Civil de São Paulo, por exemplo, dava pontos para o bom policial. Quando chegava a quatro pontos, ele era promovido. Essa expectativa torna o cidadão bom policial porque ele sabe que, mesmo não tendo estudado, tem um reconhecimento da corporação.

Conjur — O policial tem a mentalidade de que ele é o bem combatendo o mal?

Hermes Bittencourt Cruz — Na década de 70, fiz uma pesquisa sobre a religião dos policiais e o número de faltas cometidas por eles. Cheguei à conclusão de que aqueles muito religiosos têm muito mais probabilidade de se tornar um justiceiro do que aqueles que não são religiosos. Isso porque existe o sentimento religioso de que o pecado deve ser castigado e que o bem deve sobreviver. Essa noção de bem e mal não vem só da Polícia.

 é repórter da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 4 de junho de 2006, 7h00

Comentários de leitores

31 comentários

Um pais de que em cada 100 presos um é punido, ...

Luís da Velosa (Advogado Autônomo)

Um pais de que em cada 100 presos um é punido, seria melhor encerrar as portas prisionais. Não há aparelhamento legal, moral da tropa, seja lá o que for, que posssa, dentro desse estado de coisas, perseguir-se a justiça que vorre entre os duendes com mais verlocidade ainda e muito menos sábia e mais atordoada. RUY Barbosa, abstêmio, antetabagista, gosva de ler Tico-Tico e tomar um conhaquezinho antes do teatro, certamente jamais imaginou que a justiça correria como uma avestruz diante de certas absurdezas. Mas, aí está. Escorraçam a justiça, puxa vida!

Caros amigos. voltei para acrescentar: aqui n...

amorim tupy (Engenheiro)

Caros amigos. voltei para acrescentar: aqui no ES em um bairro Da cidade de CARIACICA , que fica próximo a escola da PM. Trabalhadores ficavam indignados com a PM que saia palas ruas as 05 horas da madruga marchando e repetindo : AQUI É A POLICIA MILITAR - ESTA NA HORA DE ACORDAR! , esqueciam os PM que muitos dos " dorminhocos' eram trabalhadores que tinha trabalhado ate altas horas da noite e lá iam os bravos PM pelas ruas atrapalhando os ônibus dos que tinham já acordado e iam pegar no Batente; O PCC acabou com isso também.

Caros amigos. negocio é o seguinte: Em países...

amorim tupy (Engenheiro)

Caros amigos. negocio é o seguinte: Em países de língua inglesa a policia é o braço armado da população = aquela historia do rei contra os barões etc. No brasil adotou se o sistema francês , a policia é o braço armado do Governo, e como o governo não é e nem se importa em ser bem visto pelo povão , a policia fica acuada pelos bandidos que tem de certa forma a "torcida" inconsciente da população , haja visto que muitos estão satisfeitos pelo fato de muitos policiais não terem coragem de se manifestarem "ser policiais" nas vizinhanças onde moram e Graças ao PCC acabou o " sou policia" em qualquer briga de vizinho ou encostadinha no transito ou esbarrão em um bar. Agora o grande líder chinês também ensinava em sua primeira lição : faça amigos e aliados ou pelo menos não faça inimigos. Então é o caso das POLICIAS se debandarem para o lado do POVO e deixar de ser braço armado do governo. Um exemplo Uma repartição publica que deve abrir as 12 horas , e já deu 12 horas e 30 minutos e os funcionários estão lá no maior bate papo, começa um zum- zum e empurra - empurra na fila ,acionada a policia tradicional já vem batendo no povão = Tem que passar a chegar batendo no chefe da repartição. Outro exemplo = Você com todos imposto pagos, já cansado de dirigir em uma estrada esburacada cujo dinheiro da manutenção foi parar no bolso do ministro ,comete uma pequena infração e lá vem o guarda com o maior rompante lhe aplicar varias multas e quando o povão cerca o ministro em um canto a policia corre para socorrer o ministro ( nestes casos nunca falta viatura). Sem querer que você fica feliz em saber que PCC desativou o Posto rodoviário. É por ai a solução ,POLICIA COMUNITARIA ATENDENDO A COMUNIDADE ,SEGUINDO NORMAS DA COMUNIDADE e sendo fiscalizada pela COMUNIDADE ! O resto é bla bla de intelectoide abobalhado. Um abraço

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