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O novo advogado

Entrevista: Ary Oswaldo Mattos Filho

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ConJur — A Faap encontrou uma forma interessante de estimular o aperfeiçoamento da língua portuguesa, para capacitar o aluno a falar em público e ajudar na prática de negociação e em um eventual júri, que são aulas de teatro. O senhor acha que esta é uma idéia criativa que deve ser aproveitada?

Mattos Filho — Diferentemente das aulas de teatro oferecidas pela Faap, a GV oferece aulas no primeiro ano para o aluno aprender a falar em público e se desinibir. O aluno também aprende a trabalhar em grupo, o que será de extrema importância na sua vida profissional. Porque o advogado não é mais aquela coruja que fica na sua toca tendo as idéias salvadoras para o país.

ConJur — Nessa linha de aulas práticas há outras iniciativas da FGV?

Mattos Filho — Quase todas as aulas são participativas, com debates e discussões. O professor é muito mais um coordenador de debate do que aquele que vai descer da montanha com a tábua dos dez mandamentos.

ConJur — Quais são as novas áreas do Direito que acentuam o descompasso do ensino com a realidade brasileira?

Mattos Filho — O Direito Penal Econômico, o Direito Ambiental, o Direito da Informática. Existem áreas extremamente sofisticadas, como a Bancária, de Mercados de Capitais, de Transações Internacionais.

ConJur — As grandes empresas transnacionais já não vêm para o Brasil já com seus prestadores de serviços jurídicos a tiracolo para resolver seus problemas?

Mattos Filho — Não. As grandes empresas transnacionais, ou multinacionais, ou de capital estrangeiro, não vêm com seus prestadores de serviço para o Brasil. Por exemplo, os escritórios americanos, ingleses, que prestam serviço no Brasil só atuam para empresas brasileiras que possuem problemas no exterior.

ConJur — Aquele grito de alerta da invasão dos escritórios estrangeiros no Brasil não tem sentido?

Mattos Filho — Não tem sentido. Pelo menos até agora são poucos escritórios estrangeiros no Brasil e para atender problemas de empresas brasileiras no exterior. Esses escritórios estrangeiros não vieram para o Brasil fazer Direito brasileiro, nem têm esse objetivo e nem competência para isso. Os advogados americanos não ameaçam os advogados brasileiros no Brasil, assim como os brasileiros não ameaçam os advogados argentinos no Direito argentino. Um escritório não tem a capacidade de interpretar o Direito dos vários países em que eles estão localizados, cada advogado tem sua cultura local e sabe trabalhar dentro do Direito aplicado na sua sociedade. No Brasil, os escritórios estrangeiros vieram, se instalaram e não cresceram.

ConJur — Por que os escritórios estrangeiros não cresceram no Brasil?

Mattos Filho — Porque esses escritórios não estão no Brasil para dar consultoria sobre o Direito americano, sobre o Direito inglês, sobre o Direito europeu e continental. Estão no Brasil para dar consultoria no Direito brasileiro.

ConJur — O senhor acha essa noção de que os escritórios estrangeiros tiram clientes dos brasileiros é errônea?

Mattos Filho — Dentro da estrutura latino-americana não há essa concorrência acirrada. Se fosse, por exemplo, na comunidade européia em que um advogado pode trabalhar em qualquer país da Comunidade Européia desde que preencha determinados requisitos mínimos, a preocupação com a concorrência seria cabível. Agora, é importante começar a treinar os advogados brasileiros para que eles possam dar suporte às empresas brasileiras em assuntos internacionais. Porque quando uma empresa grande tem um problema na OMC, por exemplo, ela vai contratar um daqueles grandes escritórios de Washington, porque no Brasil não tem ninguém que saiba fazer isso com clareza.

ConJur — Os escritórios estrangeiros também têm mecanismos próprios, como cursos, para preparar o recém formado para entrar no mercado ou isso é uma característica típica dos grandes escritórios brasileiros?

Mattos Filho — Não é uma característica brasileira. Os grandes escritórios do mundo têm a preocupação de proporcionar educação continuada. E facilidades como as feiras de emprego. A oportunidade de oferecer cursos aos advogados diminui ou cessa nos momentos em que o mercado entra em crise.

ConJur — Como funcionam as feiras de emprego?

Mattos Filho — As próprias faculdades organizam. Fazem uma espécie de book, com fotografia e currículo para enviar aos interessados ou colocar em um site. Depois há um contato entre a universidade e o escritório para definir que tipo de profissional o escritório pretende contratar e então, eles marcam entrevistas. Por exemplo, a Columbia fecha um hotel em Nova York durante dois dias em que os alunos americanos, ingleses, brasileiros, argentinos, e outros inscritos, com hora marcada, são entrevistados.

ConJur — A China é um mercado para os advogados brasileiros fazerem bons negócios?

Mattos Filho — Para o Brasil não sei se é um grande negócio. O escritório Mattos Filho já participou de algumas reuniões lá na China com comitivas de empresários brasileiros. Não é um mercado fácil porque a cultura chinesa é muito diferente da nossa. Não temos muitas empresas brasileiras se instalando na China, temos mais exportação. Eu não diria que é um mercado fundamental por enquanto, poderá vir a ser no futuro.

ConJur — No fim do ano passado, a demissão do professor Marcelo Neves pela FGV causou um tumulto internacional. O que aconteceu?

Mattos Filho — Marcelo Neves comunicou ao diretor administrativo que iria para a Alemanha passar três semanas, dois dias antes da sua viagem. E nós, da direção da FGV, não aceitamos que ele fosse. Nosso compromisso é com o aluno, ele é mais importante. Mas o professor ficou furioso. Quando ele voltou, continuou fazendo tumulto com essa história. Então, ao término das aulas, nós o chamamos à sala do diretor e o demitimos. Só isso. Não é a primeira vez, ele já teve problemas em várias faculdades que passou. Ele é um sujeito intelectualmente brilhante, mas a nossa obrigação de respeito com o aluno é incompatível com uma viagem de três semanas durante o semestre. Matar aula é inaceitável. Chegar depois que a aula começou ou sair antes de terminar é inconcebível. Desrespeitar o aluno também não é tolerado.

ConJur — Como o senhor viu a manifestação internacional?

Mattos Filho — Achei ridícula. Porque se amanhã um amigo meu, advogado americano, me fala que fizeram uma sacanagem com um amigo dele e me pede para assinar um abaixo-assinado, eu assino, sem me preocupar realmente em entender o que aconteceu. Ele trabalhou na escola, recebeu o que tinha que receber, e foi mandado embora. O pessoal da imprensa se diverte porque isso é sangue, isso vende. Mas ser demitido é um fato corriqueiro, somos todos demissíveis a qualquer momento. Não existe nenhum monstro sagrado entre nós. Mandar professor embora é um negócio normal. Não é o primeiro e não vai ser o último. Nós temos um compromisso. O professor trabalha na GV enquanto for bem avaliado pelos alunos, produzir didaticamente e tiver um convívio razoável.




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 é repórter do jornal DCI.

Revista Consultor Jurídico, 5 de fevereiro de 2006, 12h31

Comentários de leitores

7 comentários

É impressionante como as empresas de ensino con...

Armando do Prado (Professor)

É impressionante como as empresas de ensino conseguem espaço e marketing para se vender, como realmente são: produto a ser vendido e comprado. Daqui há pouco teremos a FEI com curso de Direito com matérias como Cálculo, Matemática superior, etc adaptadas ao mundo lega,uma vez que o advogado que vai trabalhar nas construtoras precisam...(sic). A ideologia falsifica realidades e consciências. Sejamos claros: burgueses e deslumbrados como esse diretor, formado às custas do povo, cantando vantagens do mundo empresarial, mas não deixando que esqueçam que estudou na S. Francisco. Vão pentear macacos no Burundi!

Como acadêmica de direito concordo, em parte, c...

denorie (Estudante de Direito)

Como acadêmica de direito concordo, em parte, com o que foi dito nesta entrevista, por este representante ilustre da elite acadêmica brasileira. Há uma abismo entre o que nos ensinam e a realidade, sem dúvida. As aulas são enfadonhas e todos fingem. Os alunos e alunas com expressões admiradas, fingem que aprendem e os professores e professoras fingem que ensinam. O pior é que nem mesmo para o exame da Ordem estamos sendo preparadas(os). Entretanto, a realidade não é uniforme. Existe a casta que estuda nas universidades públicas e o resto. Para a elite tudo: aprovação no exame, aprovação nos concursos públicos, especialmente magistratura e MP, enfim qualidade de ensino. Já para nós, que compramos o nosso diploma, pois se não pagarmos as mensalidades não o receberemos, não resta alternativa alguma, a não ser a frustração, quando da reprovação pela OAB. A solução de turno integral de ensino, defendida pelo eminente professor Ary Oswaldo Mattos Filho, infelizmente, é tipicamente elitista, pois exclui quem não é filhinho(a) de papai e precisa trabalhar. A proposição é própria de quem é privilegiado e que tem uma visão míope sobre os problemas brasileiros. Márcia de Noriê(de.norie@terra.com.br)

Concordo com o colega "Félix Soibelman", pois t...

Leonardo Almeida (Advogado Autônomo)

Concordo com o colega "Félix Soibelman", pois tive a mesma sensação durante a leitura da entrevista. FGV em foco e o "amaciamento do ego" do digno Diretor ao repetirem diversas vezes que ele se formou na tradicional Faculdade do Largo São Francisco. Devemos sempre nos ater aos "bastidores" e à real e verdadeira intenção de toda a matéria informativa que nos é oferecida. Entretanto, se "peneirarmos" isso, tem alguns aspectos muito interessantes na matéria.

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