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O novo advogado

Entrevista: Ary Oswaldo Mattos Filho

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Mattos Filho — Poderá vir a ser, mas não do jeito que é hoje. O estágio é uma mão de obra barata em que o aluno fica o dia inteiro no trabalho e a noite sai correndo para a faculdade. A escola de Direito da GV não disputa espaço com o empregador nos primeiros anos. No quarto e no quinto ano, o empregador vai poder disputar o espaço. E a disputa será acirrada, porque a GV tem convênios com escolas de Direito no exterior — Estados Unidos, Europa, Argentina, México — em que os alunos poderão fazer estágios por seis meses ou um ano valendo créditos.

ConJur — O que o senhor acha da concorrência?

Mattos Filho — Há uma super oferta de faculdades de Direito que pode ser constatada pela quantidade de publicidade que se faz e pelos levantamentos do MEC [Ministério da Educação]. Se não me engano, segundo o último levantamento do MEC, a cidade de São Paulo tem 1,1 vaga por aluno. Isso significa que o problema do mundo do Direito não é mais vaga. É qualidade.

ConJur — As escolas tradicionais são realmente melhores ou apenas têm um formato mais parecido com aquele que a OAB estabelece como padrão ideal?

Mattos Filho — A USP criou um padrão de escola de Direito que foi reproduzido na PUC, Mackenzie, Álvares Penteado. Se formos analisar a razão para o nascimento da São Francisco, onde fiz graduação, mestrado e doutoramento, vamos verificar que essa faculdade nasceu criada por D. Pedro I para gerar a elite política que iria dirigir o país depois da independência de Portugal. A USP tem uma função muito forte, que é de interferir na situação política do país. Foi assim em 1932 e em 1964. Só que isso não se repetiu, e nem daria, na PUC, Mackenzie, Álvares Penteado, na Uniban, e em outras. Tem um tipo de advogado que a São Francisco faz maravilhosamente bem. Agora, não significa que não exista uma demanda para um outro tipo de advogado que não sai da USP. Isso se repete em vários países. Um aluno que vai fazer faculdade de Direito em Chicago está direcionado para um tipo de atividade. Aquele que vai para a universidade de Nova York, vai para o mercado financeiro, mercado de capitais. Aquele que vai para Harvard, vai para política, políticas públicas ou para o terceiro setor. São perfis diferentes para atender demandas diferentes.

ConJur — A FGV fez uma opção por formar um profissional com foco específico na advocacia empresarial internacional ou nacional. Esse profissional, por outro lado, não vai ser menos completo? Não vai ter uma visão mais restrita do Direito?

Mattos Filho — Pelo contrário. Ele vai ter uma visão mais completa. Como ele passa os três primeiros anos em tempo integral, antes da primeira metade do terceiro ano ele cumpriu a grade inteira de uma boa faculdade de Direito. Então, não é que ele vai sair daqui um apertador de parafuso e de lá um gênio da oratória. Nada disso. Nossa carga hora/aula é muito maior que a de uma boa faculdade de Direito. E a metodologia usada pela FGV não tem nada a ver com a metodologia Coimbrã. Por isso conseguimos um resultado muito mais visível.

ConJur — O que é metodologia Coimbrã?

Mattos Filho —Aula expositiva.

ConJur — É uma menção à Coimbra, Portugal?

Mattos Filho — É uma expressão criada por Santiago Dantas, em 1954, quando deu aula magna na então faculdade de Direito da Universidade do Brasil no Rio de Janeiro. Ele faz uma crítica que é atual, mesmo passados 50 anos. Quer dizer que o professor chega na sala de aula, senta, dá seu recado e vai embora. Como conseqüência disso, há uma cristalização do Direito, já que a mensagem que o professor passa foi aprendida no passado, quando ele era aluno. E o aluno da geração seguinte vai repetir essa mesma mensagem. Essa situação gera um descompasso entre o ensino das faculdades e a realidade da sociedade brasileira que não é estática.

ConJur — Qual é a realidade brasileira no mundo jurídico hoje?

Mattos Filho — É atender a demanda do empresário e do escritório e formar esse profissional que o mercado precisa. É muito importante ensinar uma série de coisas, mas há que ter uma preocupação também com a empregabilidade. Não se pode soltar os alunos como se fossem ETs, que caem em uma realidade sem a menor idéia de como se atua nela. E quem diz qual é a realidade é quem emprega.

ConJur — O Brasil valorizou, pelo menos nos últimos 40 anos, o aspecto político em faculdades como a São Francisco. Percebemos, no ensino do Direito, um componente discursivo muito forte. Esse fenômeno de certa forma enfraqueceu o lado técnico do ensino do Direito?

Mattos Filho — Ensinar é bastante complexo. Na universidade ninguém se preocupa com técnicas de ensino. Os professores reproduzem o que aprenderam na faculdade. Mas isso não é método. Os Estados Unidos fizeram um levantamento, há bastante tempo, que mostra que em três semanas depois de uma aula expositiva, a lembrança dos alunos sobre a aula é de menos que 5%. Ou seja, 95% da memória sobre a aula se perde. Isso significa que nós, professores, precisamos verificar que metodologias possibilitam o índice de lembrança mais alto possível. Nesse ponto, o Brasil está na idade da pedra lascada. Na GV há um núcleo permanente de metodologia para aperfeiçoar o ensino, porque se o professor não aprende a ensinar, seu trabalho está frustrado.




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 é repórter do jornal DCI.

Revista Consultor Jurídico, 5 de fevereiro de 2006, 12h31

Comentários de leitores

7 comentários

É impressionante como as empresas de ensino con...

Armando do Prado (Professor)

É impressionante como as empresas de ensino conseguem espaço e marketing para se vender, como realmente são: produto a ser vendido e comprado. Daqui há pouco teremos a FEI com curso de Direito com matérias como Cálculo, Matemática superior, etc adaptadas ao mundo lega,uma vez que o advogado que vai trabalhar nas construtoras precisam...(sic). A ideologia falsifica realidades e consciências. Sejamos claros: burgueses e deslumbrados como esse diretor, formado às custas do povo, cantando vantagens do mundo empresarial, mas não deixando que esqueçam que estudou na S. Francisco. Vão pentear macacos no Burundi!

Como acadêmica de direito concordo, em parte, c...

denorie (Estudante de Direito)

Como acadêmica de direito concordo, em parte, com o que foi dito nesta entrevista, por este representante ilustre da elite acadêmica brasileira. Há uma abismo entre o que nos ensinam e a realidade, sem dúvida. As aulas são enfadonhas e todos fingem. Os alunos e alunas com expressões admiradas, fingem que aprendem e os professores e professoras fingem que ensinam. O pior é que nem mesmo para o exame da Ordem estamos sendo preparadas(os). Entretanto, a realidade não é uniforme. Existe a casta que estuda nas universidades públicas e o resto. Para a elite tudo: aprovação no exame, aprovação nos concursos públicos, especialmente magistratura e MP, enfim qualidade de ensino. Já para nós, que compramos o nosso diploma, pois se não pagarmos as mensalidades não o receberemos, não resta alternativa alguma, a não ser a frustração, quando da reprovação pela OAB. A solução de turno integral de ensino, defendida pelo eminente professor Ary Oswaldo Mattos Filho, infelizmente, é tipicamente elitista, pois exclui quem não é filhinho(a) de papai e precisa trabalhar. A proposição é própria de quem é privilegiado e que tem uma visão míope sobre os problemas brasileiros. Márcia de Noriê(de.norie@terra.com.br)

Concordo com o colega "Félix Soibelman", pois t...

Leonardo Almeida (Advogado Autônomo)

Concordo com o colega "Félix Soibelman", pois tive a mesma sensação durante a leitura da entrevista. FGV em foco e o "amaciamento do ego" do digno Diretor ao repetirem diversas vezes que ele se formou na tradicional Faculdade do Largo São Francisco. Devemos sempre nos ater aos "bastidores" e à real e verdadeira intenção de toda a matéria informativa que nos é oferecida. Entretanto, se "peneirarmos" isso, tem alguns aspectos muito interessantes na matéria.

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