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O novo advogado

Entrevista: Ary Oswaldo Mattos Filho

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Ary - por SpaccaAs escolas de Direito, em regra, não formam bacharéis com a habilitação exigida pelo mercado. Em especial nas novas áreas do Direito, como a que envolve as novas tecnologias (informática e internet, por exemplo), a questão ambiental, o direito penal econômico, além de áreas sofisticadas, como a bancária, o mercado de capitais e as mutantes transações internacionais.

Uma experiência nesse sentido está sendo empreendida pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Para entender o projeto a Consultor Jurídico entrevistou o diretor da escola de Direito da FGV em São Paulo, o advogado Ary Oswaldo Mattos Filho, sócio do Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr. e Quiroga Advogados.

É o diretor da escola quem afirma que os bacharéis brasileiros concluem seus cursos universitários com formação distante da realidade empresarial do país — incapazes de orientar o empresário em sua atividade.

Formado em Direito pela tradicional faculdade do Largo de São Francisco, onde fez mestrado e doutorado, Mattos Filho diz que a grade curricular das boas faculdades de Direito é defasada. “Hoje em dia é inviável que um advogado que vá se dedicar à atividade jurídico-empresarial não tenha uma boa formação de contabilidade, finanças, micro e macroeconomia,” ilustra.

Nesta entrevista aos jornalistas Adriana Aguiar e Márcio Chaer, concedida em seu escritório, o diretor da FGV fala também da polêmica demissão do professor Marcelo Neves, que gerou um abaixo-assinado internacional. “Ser demitido é um fato corriqueiro, somos todos demissíveis a qualquer momento”, afirma.

Leia a entrevista

ConJur — As escolas preparam o profissional que o mercado espera?

Mattos Filho — Há uma demanda não suprida pelas faculdades de Direito. Escritórios e empresas que querem um profissional com perfil diferente do que as escolas tradicionais oferecem. Advogados que não digam para a empresa simplesmente o que não se pode fazer, mas que ofereçam alternativas, digam quais são as possibilidades e as conseqüências de cada opção. Descobrimos isso com uma ampla pesquisa de mercado com os grandes escritórios de advocacia e as empresas de colocação para criar a faculdade de Direito da FGV em São Paulo.

ConJur — O que mais a pesquisa apontou?

Mattos Filho — Mostrou também que a grade curricular das boas faculdades de Direito é defasada da realidade empresarial brasileira. Hoje em dia é inaceitável que um advogado que vá se dedicar à atividade jurídico-empresarial não tenha boa formação de contabilidade, finanças, micro e macroeconomia. Principalmente se esse advogado for trabalhar com Imposto de Renda de Pessoa Jurídica, ou Direito Societário, ou quiser participar de um processo de aquisição. O advogado que quiser assessorar um empresário brasileiro em negociação com uma parte estrangeira precisa saber também o inglês jurídico, que é muito diferente do inglês usado em viagens.

ConJur — Que outras expectativas das empresas não estão sendo supridas pelos advogados?

Mattos Filho — O advogado que sai das tradicionais faculdades de Direito é litigante. E a última coisa que um empresário deseja é ir ao Poder Judiciário para resolver suas questões, dada a demora e a incerteza. Obviamente que o empresário fica feliz se for réu, porque demora bastante para ter resultado. Mas a idéia é formar um advogado com alta capacidade de negociação. Isso não quer dizer que não há espaço para advogados formados em uma faculdade de Direito tradicional. Esses alunos certamente estarão empregados. Mas há um novo mercado que precisa de um advogado diferenciado, que consegue agrupar o conhecimento de economia e de administração de empresas ao Direito, como a Fundação Getúlio Vargas pretende formar. Isso se manifestou de uma forma muito positiva no primeiro vestibular que fizemos no fim de 2004, com 24 candidatos por vaga. Foi um número bastante expressivo, porque a USP teve 22 candidatos por vaga e depois veio a PUC, com 7 candidatos. Claro que temos de analisar isso em números estatísticos, já que a USP oferece 400 vagas e a PUC também. A FGV oferece 50 vagas.

ConJur — Que novas disciplinas foram incluídas no currículo da FGV para aproximar a demanda da oferta?

Mattos Filho — Os alunos, que têm aula em período integral, fazem microeconomia, macroeconomia, contabilidade em finanças, guia jurídico, entre outras matérias. Eles têm algumas aulas com os alunos de administração de empresas e de economia. Têm o mesmo professor, a mesma prova, o mesmo material didático e vão aprender a conversar. E boa parte dos professores do primeiro ao terceiro ano tem dedicação integral, o que exige muito do aluno.

ConJur — Essa grade diferenciada impossibilita os alunos fazer estágio. O estágio não é importante para a formação do advogado?

 é repórter do jornal DCI.

Revista Consultor Jurídico, 5 de fevereiro de 2006, 12h31

Comentários de leitores

7 comentários

É impressionante como as empresas de ensino con...

Armando do Prado (Professor)

É impressionante como as empresas de ensino conseguem espaço e marketing para se vender, como realmente são: produto a ser vendido e comprado. Daqui há pouco teremos a FEI com curso de Direito com matérias como Cálculo, Matemática superior, etc adaptadas ao mundo lega,uma vez que o advogado que vai trabalhar nas construtoras precisam...(sic). A ideologia falsifica realidades e consciências. Sejamos claros: burgueses e deslumbrados como esse diretor, formado às custas do povo, cantando vantagens do mundo empresarial, mas não deixando que esqueçam que estudou na S. Francisco. Vão pentear macacos no Burundi!

Como acadêmica de direito concordo, em parte, c...

denorie (Estudante de Direito)

Como acadêmica de direito concordo, em parte, com o que foi dito nesta entrevista, por este representante ilustre da elite acadêmica brasileira. Há uma abismo entre o que nos ensinam e a realidade, sem dúvida. As aulas são enfadonhas e todos fingem. Os alunos e alunas com expressões admiradas, fingem que aprendem e os professores e professoras fingem que ensinam. O pior é que nem mesmo para o exame da Ordem estamos sendo preparadas(os). Entretanto, a realidade não é uniforme. Existe a casta que estuda nas universidades públicas e o resto. Para a elite tudo: aprovação no exame, aprovação nos concursos públicos, especialmente magistratura e MP, enfim qualidade de ensino. Já para nós, que compramos o nosso diploma, pois se não pagarmos as mensalidades não o receberemos, não resta alternativa alguma, a não ser a frustração, quando da reprovação pela OAB. A solução de turno integral de ensino, defendida pelo eminente professor Ary Oswaldo Mattos Filho, infelizmente, é tipicamente elitista, pois exclui quem não é filhinho(a) de papai e precisa trabalhar. A proposição é própria de quem é privilegiado e que tem uma visão míope sobre os problemas brasileiros. Márcia de Noriê(de.norie@terra.com.br)

Concordo com o colega "Félix Soibelman", pois t...

Leonardo Almeida (Advogado Autônomo)

Concordo com o colega "Félix Soibelman", pois tive a mesma sensação durante a leitura da entrevista. FGV em foco e o "amaciamento do ego" do digno Diretor ao repetirem diversas vezes que ele se formou na tradicional Faculdade do Largo São Francisco. Devemos sempre nos ater aos "bastidores" e à real e verdadeira intenção de toda a matéria informativa que nos é oferecida. Entretanto, se "peneirarmos" isso, tem alguns aspectos muito interessantes na matéria.

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