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Desenvolvimento verde

Antes de criticar o Brasil, Europa deveria fazer a lição de casa

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Estudo divulgado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê que a China, que ultrapassou o Japão, chegará ao fim de 2006 como o segundo maior investidor em P e D do mundo (pesquisa e desenvolvimento de processos e produções), atrás apenas dos Estados Unidos, que são cruciais para o aumento da produtividade e da competitividade. Exemplo disso é a construção da planta de automóveis populares no Uruguai.

A China, à medida que crescem inexoravelmente os salários no seu interior, tem de aumentar a produtividade e já começa a exportar não apenas produtos, cada vez mais baratos, mas suas corporações, especialmente no sudeste asiático e na África, onde tem interesses em matérias primas. Recentemente, reuniu em Pequim 128 dignitários africanos, ofertando parcerias, coisa que a nossa diplomacia de salamaleques não sabe fazer.

Dirk Pilat, diretor da divisão de política para a ciência e a tecnologia da OCDE, declarou-se surpreso. “O rápido crescimento da China tanto em relação ao dinheiro investido quanto ao número de pesquisadores é assombroso.” O investimento nesta área quintuplicou entre 1995 e 2005, chegando a US$ 136 bilhões.

Não era para se espantar. A China tem US$ 1 trilhão em reservas cambiais. Os japoneses gastaram US$ 130 bilhões e os americanos US$ 320 bilhões. Sem conflitos religiosos, étnicos e partidários, o império do meio é como um elefante bem conduzido por um guia que reflete sobre todos os caminhos, na linha de Confúcio.

O partido comunista chinês exerce o mesmo papel que a dinastia Meiji exerceu no Japão: o planejamento estratégico modernizador. No Japão, foi preciso superar o conservadorismo do passado. Na China, as idéias ortodoxas de Mao Tse Tung. E tudo se fez silenciosamente, como é da índole dos orientais, feita de persistência, paciência e determinação. O Brasil ficou na pior posição entre os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China). Os nossos investimentos nesta área (3% de aumento) corresponderam a menos da metade da Índia (7%) e da Rússia (8%).

Nós somos populosos e continentais. Território, população, recursos naturais e base industrial nos obrigam a um destino de grandeza, mas nos faltam governo e planejamento. O presidente Lula está coberto de razão nesta sua etapa juscelinista. è uma pena estar cercado de uma chusma de incompetentes. Vários são os exemplos. Compramos a idéia do conservadorismo florestal com sectarismo desinformado. O sudeste asiático desmatou 10 vezes mais. Os europeus, que já desmataram tudo, devastaram 8% de suas parcas florestas, mesmo com reposição. Nós ficamos em 3% de desmate, uma vitória a ser difundida, mas que não foi. E criamos a maior reserva vegetal do orbe.

Razão assiste ao ex-ministro Roberto Rodrigues, lamentando a nossa péssima infra-estrutura. “Até 2003, o Brasil era o primeiro exportador mundial de café, suco de laranja, açúcar e tabaco. E, nos últimos quatro anos, assumiu também a liderança em carne bovina, carne de frango, no complexo soja e em etanol. São oito produtos que conquistaram mercados firmes. (...) Eles foram o fruto da grande capacidade dos nossos produtores rurais, que incorporaram novas tecnologias desenvolvidas pela Embrapa e outros órgãos estaduais de pesquisa, de forma eficiente, produzindo estes produtos com a qualidade exigida pelo mercado internacional, a preços competitivos. (...) E, ainda mais, com o reconhecimento pela OCDE, de que o Brasil é o segundo país do mundo com menos subsídios agrícolas: os subsídios do governo brasileiro equivalem a 3% do PIB agrícola nacional, perdendo apenas para a Nova Zelândia, com 2%”.

Na Europa, se diz de modo solerte, por obra e graça de nossos concorrentes, no afã de boicotar os nossos produtos, que o agronegócio brasileiro é feito às custas do desflorestamento da Amazônia, sem falar no MST, na reforma agrária e no trabalho escravo, que no Brasil é crime inafiançável.

Na verdade, só 0,3% da soja brasileira é produzida na Amazônia. Uma insignificância! Agora, até o etanol é criticado, pois dizem que vamos derrubar a floresta tropical para plantar cana. Asneira suprema, digo eu, na companhia autorizada do excelente ex-ministro Roberto Rodrigues, até porque o volume de chuvas na região não permite o amadurecimento da cana, sendo tolice técnica e econômica tal uso daquela terra.

Os estudos mostram o que aconteceu com as florestas primárias no mundo, nos últimos séculos. Em 1950, a Europa tinha 0,9% das florestas primárias do planeta e o Brasil, 18,4%. Hoje, a Europa tem 0,1% e o Brasil, 28,3%. Portanto, a Europa reduziu nove vezes sua participação e o Brasil aumentou a sua em quase 10%. Então, antes de nos criticar, os europeus deviam fazer sua lição de casa. Nesta hora, nossa diplomacia inexiste. Lisboa e Roma são cargos honoríficos. Mas em Paris ou Londres tampouco reagimos.

O Brasil precisa de energia hidráulica. Seis grandes projetos estão brecados pelo Ibama e quejandos. Os concorrentes agradecem. Continuamos a ser um país de fancaria.

(Artigo publicado no jornal Estado de Minas)

Sacha Calmon é advogado tributarista, professor titular de Direito Financeiro e Tributário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e sócio do escritório Sacha Calmon – Misabel Derzi Consultores e Advogados.

Revista Consultor Jurídico, 26 de dezembro de 2006, 11h30

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