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Cabeças do Direito

Nas entrevistas da ConJur, um panorama da realidade

Por 

ConJur — O que é o desvio de comportamento?

Leonardo Sauaia — Em casos mais perceptiveis, como um retardo mental, ou até em outros menos nítidos, como os transtornos de personalidade, os desvios de comportamentos acontecem quando há inflexibilidade no comportamento de uma pessoa. Essa inflexibilidade acaba prejudicando o relacionamento com o mundo e com outros indivíduos. Quando isso existe, a pessoa não sabe reagir de uma outra forma a não ser aquela. Não que ela não possa aprender ou reaprender. O mais importante é saber se essas pessoas têm consciência das conseqüências dos seus atos. Inclusive, a falta de consciência é menos freqüente.

ConJur — A rua perverte menos do que a família?

Leonardo Sauaia — Não. A família pode ser mais problemática, mas é ela que oferece carinho e que provê cuidado nos momentos que a criança realmente precisa. A rua pode oferecer mais liberdade, só que é um meio extremamente hostil. Se a criança se endividar, por exemplo, a forma de cobrar a dívida é um pouco mais selvagem do que dentro de casa. Quando a criança precisa de acolhimento, é mais difícil encontrar. Em casa também pode ser que esse acolhimento é pouco disponível, ou pouco acessível. Uma das possibilidades para uma criança quando ela é internada na Febem é de uma intervenção não só no comportamento dessa criança, mas também no convívio dessa família. Tanto que as visitas familiares são estimuladas.

ENSINO

Ary Osvaldo Mattos Filho, advogado

ConJur — As escolas preparam o profissional que o mercado espera?

Mattos Filho — Há uma demanda não suprida pelas faculdades de Direito. Escritórios e empresas que querem um profissional com perfil diferente do que as escolas tradicionais oferecem. Advogados que não digam para a empresa simplesmente o que não se pode fazer, mas que ofereçam alternativas, digam quais são as possibilidades e as conseqüências de cada opção. Descobrimos isso com uma ampla pesquisa de mercado com os grandes escritórios de advocacia e as empresas de colocação para criar a faculdade de Direito da FGV em São Paulo.

ConJur — O que mais a pesquisa apontou?

Mattos Filho — Mostrou também que a grade curricular das boas faculdades de Direito é defasada da realidade empresarial brasileira. Hoje em dia é inaceitável que um advogado que vá se dedicar à atividade jurídico-empresarial não tenha boa formação de contabilidade, finanças, micro e macroeconomia. Principalmente se esse advogado for trabalhar com Imposto de Renda de Pessoa Jurídica, ou Direito Societário, ou quiser participar de um processo de aquisição. O advogado que quiser assessorar um empresário brasileiro em negociação com uma parte estrangeira precisa saber também o inglês jurídico, que é muito diferente do inglês usado em viagens.

ConJur — Que outras expectativas das empresas não estão sendo supridas pelos advogados?

Mattos Filho — O advogado que sai das tradicionais faculdades de Direito é litigante. E a última coisa que um empresário deseja é ir ao Poder Judiciário para resolver suas questões, dada a demora e a incerteza. Obviamente que o empresário fica feliz se for réu, porque demora bastante para ter resultado. Mas a idéia é formar um advogado com alta capacidade de negociação. Isso não quer dizer que não há espaço para advogados formados em uma faculdade de Direito tradicional. Esses alunos certamente estarão empregados. Mas há um novo mercado que precisa de um advogado diferenciado, que consegue agrupar o conhecimento de economia e de administração de empresas ao Direito, como a Fundação Getúlio Vargas pretende formar. Isso se manifestou de uma forma muito positiva no primeiro vestibular que fizemos no fim de 2004, com 24 candidatos por vaga. Foi um número bastante expressivo, porque a USP teve 22 candidatos por vaga e depois veio a PUC, com 7 candidatos. Claro que temos de analisar isso em números estatísticos, já que a USP oferece 400 vagas e a PUC também. A FGV oferece 50 vagas.

 é diretor de redação da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 25 de dezembro de 2006, 7h00

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