Consultor Jurídico

Notícias

Você leu 1 de 5 notícias liberadas no mês.
Faça seu CADASTRO GRATUITO e tenha acesso ilimitado.

Palavra que mata

Polícia é polícia, jornalista é jornalista

Por 

Aconteceu de novo: uma moça, Daniele Toledo do Prado, de Taubaté, detida pela acusação de matar seu bebê por overdose de cocaína, foi estripada pela imprensa, que mais uma vez aceitou como verdade aquilo que não passava de uma suspeita da Polícia. Devido ao noticiário, que a tratou como Monstro da Mamadeira, a moça foi espancada por 19 presidiárias na Cadeia de Pindamonhangaba e teve o maxilar quebrado. Por pouco não foi morta.

Só que, concluído o laudo, verificou-se que não havia cocaína no bebê. A história toda era uma invenção. A imprensa está noticiando o caso em detalhes — todos os detalhes, menos um: a cumplicidade da própria imprensa na destruição da vida da jovem mãe. O principal jornal da região publicou, pouco mais de um mês atrás, frases como “a mulher foi presa domingo depois que sua filha morreu, às 10h40, após uma parada cárdio-respiratória provocada por overdose de cocaína”. Um portal de Internet abriu com “Mãe que deu cocaína à filha deixa o hospital e é isolada”. Um dos maiores portais do país quase justificou a atitude das presas que espancaram a moça, “revoltadas com a brutalidade do crime”.

E como a imprensa está tratando seu próprio papel neste crime? Boa parte dos veículos de comunicação — excetue-se o ombudsman da Folha de S.Paulo, Marcelo Beraba, jornalista de primeiro time, que entrou fundo no caso — finge que não tem nada com isso: apenas informa que houve equívoco, bota a culpa na Polícia e numa médica chamada Eryka, cujo sobrenome não é divulgado, e se cala sobre o noticiário cúmplice que publicou. Um gigantesco portal de Internet foi mais longe: seu título original foi “Mãe mata bebê com cocaína na mamadeira e é indiciada”. No último dia 6, quarta-feira passada, comprovada a inocência da mãe, discretamente mudaram o título antigo para “Mãe suspeita de matar bebê com cocaína é indiciada”. É a prova da culpa: tentam reescrever a História. Colocaram o título correto só depois que o mal já estava feito.

As impressões digitais

O problema, em nossa época de computação, é que os leitores-internautas têm recursos para documentar a falta de caráter — pois o mínimo que os veículos de comunicação deveriam fazer seria reconhecer o erro e tentar desculpar-se. Nem isso fizeram. O atento leitor Marnei Fernando, de Goiânia, registrou as mudanças passo a passo. Não foi o único: veja, neste Observatório da Imprensa, os comentários à coluna Circo da Notícia da semana passada.

Para nós, jornalistas, que vergonha!

Repetindo a nojeira

Na última coluna, relembrávamos o caso da Escola Base. Não adiantou a reflexão, não adiantaram as sentenças judiciais, não adiantou nada: alguns jornalistas amestrados continuam a se ajoelhar diante das “otoridades” e a render-lhes homenagens — em vez de, na boa tradição jornalística, duvidar do que dizem, investigá-los e saber se estão ou não falando a verdade. Autoridade também mente!

Na pior das hipóteses, caso os jornalistas não queiram mesmo se envolver com essa coisa desagradável que é trabalhar, brigar com doutores e excelências, lutar para encontrar a verdade, há o recurso de atribuir a versão a quem a declara. “O delegado disse que (...)”, “na opinião do promotor, o que aconteceu foi o seguinte (...)”, “o governador acha que (...)”. Jamais, como se fez, publicar uma opinião como se fosse fato, exclusivamente por ser a opinião de uma autoridade. E, naturalmente, ouvir a vítima dos ataques. No caso, a moça só foi ouvida depois que a própria Polícia reconheceu o erro e a libertou.

Desafiando os ilustres

Detalhe importante: na semana anterior à morte do bebê, a mãe registrou queixa de estupro contra um médico-residente do hospital. Terá sua ousadia, de acusar um futuro-doutor, algo a ver com a tragédia que se abateu sobre ela, com a participação intensa das autoridades e da imprensa?

Pergunta que não se fez

Uma dúvida que deveria ter levado os jornalistas a desconfiar do caso: por que matar um bebê com cocaína, que é cara e deixa traços? Se a mãe fosse viciada, por que desperdiçaria cocaína com o bebê, em vez de cheirá-la?

Isso lembra outra história ridícula em que a imprensa esteve envolvida, quando uma grande fábrica de confeitos foi acusada de colocar cocaína nas balas vendidas à porta das escolas. E para que a indústria faria isso? Se os estudantes se viciassem em cocaína, quem ganharia seriam os traficantes, não ela. Não obstante, a empresa foi crucificada. E, para sobreviver, teve até de mudar a marca de suas conceituadas balas.

A imprensa como ela é

O caso da mamadeira teve ampla repercussão, por envolver um bebê. Mas, não há muito tempo, também no Vale do Paraíba, uma senhora, farmacêutica, levou à filha presa um remédio de manipulação. O remédio vinha em forma de pó branco. Antes de qualquer análise, a senhora foi presa; e a notícia enviada ao principal veículo impresso da região, publicada com destaque, de maneira acrítica, foi algo do tipo “mãe leva cocaína para filha presa”. Enquanto se concluía o laudo do pó, a senhora ficou presa. Ficou oito dias na cadeia e foi libertada.

O caro leitor, se quiser fazer um exercício de jornalismo explícito, poderá se dar ao trabalho de procurar a notícia sobre a libertação desta senhora. Se conseguir encontrá-la (há um excelente programa de lupa para computadores), vale comparar os espaços destinados à acusação e prisão com o cubículo de pé de página oferecido à comprovação de inocência e à soltura. Outro exercício interessante seria procurar o mea-culpa do jornal. Este colunista não o achou.

Como é que se reconstruirá a vida desta senhora brutalmente atacada, considerando-se que sua profissão, farmacêutica, se baseia na confiança do cliente?

Lúcio Flávio

Um famoso bandido carioca, Lúcio Flávio Villar Lírio, cunhou uma frase que deveria ser óbvia (mas não é): Polícia é Polícia, bandido é bandido. Temos de parafraseá-lo: Polícia é Polícia, jornalista é jornalista. O jornalista deve desconfiar de todas as fontes, especialmente das poderosas e que andam armadas. Pode até ser amigo do policial, mas não pode confiar cegamente naquilo que ele diz.

Publicado no site Observatório da Imprensa

 é jornalista, consultor de comunicação e especialista em gerenciamento de crises.

Revista Consultor Jurídico, 14 de dezembro de 2006, 7h00

Comentários de leitores

9 comentários

Pavesi, Você poderia, por favor, fazer conta...

Sandra Paulino (Advogado Autônomo)

Pavesi, Você poderia, por favor, fazer contato comigo? Sandra Paulino sandrapaulino@aasp.org.br

Infelizmente foi preciso lembra as palavras de ...

Silene Balassiano (Publicitário)

Infelizmente foi preciso lembra as palavras de um marginal para entender o que é certo:polícia é polícia e jornalista jornalista. Pena que tal postura não seja observada. Quando do assassinato do jornalista Tim Lopes, levantei a questão, quase fui "massacrada". Companheiros de profissão, longe de entender até que ponto eram "usados" correram a criticar, o que não é para ser criticado. Há alguns anos passados, cursando os bancos universitários, jamais observara a cadeira "jornalismo investigativo". Assessorias de Imprensa, também eram ninchos desconhecidos por aquela geração de formandos da ECO-UFRJ. Hoje, é moda, talvez, ou falta de coragem da classe para lutar por seus direitos e deveres. Quando um segmento tão importante quanto a comunicação, que poderia estar levando a milhares de seres humanos, mensagens e contribuições para a melhoria de suas qualidades de vida, conseguem nada mais que destruir vidas humanas, é sinal, e sinal vermelho, que alguma coisa não anda bem. Com a palavra os profissionais da área.

Isto ocorre no Brasil porque o Judiciário conce...

A.G. Moreira (Consultor)

Isto ocorre no Brasil porque o Judiciário concede um status de "Acima da Lei" aos jornalistas e órgãos de imprensa. Por causa disto, de vez em quando, alguém do povo, que foi, injustamente, execrado , faz a sua própria justiça .

Ver todos comentários

Comentários encerrados em 22/12/2006.
A seção de comentários de cada texto é encerrada 7 dias após a data da sua publicação.