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Evolução da advocacia

A queda do prestígio do advogado perante o povo é evidente

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Durante a cerimônia de entrega de carteiras profissionais, ouvi o presidente da seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil, Luiz Flávio Borges D’Urso, discursar perante bacharéis entusiasmados e pais orgulhosos deste ser o “maior colegiado da América Latina” e contar com aproximadamente 250 mil advogados no estado.

Discorreu sobre a existência de “novos mercados para a advocacia como direito do consumidor e direito ambiental” e de vagas para todos os que trabalharem duro e estudarem. Infelizmente, não concordo com essa visão otimista, vez que o cenário atual anuncia um panorama mais sombrio.

Explico. O ponto de saturação do mercado de trabalho para advogados já foi atingido há muito. Não há vagas suficientes para todos os bacharéis que ingressam no mercado de trabalho. As vagas existentes muitas vezes não proporcionam condições profissionais e financeiras satisfatórias aos advogados, que são obrigados a aceitar postos de trabalho que são incompatíveis com suas aptidões profissionais e com suas ambições financeiras.

Mas há o outro lado da moeda. Com um quarto de milhão de advogados inscritos na seccional paulista (cerca de metade do total brasileiro) e milhares de novos advogados a cada ano, há de se esperar que o nível de preparo e a qualidade dos serviços prestados pelos profissionais diminuam. Resultado: há advogados que não estão preparados para atender às necessidades de seus clientes, prestando serviço de má – quando não péssima – qualidade. Quem de nós nunca teve em suas mãos alguma peça má escrita, até mesmo anedótica? Quem nunca leu um contrato mal redigido? Os prejuízos deste declínio não afetam diretamente os clientes, mas também a categoria profissional, pois a queda do prestígio do advogado perante a sociedade é evidente.

A meu ver, a solução para tal problema passa necessariamente pela reformulação do modo de acesso à profissão. As regras atuais do jogo são por demais permissivas e possibilitam o acesso a pessoas que não possuem os requisitos necessários para o exercício da profissão.

Atualmente, o preenchimento de dois requisitos é suficiente para tanto: conclusão de curso superior de direito e aprovação em exame da OAB. O primeiro é tradicional em países com tradição civilista. O segundo é justificado pela necessidade de algum tipo de controle em um país no qual há 1.002 cursos de direito[1], com boa parte deles incapaz de formar um bom profissional. É um exame dividido em duas partes.

A primeira composta de questões de múltipla escolha, abrangendo 10 áreas do Direito. Já na segunda, composta de questões discursivas e redação de uma peça, é o candidato que escolhe uma área específica do direito entre as seguintes opções: Direito Civil, Direito Penal, Direito do Trabalho e Direito Tributário.

Apesar de reclamações sobre as exigências do exame, o nível deste continua assustadoramente baixo. Alunos medianos das melhores faculdades conseguem aprovação facilmente, sem maiores esforços. Basta olhar os índices de aprovação destas faculdades nos últimos exames.

Não há qualquer tipo de limite ao número de aprovados ou estabelecimento de vagas, o que possibilita o crescimento contínuo e desregrado da categoria profissional. Mas talvez o pior fator seja a ausência de limitação quanto ao número de vezes que cada candidato pode prestar o exame, pois mesmo o mais despreparado dos candidatos possui uma chance real de aprovação após a décima tentativa.

Uma vez aprovado no exame, não há qualquer período probatório. Nem mesmo um curso de formação obrigatório. Pressupõe-se que a aprovação no exame é condição suficiente para que o bacharel exerça a advocacia.

Evidentemente não tenho a presunção de sugerir uma solução única, mas talvez não seja má estratégia adotar elementos de sistemas que vêm funcionando melhor que o nosso. Exemplifico.

A França é um país com cerca de 60,5 milhões de habitantes e um PIB de US$ 2046,6 bilhões (cerca de 3,4 vezes o PIB brasileiro, que foi de US$ 604 bi)[2].

Em todo seu território há 42.609 advogados inscritos em 181 barreaux (contra nossos cerca de 250.000 somente em São Paulo). Uma densidade de aproximadamente 70,6 advogados para cada 100 mil habitantes.

A remuneração média nacional anual em 2002 foi de 62.605€. (aproximadamente R$ 172,5 mil) 1187 estrangeiros exerciam a profissão em 2002[3]. Lá, como aqui, há grande concentração da profissão em uma cidade. Cerca de 50% dos advogados franceses são inscrito no barreau de Paris. A remuneração média destes também é mais alta que a média nacional e atinge 80.804€ anuais (aproximadamente R$ 222,7 mil)

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 é graduado em Direito pela Universidade de São Paulo, pós-graduado em Direito Comparado pela Université de Paris II - Panthéon-Assas e mestrando em Direito Internacional.

Revista Consultor Jurídico, 11 de dezembro de 2006, 15h42

Comentários de leitores

11 comentários

Discordo da posição do articulista, uma vez que...

EDER TI (Advogado Autônomo - Administrativa)

Discordo da posição do articulista, uma vez que a experiência de países como a França e o Reino Unido não servem à realidade brasileira. Isto posto, considero que um dos fatores críticos do sucesso para a solução dos problemas está na falta do "espírito ético" de alguns profissionais da classe dos advogados. Não bastasse isso, ressalto o papel do profissional da área do Direito que deve contribuir socialmente para o bem da sociedade. De que adiantaria uma classe de notáveis voltados para a elite do povo brasileiro, esquecendo-se dos miseráveis, pobres, desamparados e tantos outros esquecidos e incapazes diante do sistema atual. Cito Rui Barbosa que, iluminado à época, traz luz aos dias de hoje com a sua citação: “De tanto ver crescer as injustiças, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, de tanto ver prevalecer a mentira, o homem chega a rir-se da honra, a desanimar-se da virtude e a ter vergonha de ser honesto”. Sugiro aos interessados que leiam “A Justiça a Serviço do Crime” de Dárcio de Arruda Campos, editora Outras Palavras. Eder Silva Bezerra, estudante de Direito, Brasília-DF.

Prezados colegas, Vejam a minha opinião sobre...

Fernando Lima (Professor Universitário)

Prezados colegas, Vejam a minha opinião sobre a RESERVA DE MERCADO. Um abraço do Fernando Lima PASSANDO A LIMPO A OAB Fernando Lima Professor de Direito Constitucional 01.07.2007 A Polícia Federal prendeu, em Goiás, em maio deste ano, doze pessoas, sob a acusação de integrarem uma quadrilha, que vendia a aprovação no Exame da OAB, e já havia arrecadado cerca de três milhões de reais, em suas atividades fraudulentas. Entre os presos na “Operação Passando a Limpo”, estão o Presidente e o Vice-Presidente da Comissão responsável pelo Exame da Ordem. Evidentemente, presume-se que a OAB/GO tomará as providências cabíveis, se for comprovada a veracidade dessas denúncias. Mas o Presidente da OAB nacional, César Britto, preocupado, naturalmente, com as repercussões negativas desse escândalo, contra a OAB e contra o próprio Exame de Ordem, cuidou de publicar, uma semana depois, o artigo intitulado “Justiça e Exame de Ordem” (Fonte: http://www.oab.org.br/noticia.asp?id=9921), no qual defendeu a importância desse Exame, dizendo que ele é “um instrumento vital à cidadania, na medida em que zela pela qualidade da justiça” e dizendo que a OAB pretende “aprimorar cada vez mais os seus controles, para que situações como a recém-denunciada em Goiás não mais ocorram”. Disse, ainda, que “por isso, tão logo tomou posse, em fevereiro deste ano, conclamou os 27 Conselhos Seccionais a aderirem ao Exame de Ordem unificado e 20 já aceitaram”. Na minha opinião, já manifestada através de inúmeros artigos, o Exame de Ordem é inconstitucional, porque não compete à OAB avaliar os cursos jurídicos, nem a qualificação profissional dos bacharéis em Direito. A OAB, quando insiste em realizar o Exame de Ordem, mete-se onde não deveria, porque ela tem competência, apenas, para regular e fiscalizar o exercício da profissão, e nunca para ensinar, nem avaliar a qualidade do ensino jurídico. Para isso existe o Ministério da Educação, e a Constituição Federal é muito clara, a esse respeito. De qualquer forma, mesmo sem essas denúncias, referentes às fraudes no Exame de Ordem, a repercussão negativa desse Exame já está atingindo, por si só, a própria credibilidade da OAB, como instituição, porque é muito difícil acreditar que os seus dirigentes se preocupam, apenas, com o interesse público, e não com os interesses corporativos e com a reserva do mercado da advocacia, em favor dos profissionais já inscritos, mesmo porque os próprios dirigentes da OAB e outros defensores do Exame de Ordem já têm dito, em várias oportunidades, que existe um número excessivo de advogados, no Brasil, e que o Exame é necessário para defender o mercado de trabalho. Por exemplo, a Revista Consultor Jurídico, de 11.12.2006, publicou um artigo, de David Norgren: “Evolução da advocacia: Os efeitos perversos do crescimento desordenado”. (Fonte: http://conjur.estadao.com.br/static/text/50928,1) Nesse artigo, o autor procurou demonstrar que, na Inglaterra e em França, o acesso à profissão jurídica é mais restrito do que no Brasil. Disse ele, então, que no Brasil “o ponto de saturação do mercado de trabalho para advogados já foi atingido há muito. Não há vagas suficientes para todos os bacharéis que ingressam no mercado de trabalho. As vagas existentes muitas vezes não proporcionam condições profissionais e financeiras satisfatórias aos advogados, que são obrigados a aceitar postos de trabalho que são incompatíveis com suas aptidões profissionais e com suas ambições financeiras. (...) Não há qualquer tipo de limite ao número de aprovados ou estabelecimento de vagas, o que possibilita o crescimento contínuo e desregrado da categoria profissional”. Em suas conclusões, o autor fez questão de enumerar as vantagens da reserva de mercado: “A elevação do nível salarial do advogado seria evidente (não que esse seja o aspecto mais importante da profissão, mas é preciso deixar de lado a hipocrisia e admitir que todos têm lares para sustentar). Todos os lados seriam beneficiados: sociedade, que poderia contar com um serviço de melhor qualidade, e advogados, que ganhariam em prestígio e poderiam ser justamente recompensados pela importante função que exercem”. Um absurdo, evidentemente, porque a Constituição Federal, que o autor não deveria desconhecer, estabelece a liberdade de exercício profissional, o que impede a fixação de “qualquer tipo de limite ao número de aprovados ou estabelecimento de vagas”, como ele pretende. Além disso, quando afirma que “todos têm lares para sustentar” e que “todos os lados seriam beneficiados”, o autor esquece, evidentemente, os dois milhões de bacharéis em Direito que os próprios dirigentes da OAB se gabam de terem reprovado, no Exame de Ordem, e que estão impedidos de trabalhar, para sustentarem os seus lares, e até mesmo para pagarem as dívidas referentes ao crédito educativo, que muitos foram obrigados a contrair, para os cinco anos de estudo, em uma instituição privada de ensino superior, autorizada e fiscalizada pelo Estado brasileiro, através do MEC. Mas o Presidente da OAB nacional, César Britto, em sua tentativa de defender o Exame de Ordem, disse ainda, no referido artigo, que: “Nenhum bacharel, desde então (1931 – o ano da colegiação obrigatória), pode advogar no Brasil ou mesmo exercer qualquer função na cena judiciária nacional sem antes ser aprovado no Exame de Ordem, ministrado sob a responsabilidade da OAB. (...) Em sete décadas e meia de vigência da colegiação obrigatória da advocacia brasileira, os registros de distorções e desvios de conduta em relação ao Exame de Ordem são mínimos, o que comprova o zelo e a eficácia com que tem sido conduzido”. Todos sabem que isso não é verdade. É estranho que o Presidente da OAB diga isso, talvez pensando que o fato de ser vetusto poderia tornar constitucional o Exame de Ordem. Nem que tivesse sido criado por Dom Pedro I, ou pelo Marechal Deodoro da Fonseca, o Exame da OAB deixaria de atentar contra a isonomia e deixaria de ser material e formalmente inconstitucional. Basta uma rápida pesquisa para desmentir essa afirmativa do Presidente da OAB: De acordo com o art. 48 da Lei nº 4.215, de 27.04.1963, ou seja, o antigo “Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil”, o que se exigia para a inscrição do bacharel nos quadros da Ordem era o “certificado de comprovação do exercício e resultado do estágio, ou de habilitação no Exame de Ordem...” (inciso III do art. 48). O Exame de Ordem era opcional, e não obrigatório: “estágio ou ...Exame”, a Lei nº 4.215/1.963 era muito clara. Assim, evidentemente, ninguém fazia esse Exame, porque o estágio era muito mais conveniente. Os advogados antigos não fizeram esse Exame e muitos deles, certamente, não seriam aprovados, hoje. O próprio Presidente da OAB/SP, Luiz Flávio Borges D’Urso, reconheceu esse fato, em um debate perante a Revista Consultor Jurídico. (Fonte: http://conjur.estadao.com.br/static/text/36208,1). Posteriormente, o art. 1º da Lei nº 5.842/1.972 determinou que: “Para fins de inscrição no quadro de advogados da Ordem dos Advogados do Brasil, ficam dispensados do exame de Ordem e de comprovação do exercício e resultado do estágio de que trata a Lei no 4.215, de 27 de abril de 1963, os Bacharéis em Direito que houverem realizado junto às respectivas faculdades estágio de prática forense e organização judiciária”. Portanto, foi somente depois da entrada em vigor do novo Estatuto da OAB (Lei nº 8.906, de 1.994) e da regulamentação (inconstitucional) do Exame de Ordem pelo Provimento nº 81, de 1.996, depois revogado pelo Provimento nº 109, de 2.005, que a OAB conseguiu implantar o seu Exame, o que já vinha sendo tentado há muito tempo. E tanto isso é verdade, que não havia autorização legal para o Exame de Ordem, antes dos anos 90, nem mesmo através de uma lei inconstitucional, como existe hoje, que o Senador Leite Chaves apresentou um projeto, o PLS nº 92/1.990, para “Alterar a Lei 4.215, de 27 de abril de 1.963, e tornar obrigatório o Exame de Ordem para admissão no Quadro de Advogados”. Esse projeto foi aprovado no Congresso, mas foi vetado pelo Presidente da República e mantido o veto total, em 16.03.1.994. (Fonte: http://www.senado.gov.br/sf/atividade/materia/Detalhes_CD.asp?p_cod_mate=27120&p_tipo_cod_mat=SF). Esse projeto está arquivado e serve, perfeitamente, para provar o que estou afirmando, porque se o Exame de Ordem já fosse obrigatório desde 1.931, como quer o Presidente da OAB, não haveria razão lógica para a apresentação desse projeto de lei. No entanto, quatro meses depois do arquivamento desse projeto, ou seja, em julho de 1.994, como se sabe, a OAB conseguiu aprovar o seu novo “Estatuto”, inserindo em seu artigo 8º, que trata da inscrição do bacharel em Direito, a exigência da aprovação no Exame de Ordem. Não é verdade, portanto, que o Exame de Ordem tenha sido criado por Getúlio Vargas, como quer o novo Presidente da OAB. O Exame de Ordem somente foi criado em 1.994 (a Lei inconstitucional) e em 1.996 (o Provimento inconstitucional). Getúlio Vargas criou, apenas, em 18.11.1930, a própria OAB, pelo art. 17 do Decreto nº 19.408: “Fica criada a Ordem dos Advogados Brasileiros, órgão de disciplina e seleção da classe dos advogados, que se regerá pelos estatutos que forem votados pelo Instituto da Ordem dos Advogados Brasileiros, com a colaboração dos Institutos dos Estados, e aprovados pelo Governo”. Aliás, o Golpe de 1.930 foi apoiado e articulado pelos profissionais liberais e jovens políticos que formaram a Aliança Liberal, em 1.929, que eram contrários à posse de Júlio Prestes, e foram derrotados nas eleições. Em outubro de 1.930, ocorreu o Golpe, e logo no mês seguinte foi criada a OAB. Tendo sido instalado o Governo Provisório, André de Faria Pereira, Procurador-Geral do Distrito Federal e sócio do Instituto dos Advogados, incumbido pelo Ministro da Justiça, Osvaldo Aranha, de elaborar um projeto de decreto, a respeito de modificações na organização da Corte de Apelação, incluiu no projeto o dispositivo do art. 17, criando a Ordem dos Advogados. Ressalte-se que o Instituto dos Advogados Brasileiros, que havia sido criado 87 anos antes, em 07.08.1.843, tinha como finalidade precípua, prevista em seus Estatutos, a criação da Ordem dos Advogados do Brasil. A OAB foi criada graças aos esforços do advogado Levy Carneiro, que era Presidente do Instituto dos Advogados e foi o primeiro Presidente da OAB e graças a André de Faria Pereira, que enxertou no projeto de decreto da Corte de Apelação o seu art. 17, acima transcrito. Getúlio Vargas, que concentrava em suas mãos os três Poderes constitucionais da República, limitou-se a assinar esse Decreto, que não dizia uma palavra sobre o Exame de Ordem. __________Voltar para a PÁGINA PRINCIPAL__________

Concordo com o Dr. Rossi Vieira ao discorrer so...

Evaldo Rogério Fett (Advogado Sócio de Escritório - Empresarial)

Concordo com o Dr. Rossi Vieira ao discorrer sobre a vida prática da advocacia. O advogado é aquele que tem um escritório, clientes e causas para militar, mas principalmente caráter com dinheiro alheio, honestidade para pleitear causas éticas e corretas e ainda, ter coragem de enfrentar juízes, promotores, delegados, fiscais e outros, totalmente despreparados e desqualificados para a função e mais, alguns até corruptos, como temos visto nos noticiários. O advogado tem que ter coragem e integridade para nunca curvar-se a órgaõs públicos e seus agentes, que cometem as maiores aberrações jurídicas. EVALDO ROGÉRIO FETT, 43, advogado empresarial em São Paulo.

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