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Origens da corrupção

Entrevista: Roberto Livianu, promotor de Justiça

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Roberto Livianu - por SpaccaAntes do Iluminismo, da Revolução Francesa e de todas as idéias que construíram o Direito Penal, o sigilo era regra. Depois, adotou-se o princípio da publicidade e o sigilo virou exceção. As prerrogativas dos advogados devem ser respeitadas, mas o sigilo não pode servir de blindagem para trazer impunidade e imunizar infratores. Essa foi a reposta do promotor de Justiça Roberto Livianu, quando questionado sobre a tendência de relativizar o sigilo entre cliente e advogado.

O promotor defende que todas as pessoas sejam revistadas ao entrar em um presídio. Se existe uma regra, ela deve ser respeitada tanto pelo presidente da República quanto pelo faxineiro, passando pelo advogado ou pelo promotor, acredita.

Em entrevista à Consultor Jurídico, Livianu defendeu a reforma no Código de Processo Penal. Isso porque o promotor é obrigado a propor ação penal, mesmo quando não quer. “Ele funciona como uma máquina que é obrigada a produzir as acusações”, afirma. E ressalta que se deixar de propor a ação está praticando crime de prevaricação.

Na conversa, o promotor falou essencialmente sobre corrupção e das formas de punição daqueles a praticam. Para ele, a corrupção é decorrente do individualismo e da falta de interesse do brasileiro pelos temas de interesse público. “Não cuida das praças públicas, das bibliotecas públicas, nem da rua onde mora. O público não é de ninguém”, diz. Para ele, o combate à corrupção começa com uma nova cultura, em que o interesse coletivo esteja acima do particular.

Para punir os corruptos, o promotor recomenda a Lei de Improbidade Administrativa, ironicamente aprovada durante a presidência de Fernando Collor. Na prática, o Direito Penal não é um bom instrumento para combater a corrupção porque permite atalhos e subterfúgios para que os infratores escapem. Além do que, segundo Livianu, a Lei de Improbidade inverte o ônus da prova e faz com que o acusado tenha que comprovar a licitude de todo o patrimônio que possui.

Roberto Livianu é promotor de Justiça de São Paulo. Ele se formou em Direito pela Universidade de São Paulo e, orientado por Miguel Reale Jr., se fez doutor defendendo tese sobre Corrupção e o Direito Penal — que virou seu mais novo livro.

É integrante do movimento do Ministério Público Democrático. A entidade nasceu em 1991, seguindo uma tendência européia, em que juízes e promotores se juntaram para lutar por uma Justiça mais dinâmica e próxima da comunidade. O MPD tem um programa na TV Justiça e na TV Comunitária que trata de questões de Direito com uma linguagem acessível. Fechou parceria com a Secretaria de Justiça do estado para dar cursos de noções de Direito na periferia. A maior preocupação do MPD é lutar por maior acesso à Justiça e para que esse acesso seja democrático.

Leia a entrevista

ConJur — Ao oferecer caixinha para o guarda de trânsito não multá-lo ou comprar produtos piratas, a impressão que se tem é a de que o brasileiro convive bem com a corrupção. O brasileiro é um fora da lei?

Roberto Livianu — Não. Esse relacionamento com a corrupção tem uma explicação mais profunda e complexa, que é a falta de uma nítida linha divisória entre o público e o privado. O mundo vive um momento de excessivo individualismo. As questões públicas não fazem parte da agenda do brasileiro. Ele só se preocupa com os interesses individuais. Não cuida das praças públicas, das bibliotecas públicas, nem da rua onde mora. O que é público não é de ninguém. Um exemplo simples disso é a dificuldade de mobilizar os moradores para as reuniões de condomínio, em que se discutem interesses coletivos. Em países europeus, as pessoas se engajam, denunciam e se preocupam com as questões da comunidade. Há uma democracia participativa num sentido profundo, verdadeiro e pleno.

ConJur — Isso explica o problema da corrupção?

Roberto Livianu — Não apenas. Outra faceta do problema é a questão dos privilégios. A Constituição prevê o princípio da igualdade como direito fundamental. Se perguntarmos a opinião da população sobre o princípio da igualdade, a maioria vai dizer que é um princípio fundamental, nobre e importante. Se reformularmos a pergunta para saber o que acham de receber privilégios, a opinião já não será a mesma. As pessoas gostam de privilégios. As empresas fundamentam as suas campanhas de marketing nos privilégios que o produto ou o serviço pode oferecer. O problema é que privilégios vão contra as conquistas democráticas. Em uma sociedade fundada no privilégio e que não se preocupa com o coletivo, é difícil imaginar que o combate à corrupção será um item prioritário.

ConJur — Principalmente na política.

 é chefe de redação da revista Consultor Jurídico.

 é repórter da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 10 de dezembro de 2006, 7h00

Comentários de leitores

21 comentários

Mais um detalhe: o individualismo como ideologi...

Armando do Prado (Professor)

Mais um detalhe: o individualismo como ideologia fracassou inclusive nas práticas neoliberais, pois economicamente, não conseguiu fortalecer o capitalismo, pelo contrário e, socialmente, atingiu muitos de seus objetivos, criando sociedades mais desiguais e estados repressores dos mais fracos, v.g. Chile, Argentina, Pindorama, etc.

Com todo o respeito, O promotor fala muitas co...

Felipe (Advogado Autônomo - Criminal)

Com todo o respeito, O promotor fala muitas coisas corretas. Concordo que a cultura do pais precisa ser aprimorada URGENTE. Agora, com todo o respeito, fala tambem muitas bobagens. Se existem regras estas tem que ser seguidas, nao importando quem seja, ISSO NAO SE DISCUTE. Porem, defende que devem seguir da maneira como ele quer. Somente o MP quer o bem do povo??? Somente eles sabem interpretar a Lei! Fala que o MP pode investigar (mesmo nao estando na CF e mesmo o STF silenciando)! Fala que o Promotor deveria poder escolher quem vai denunciar!! QUE ABSURDO!! Defende que o direito a intimidade seja extirpado do nosso ordenamento!!! Ou ele quer que as instituicoes se aprimorem e defendam o que diz a Constituicao ou quer que o MP defina o que, como, quem e quando se deve fazer!! Critica a concentracao de poder para a Policia Civil, mas o MP pode!!!! Viva Pinochet Dr!!!!!!!!!

Em tese,concordo. Mas no âmbito penal se der p...

Neli (Procurador do Município)

Em tese,concordo. Mas no âmbito penal se der publicidade a tudo,cometerá injustiça e se quebrará o princípio da Presunção da Inocência. Explico:lançando na imprensa o nome do acsusado,depois constatando a sua inocência a lesão ao bem individual não será reparada com indenização alguma. Veja-se,por exemplo,os casos : escola de Base, o ex-ministro Alceni Guerra,essa senhora que teria sido estuprada e depois foi acusada de dar cocaina para sua filha ,em tenra idade,e passou mais de um mês na prisão,sendo massacrada. Tudo deveria ser apurado. Quanto à corrupção: é um câncer! E a pena deveria ser mais rigorosa,além de pesada pena de multas que deveria ser mais rigorosa do que a pena privativa de liberdade. Os corruptos são piores do que os latrocidas,estes roubam e matam uma única pessoa,ao passo que os latrocidas do dinheiro público matam a sociedade. No mais: parabéns pela entrevista!

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