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Reflexões políticas

Lula repete vícios da velha política brasileira, diz Busato

De lá para cá, podemos dizer que houve efetiva evolução em nossa política? Deixou ela de ser povoada pelos anões morais que Machado comparou aos que Gulliver encontrou em Lilipute?

Outro pensador social brasileiro da primeira metade do século XX, o advogado Hermes Lima, fundador do Partido Socialista, constatava que nem a política monárquica, nem a republicana jamais tiveram entre nós o sentido de uma atuação verdadeiramente baseada no apoio direto da massa.

Nem sob um regime, nem sob o outro, dizia ele, tivemos nenhum partido que fosse, de fato, instrumento político do povo, vivendo do contato e do apoio direto do povo.

Daí a imensa esperança – a extraordinária euforia - que todos os que desejamos a superação desse quadro de iniqüidades tivemos com a eleição do atual governo, do Presidente Lula, lastreado por um partido político, o PT, que parecia romper o panorama quase fatalista descrito por Oliveira Viana e Hermes Lima.

Tratava-se afinal de um governo carregado de forte simbolismo, que parecia promover, com atraso de mais de um século, o encontro da República brasileira com sua única e insubstituível fonte de poder – o povo.

A eleição de um ex-operário, forjado nas lutas sindicais, tendo a ética e a justiça social como lema e compromisso, promoveu uma rara comunhão eleitoral na história do país.

Lula uniu elite e povo numa mesma esperança, num mesmo sonho, de um Brasil melhor e mais justo. Mas, tal qual seus antecessores, sucumbiu aos vícios da velha política brasileira, vícios que nos têm impedido de realizar a vocação de fraternidade e grandeza antevista pelos fundadores da Pátria.

Antevista por um José Bonifácio de Andrada e Silva, que há quase dois séculos, sonhou um Brasil sem escravos e sem tiranos, abortado no berço esplêndido de seu nascimento pelas forças reacionárias de sua elite dirigente.

E aí, meus caros amigos, advogadas e advogados, cidadãos e cidadãs, permitam-me a indignação: pior que roubar nossos reais, nossos suados reais, é roubar nossos sonhos!

A reconstrução do sonho é bem mais penosa e dramática. É tarefa para gerações! E foi este sonho republicano, de um país mais justo e menos desigual, acalentado por gerações, construído à custa de sangue, suor e lágrimas, que nos foi suprimido.

Suprimido pelo tráfego iníquo e descarado das malas de dinheiro, pelas operações de caixa dois, pela formação do exército parlamentar de mercenários, sustentados pelas 30 moedas de prata do Mensalão!

Quando, hoje, alguns parlamentares propõem abrandar as penas dos colegas envolvidos em atos de corrupção explícita, sentimos que a dualidade mencionada por Machado de Assis persiste.

O Brasil liliputiano continua vivo - e no comando!

Há também, é claro, o Brasil sadio, ético, criativo, de que o próprio Machado de Assis, oriundo das camadas populares, é exemplo. Mas esse Brasil, embora presente no Parlamento e em todas as instituições políticas, ainda não chegou efetivamente ao poder.

O presidente Lula foi eleito com a missão de fazê-lo chegar, mas não conseguiu. Em curto espaço de tempo, capitulou aos usos e costumes do velho Brasil, aquele que, como fênix, renasce sempre das próprias cinzas. Basta acompanhar nossa trajetória republicana.

Em 1930, fez-se uma revolução para pôr fim à “República dos Carcomidos”. Mas ei-la, rapidamente, de volta, a assumir o comando da própria revolução e a levá-la sete anos depois ao golpe ditatorial do Estado Novo.

A redemocratização, a partir de 1945, foi turbulenta e durou pouco: passou pelo suicídio de Vargas, por duas tentativas de golpe contra JK, pela renúncia de Jânio Quadros, pela queda de Goulart, desaguando numa ditadura militar que duraria duas décadas, inaugurando nova era de velhos e maus costumes na cena brasileira.

O pretexto do golpe militar foi o combate à corrupção e à subversão, mas ele próprio acabaria tornando-se agente e promotor de ambas. A redemocratização, a partir de 1985, inaugurou a era das CPIs, na qual ainda estamos. E esse período já pôde ser acompanhado desta Presidência da OAB pelo ilustre advogado Márcio Thomaz Bastos, que hoje nos honra com sua presença, representando o Presidente da República.

Coube-lhe presidir brilhantemente o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, de abril de 1987 a abril de 1989, período rico de nossa história contemporânea. Período em que tivemos uma Constituinte, responsável pela constituição em vigor, e em que a sociedade civil passou a investigar mais de perto os governantes.

Cada governo, desde então, passa a conviver com um ambiente de denúncias, reais e efetivas, que geram contra-ofensivas de operações-abafa e introduzem novos termos e metáforas no universo semântico da política nacional, como “pizza” e impeachment.




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Revista Consultor Jurídico, 26 de setembro de 2005, 19h26

Comentários de leitores

1 comentário

Como sempre, o Brasil com seus velhos problemas...

Allan (Outros)

Como sempre, o Brasil com seus velhos problemas políticos...

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