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Polícia na mira

Começa o julgamento de PMs acusados de matar dentista

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O julgamento dos policiais militares acusados de matar à queima-roupa um dentista, em 3 de fevereiro de 2004, começa nesta segunda-feira (17/10) no 2º Tribunal do Júri de São Paulo, na Zona Norte da capital. “Não há defesa cabível. Foi um ato covarde”, atesta o promotor Francisco José Tadei Cimbranelli, que cuida do caso.

Em 3 de fevereiro, por volta da 1h20, cinco policiais militares numa viatura, na avenida Zaki Narchi, Zona Norte de São Paulo, foram abordados por um homem que se dizia vítima de um roubo de R$ 42. Seu nome ainda é mantido em sigilo. E ele vive sob escolta policial, posto que os PMs que foram em seu socorro naquela madrugada teriam passado a ameaçá-lo.

Para atender à vítima, saíram três dos cinco homens da guarnição da PM: o soldado Luciano Dias, o tenente Carlos Santos e o cabo Ricardo Arse Rivera. Entraram no carro da vítima para buscar o ladrão. Na altura do número 54 da avenida Santos Dumont, já no Campo de Marte, viram um homem, na calçada, que usava camiseta preta como o ladrão dos R$ 42. Foi abordado. Mesmo rendido, os PMs dispararam seis tiros. Dois acertam o dentista Flavio Santana, 28 anos de idade, que havia colado grau, com distinção, apenas cinco dias antes.

Os três policiais montaram uma farsa, com sons, ruídos, gritos e tiros. Já com a viatura a seu lado, os PMs pegam um revólver calibre 357, com numeração raspada. Ligam o rádio comunicador. Botam em rede, para todo o Centro de Operações da Polícia, os tiros farsescos que disparam, como se estivessem trocando tiros com o dentista.

O dentista Flavio Santana é então levado ao Pronto Socorro de Santana. Chega morto. Em seguida, os PMs perguntam à vítima do assalto, que é dono de um estacionamento na Bela Vista, sobre os detalhes do assalto que sofrera. Ficam sabendo que o ladrão levara R$ 42, mas devolvera a carteira de couro e os cartões de crédito. Os PMs se cotizam, juntam a soma, botam dentro da carteira. E a apresentam como o butim encontrado com o dentista que “atirara” contra eles. O falso boletim de ocorrência, em que os PMs figuram como vítimas, é lavrado no 13ª Delegacia de Polícia da Zona Norte.

O dentista iria ser enterrado como indigente quando seu pai localiza o corpo dois dias depois no Instituto Médico Legal. Indignado, inicia uma saga em busca da verdade. Afinal o dentista apenas fora levar sua namorada, naquela noite, para embarcar num vôo no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, a 35 km da capital paulista.

Mesmo tendo assentido na primeira versão mentirosa, o assaltado que procurou o socorro dos PMs entra em conflito. Passa a ser ameaçado, em sua casa, pelo cabo Ricardo Arse Rivera. A frase do cabo mais repetida era: “Se você nos desmentir o mundo vai ficar pequeno para você”.

A farsa foi, finalmente, desmontada pelo assaltado, que vive agora sob proteção policial. O promotor Francisco José Tadei Cimbranelli pede condenação para os três PMs que abordaram o dentista sob acusação de homicídio qualificado, fraude processual e porte ilegal de arma.

 é repórter especial da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 17 de outubro de 2005, 10h21

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