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Diploma de jornalismo

Regulamentação do jornalismo deve atender ao interesse social

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A importância da vocação como atributo essencial para o exercício da profissão foi também enfaticamente afirmada em 1996 pelo jornalista e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura Gabriel García Márquez. Ao expressar seu profundo descontentamento com a formação superior específica para a profissão, ele disse: “O resultado, em geral, não é alentador. Os rapazes que saem iludidos das faculdades, com a vida pela frente, parecem desvinculados da realidade e de seus problemas vitais”. 52

Retomando as palavras nada dispensáveis de Weber, apesar dos 86 anos que delas nos separam no tempo, não há como escamotear a questão da vocação para o exercício do jornalismo, principalmente nestes tempos em que as questões éticas estão mais do que nunca na ordem do dia ― o que não significa, porém, um crescimento da conscientização dos profissionais para os temas da deontologia, mas, ao contrário, um sinal de alerta de que as coisas nesse campo estão piorando cada vez mais.

De um modo geral, a idéia de que a formação superior em jornalismo seja uma garantia para o exercício pleno da profissão não vem ganhando força nos últimos anos nos países desenvolvidos, ao contrário do que tem sido afirmado pela Fenaj e pelos sindicatos. Há, isso sim, uma crescente valorização da formação justamente onde ela não é obrigatória. “Você aprende as regras básicas, isto é, o ‘quem, o quê, onde, quando e por quê’. Mas ninguém pode te ensinar a escrever”, afirmou Matt Barker, profissional free lance formado em jornalismo no Reino Unido, em entrevista à edição desta semana da revista Carta Capital, em uma reportagem de Gianni Carta sobre o reforço que se pretende dar nos cursos de pós-graduação em jornalismo nos Estados Unidos e no Reino Unido, motivado tanto pelo rápido desenvolvimento das novas tecnologias para a transmissão de notícias, como pelo aumento dos casos de infrações éticas. 53

Na medida em que se enfatiza cada vez mais a necessidade de preparar os futuros jornalistas para as novas tecnologias, a vocação é cada vez menos valorizada. Ao resultar de uma aposta de todas as fichas na formação, a concepção da graduação específica como condição necessária para o exercício da profissão torna-se dia-a-dia mais impotente diante de tendências de tecnicismo, de antiintelectualismo e de subserviência da profissão, devidamente apontadas por Ciro Marcondes Filho, professor de teoria do jornalismo e filosofia da comunicação da Escola de Comunicações e Artes da USP, em seu livro A Saga dos Cães Perdidos:

“Numa era de altas e sofisticadas tecnologias informatizadas, em que os principais atores políticos já não são mais homens e mulheres, mas redes, sistemas e complexos equipamentos, jornalistas aparecem como espécies de ‘gerentes’ dessa máquina, como sua interface com o grande público”. 54

“O mundo caminha em descompasso da formação do jornalista: uma realidade cada dia mais complexa, uma formação cada vez mais precária. É exatamente o paradoxo de uma época e, ao mesmo tempo, o testemunho da inevitável superação desses profissionais. (...) Incapacitados de se aprofundar e de formar uma opinião pessoal fundamentada ― normalmente pelo corre-corre da profissão, mas também por um preconceito generalizado e perigoso contra o aprendizado e a cultura intelectual ― não conseguem decifrar ou não buscam o apoio de especialistas para analisar os dossiês, caindo facilmente nas manobras manipulativas das assessorias de imprensa de grandes indústrias, das fontes que deveriam questionar, dotadas, estas sim, de profissionais mais compenetrados e mais bem treinados na venda de suas posições.” 55

“Os jovens desta época são funcionários mais facilmente adaptáveis a qualquer tipo de ordens ou exigências jornalísticas da empresa. Uma vez depurados das ideologias que encheram as cabeças de seus antecessores, esses jovens ‘branqueados’ , limpados da ‘doença histórica’ daqueles, ficam fascinados com outros valores, não tanto sociais, mas eminentemente simbólicos. Buscam ascender rapidamente na carreira, mas são individualistas (como deseja todo o sistema técnico atual), e desejam participar do brilho, da promoção, da publicidade que a imprensa oferece.” 56

É importante ressaltar que embora Ciro Marcondes Filho não seja um defensor da obrigatoriedade da formação superior específica em jornalismo, ele é favorável a que haja uma regulamentação profissional que garanta um mínimo de efetiva qualificação com formação não necessariamente específica.

Por mais que se tente fazer com que os cursos de jornalismo atendam à necessidade de formar seus alunos nos aspectos técnicos, teóricos, éticos e estéticos exigidos pela profissão, jamais se conseguirá fazer com que todos os graduados sejam, de fato, jornalistas. Não se trata aqui de “pescar” as exceções que só confirmam a regra, para invalidar no varejo o que se conseguiria obter no atacado e no longo prazo com a instalação de bons cursos de jornalismo. Com base nas exceções, sempre se conseguiria invalidar os resultados de qualquer empreendimento. Ao contrário, trata-se, isso sim, de afirmar que teremos um contingente cada vez menos respeitável de jornalistas no que se refere aos aspectos éticos e técnicos se continuarmos a vender a ilusão de que se pode formar um tipo de profissional que depende decisivamente de atributos que não estão em todos os seres humanos e que não fazem daqueles que os possuem melhores nem piores que os demais.




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 é jornalista.

Revista Consultor Jurídico, 24 de junho de 2005, 14h18

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