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Diploma de jornalismo

Regulamentação do jornalismo deve atender ao interesse social

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“(...) que viviam de salários pagos pelos veículos ou trabalhavam efetivamente em dois ou três empregos (não apenas recebiam vencimentos em empresas públicas ou privadas); e os que desenvolviam seu próprio negócio, associando-se a bandidos ou policiais-bandidos, intermediando o acesso a verbas oficiais, descobrindo segredos das pessoas para chantageá-las.” 44

Para muitos jornalistas que se dedicavam à reflexão crítica sobre os rumos da profissão, como Alberto Dines, a exigência da formação superior obrigatória em jornalismo parecia, na época em que foi baixado o Decreto-lei 972/1969, ser o caminho para assegurar o desempenho da profissão em consonância com sua ética:

“Na sala de aula, com o auxílio de docentes responsáveis, experimentados e ligados ao métier, podem ser criados os estímulos para que o ideal [da profissão] seja perseguido com naturalidade, as devoções praticadas sem mesquinhez.” 45

Dines, no entanto, reviu essa posição, e hoje pode ser considerado um dos profissionais que mais têm cobrado da imprensa um amplo debate sobre esse tema, e um dos que mais têm colaborado para ele.46

Jornalismo como vocação

Em um texto de 1919, em que analisa a política como vocação e caracteriza o jornalismo como uma das atividades em que é possível exercer a política, o sociólogo e economista alemão Max Weber (1864-1920) ressalta também a imagem do jornalista como pertencente “a uma espécie de casta de párias que a ‘sociedade’ julga em função de seus representantes mais indignos sob a ótica da moralidade”. 47 No entanto, esse pensador alemão reconhecia no jornalismo uma responsabilidade “bem maior que a do cientista, não sendo o sentimento de responsabilidade de um jornalista honrado em nada inferior ao de qualquer intelectual”. 48

“Sem dúvida nenhuma, a carreira jornalística permanecerá como uma das vias mais importantes de atividade política profissional. Entretanto, não se constitui um caminho aberto a todos. Não está aberto, principalmente, para os caracteres mais fracos e, muito menos, para os que só se podem realizar em situação social isenta de tensões.” 49

Esse ensaio de Weber é usado para ilustrar uma das mais contundentes objeções à concepção do jornalista por formação, feita em março de 2003, na abertura da Semana Nacional da Comunicação, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Trata-se da palestra “Declínio e morte do jornalismo como vocação”, proferida por Bernardo Kucinski, professor de jornalismo na escola de Comunicações e Artes da USP, ganhador do Prêmio Jabuti de 1997 pela autoria do livro Jornalismo Econômico e, desde o início da atual gestão do Governo Federal, assessor especial da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica da Presidência da República. Citando Weber ao se contrapor à noção do jornalismo por formação na proposta de Beltrão como prejuízo do jornalismo como vocação, Kucinski afirmou:

“Mas Luiz Beltrão não assumiu que o trabalho do jornalista pudesse requerer a um só tempo os atributos tão diferentes de inteligência, conhecimento e destreza que Weber detectou. É essa combinação tão rara, mais a sensibilidade e o saber narrar uma história que constituem a vocação jornalística. Por isso, o bom escritor nem sempre consegue ser um bom jornalista ― se lhe faltar a destreza ―, mas o bom jornalista sempre pode se tornar um bom escritor.“

“Luiz Beltrão localizou na carga de conhecimentos o principal atributo do jornalismo, e para superar a falta de conhecimento, diante de um mundo cada vez mais exigente em saberes especializados, propôs a instituição dos cursos de jornalismo. Mas o resultado dessa experiência, praticamente única no mundo, foi constrangedor. O saber e a auto-estima dos jornalistas não aumentaram; ao contrário, caíram ainda mais. E a vocação deixou de ser critério para o ofício de jornalista. Vocação vem do latim vocare. Designa, mais que talento, um chamado interior sobre o qual não se tem controle, uma urgência de fazer algo.” 50

Segundo Kucinski, a falta da necessidade de vocação é o demarcador principal entre o velho e o atual jornalismo, assim como há outros demarcadores, como a postura contra-hegemônica e crítica, a irreverência e o desafio às autoridades e ideologias dominantes, além do cinismo, “que costumava atacar o velho jornalista do meio para o fim de sua carreira, hoje é ponto de partida do jovem jornalista. Ele já começa cínico”. 51 A crítica do professor da ECA-USP à noção do jornalista por formação se reveste de um peso constrangedor e incontornável para os defensores dogmáticos da defesa do diploma, pois parte de um profissional que, devido à sua trajetória e sua militância, eles certamente jamais sonhariam acusar de subordinação aos interesses patronais, como geralmente fazem com todos aqueles que criticam suas posições.




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 é jornalista.

Revista Consultor Jurídico, 24 de junho de 2005, 14h18

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