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A base do mensalão

Presidente do PTB diz que PT pagava mesada a deputados aliados

O presidente Luis Inácio Lula da Silva convocou uma reunião da coordenação política do governo para discutir as declarações do presidente do PTB, Roberto Jefferson, segundo as quais o PT pagava uma mesada de R$ 30 mil para os deputados da base aliada no Congresso. Jefferson fez a revelação em entrevista exclusiva ao jornal Folha de S. Paulo.

Segundo o deputado, a prática durou desde o início do governo do Lula, até o começo deste ano, quando o presidente tomou conhecimento do chamado “mensalão” e ordenou sua suspensão. O pagamento, segundo Jefferson, era feito por Delúbio Soares, o tesoureiro do PT. À Folha Jefferson relatou a conversa na qual contou ao presidente o que sabia. “Presidente, o Delúbio vai botar uma dinamite na sua cadeira. Ele continua dando o `mensalão´”. Segundo Jefferson, o presidente, que não sabia de nada, chorou e a partir daí “a fonte secou”.

Na entrevista, o presidente do PTB diz que os deputados do PP e do PL receberam a mesada do governo. Segundo Jefferson, seu partido, o PTB, rejeitou a proposta para entrar no esquema, feita e repetida a partir de 2003. Ele próprio denunciou a prática à cúpula do PT, antes de levá-la ao presidente. “O Zé Dirceu deu um soco na mesa: ‘o Delúbio está errado, eu falei para não fazer’”.

Corrupção no governo

O governo, que nunca conseguiu contar com uma base de apoio fiel e consistente no Congresso, falhou na tentativa de comprar uma. Desde que foi suspenso o pagamento da mesada, a insatisfação teria crescido na base parlamentar do governo: “A insatisfação está brutal porque a mesada acabou”.

O PTB, que segundo seu presidente não entrou no ‘mensalão’, está no centro de outro suposto esquema de corrupção implantado nos Correios, e que consistia também em desviar dinheiro público para garantir apoio no Congresso.

A revelação do esquema de corrupção nos Correios pela revista Veja provocou um terremoto na base de sustentação do governo, um abalo dentro da própria base petista e pode levar à instalação de uma CPI para investigar o caso. Também no IRB — Instituto de Resseguros do Brasil existiria um esquema de arrecadação de dinheiro para financiar o apoio do governo no Congresso. Nos dois casos, dirigentes das duas entidades indicadas pelo PTB estariam no centro das irregularidades.

A revelação do ‘mensalão’ pela Folha coloca mais lenha na fogueira e acaba de uma vez por todas com a imagem de defensor inatacável da moralidade que marcou a história do PT enquanto esteve na oposição. Segundo pesquisa do instituto Datafolha, 65% da população acredita que o governo Lula é corrupto. Em marco de 2004, apenas 32% pensava assim. O índice é muito próximo ao ostentado pelo governo Fernando Henrique Cardoso em sua pior avaliação no que se refere à moralidade. Em maio de 2002, 69% dos entrevistados acreditavam que o governo FHC era corrupto.

Negativa

Em nota oficial, a direção do PT negou as declarações de Roberto Jefferson: “O PT nega as declarações do deputado Roberto Jefferson, pois elas não têm o mínimo fundamento na realidade. O relacionamento do PT com todos os partidos da base de sustentação do governo, inclusive o PTB, se assenta em pressupostos políticos e programáticos e no objetivo de garantir a governabilidade do país e implementar o programa de governo pelo qual o presidente Lula foi eleito”.

A nota afirma ainda que o partido apóia “todas as investigações em curso feitas pela Polícia Federal, pelo Ministério Público, pela Controladoria Geral da União e por outras instituições, ressalvando a presunção de inocência de todos os envolvidos, mas com a convicção de que todos os culpados deverão ser punidos”. As investigações em curso, a que se refere a nota, dizem respeito ao escândalo nos Correios. Não há investigação, ainda, para apurar o mensalão.

Leia trechos da entrevista de Roberto Jefferson à Folha de S. Paulo

O mensalão

“Um pouco antes de o Martinez morrer, ele me procurou e disse: "Roberto, o Delúbio [Soares, tesoureiro do PT] está fazendo um esquema de mesada, um "mensalão", para os parlamentares da base. O PP, o PL, e quer que o PTB também receba. R$ 30 mil para cada deputado. O que você me diz disso?". Eu digo: "Sou contra. Isso é coisa de Câmara de Vereadores de quinta categoria. Vai nos escravizar e vai nos desmoralizar". O Martinez decidiu não aceitar essa mesada que, segundo ele, o doutor Delúbio já passava ao PP e ao PL.”

Quem recebia

“E eu passei a viver uma brutal pressão. Porque deputados do meu partido sabiam que os deputados do PL e do PP recebiam. As informações que eu tenho são que o PMDB estava fora. Não teve "mensalão" no PMDB.”

Quem sabia

“Fui ao ministro Zé Dirceu, ainda no início de 2004, e contei: "Está havendo essa história de mensalão. Alguns deputados do PTB estão me cobrando. E eu não vou pegar. Não tem jeito". O Zé deu um soco na mesa: "O Delúbio está errado. Isso não pode acontecer. Eu falei para não fazer". Eu pensei: vai acabar. Mas continuou.”

Pressão

“Toda a pressão que recebi neste governo, como presidente do PTB, por dinheiro, foi em função desse "mensalão", que contaminou a base parlamentar. Tudo o que você está vendo aí nessa queda-de-braço é que o "mensalão" tem que passar para R$ 50 mil, R$ 60 mil. Essa paralisia resulta da maldição que é o "mensalão".”

Por quê?

“É mais barato pagar o exército mercenário do que dividir o poder. É mais fácil alugar um deputado do que discutir um projeto de governo. É por isso. Quem é pago não pensa.”

Com o presidente

“No princípio deste ano, em duas conversas com o presidente Lula, na presença do ministro Walfrido, do líder Arlindo Chinaglia, do ministro Aldo Rebelo, do ministro José Dirceu, eu disse ao presidente: "Presidente, o Delúbio vai botar uma dinamite na sua cadeira. Ele continua dando "mensalão" aos deputados". "Que "mensalão'?, perguntou o presidente. Aí eu expliquei ao presidente”.

Reação

“O presidente Lula chorou. Falou: "Não é possível isso". E chorou. Eu falei: É possível sim, presidente”.

Leia a Nota do PT

1 - Foi com surpresa e indignação que o Partido dos Trabalhadores tomou conhecimento das declarações do deputado Roberto Jefferson, concedidas ao jornal Folha de S.Paulo, segundo as quais o nosso partido, através do tesoureiro Delúbio Soares, concedia uma mesada mensal de R$ 30 mil aos deputados do PL e do PP;

2 - O PT nega as declarações do deputado Roberto Jefferson, pois elas não têm o mínimo fundamento na realidade. O relacionamento do PT com todos os partidos da base de sustentação do governo, inclusive o PTB, se assenta em pressupostos políticos e programáticos e no objetivo de garantir a governabilidade do país e implementar o programa de governo pelo qual o presidente Lula foi eleito;

3 - O PT, a exemplo de outros partidos da base do governo, apóia todas as investigações em curso feitas pela Polícia Federal, pelo Ministério Público, pela Controladoria Geral da União e por outras instituições, ressalvando a presunção de inocência de todos os envolvidos, mas com a convicção de que todos os culpados deverão ser punidos.

Revista Consultor Jurídico, 6 de junho de 2005, 11h55

Comentários de leitores

6 comentários

Independentemente da credibilidade ou não do Sr...

Natalie Braz Ponsoni (Advogado Sócio de Escritório - Tributária)

Independentemente da credibilidade ou não do Sr. Jefferson, creio que a baixaria governamental atingiu patamares insustentáveis. Creio que seja necessária uma reformulação total do Poderio Estatal (em todas as esferas: Executivo, legislativo e Judiciário) a fim de que cesse de imediato a inacreditável usurpação da máquina estatal para fins de mero capricho...

Eu e meu filho também acreditamos no nobre depu...

Comentarista (Outros)

Eu e meu filho também acreditamos no nobre deputado Roberto Jefferson. Mas também acreditamos no papai noel, na mula sem cabeça, no saci pererê, etc. E para aproveitar o momento de extrema demonstração de honestidade do deputado (em denunciar hoje o que alega ter ocorrido há muitos meses atrás), vamos lançar uma campanha pública de apoio a ele, lançando-o em seguida à presidência da república em 2006. Afinal de contas, nós - brasileiros - não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar os préstimos e o "mumus" de um homem público de tamanha envergadura. Ele é, sem dúvidas, o exemplo do bom político...brasileiro, é claro.

Acredito no que foi dito pelo Dep. Roberto Jeff...

Guilb (Outros)

Acredito no que foi dito pelo Dep. Roberto Jefferson, exceto que o Pres. Lula e José Dirceu não sabiam do "mensalão". O povo brasileiro, ao menos uma minoria, com certeza sabe depurar as notícias que lê. Ao Dep., dou o meu total incentivo para que ele não se conforme em ser o "bode expiatório" da vez e para que jogue no ventilador todas as sujeiras deste governo do PT. Em 2006, espero que os brasileiros lembre-se do Caso do prefeito Daniel que cheira a "queima de arquivo", do AEROLULA, do caso do Waldomiro Diniz, e também daqueles caixas guardadas no Congresso, com documentos que demonstram o acúmulo de bens dos atuais políticos,incompatíveis com os seus rendimentos. Tenho pensado, cada dia mais, em ir embora desse país, que parece não ter mesmo jeito. Como educar os filhos, num país em que a moralidade não existe? Não só a moralidade, mas também a lei, depois daquela decisão do Supremo sobre a taxação dos inativos, não existe! A única verdade, é que os poderosos tripudiam em cima do povo brasileiro, extorquindo mais e mais dinheiro com impostos, que são usados para sustentar a "mamata" desses politicos, e depois, vem o Governo, com o benevolência do Supremo, que é outro Poder do Executivo, dizer que a Previdência está falida e que o povo deve pagar (novamente?) para custear as aposentadorias dos servidores. Fora Lula, Fora Dirceu, Fora Jobim, Fora PT, e mais um "Fora" para aos políticos nomeados para o Supremo, que deveriam desde a decisão sobre a EC-41, ser chamado de Supremo Tribunal do Executivo. Este espaço é pouco para traduzir toda a minha desesperança com os representantes do Povo, seja no Executivo, no Legislativo, e no Judiciário.

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