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Guerra do telefone

Leonardo Attuch pede direito de resposta à revista Veja

Da mesma forma que se dá a ingerência no poder do Estado, também a ORCRIM agia em sua relação com os meios de comunicação, mais especificamente a imprensa.

De um lado, a imprensa é utilizada para divulgar matérias contendo dados investigados pela ORCRIM, realizando o que se acordou chamar de “lavar a fonte”, ou seja, os “investigadores” repassam os dados ao profissional da imprensa, que utiliza o material para elaborar uma matéria. Em seguida, essa matéria jornalística é usada como um fato pelos próprios fornecedores dos dados, os quais não precisam divulgar as fontes.

A outra forma de atuação se dá com a publicação tendenciosa de matérias sobre pessoas, instituições ou fatos que tenham algum interesse para a organização criminosa. Os integrantes da ORCRIM passam, então, a deter o poder da informação – e logicamente da desinformação – sempre trabalhando a favor dos interesses da quadrilha.

Durante diálogo entre TIAGO VERDIAL (3) e ANGELO JANNONE (4), gravado pelo último, VERDIAL atesta estar alimentando suas fontes na imprensa: “VERDIAL – Eu era responsável por toda investigação desde o início quando apareceu pela primeira vez na imprensa. E depois disso... AJ – Você alguma vez contatou com algum jornalista nesse caso? V – Hum hum. NHI – Certo, mas era amigo de bar ou tinha um bom relacionamento? V – Um bom relacionamento. Só dando a história para eles”.

A Editora três, responsável pela revista ISTOÉ Dinheiro, supostamente vinculada ao grupo DANIEL DANTAS (5), teria sido utilizada para lançar matérias convergentes com o interesse do grupo criminoso. No diálogo travado entre ANNE MARIE e seu filho, TIAGO VERDIAL, uma matéria publicada na revista ISTOÉ Dinheiro teria sido elaborada pela quadrilha (“TIAGO: Eu já tinha feito todos os links de TOKIO com CUMBERLAND, só que eu não tava mergulhado exatamente em CUMBERLAND, eu tava cuidando muito dos links, eles já sabem que a CUMBERLAND era acionista oculta do TOKIO... MÃE: ah é? TIAGO: É, isso saiu na ISTOÉ Dinheiro dessa semana, matéria todinha feita pela gente, não sei o que, e saiu na capa da Isto é Dinheiro, não sei se você viu “Diário Secreto de Stefano Otanzi?” que era filho do (...incompreensível). MÃE: é, em que jornal? TIAGO: não, saiu na capa da Istoé Dinheiro. MÃE: ah, não, não. Como é que é o título? TIAGO: “O Diário Secreto de Stefano Otanzi”.

Sem entrar no mérito da veracidade dos dados ali contidos, nota-se que a citada matéria, mencionada na aparente bravata de TIAGO VERDIAL, converge com os interesses da ORCRIM.

DIÁRIO SECRETO DA PARMALAT

Mais matérias, entre outras, foram divulgadas pela mesma revista:

SUMIRAM US$ 250 MILHÕES

O ATAQUE A DANTAS

O GIGANTE NACIONAL

Da mesma maneira, coincidência ou não, logo após a prisão de TIAGO VERDIAL, a revista ISTOÉ Dinheiro, em reportagem noticiada na capa, divulgou outra matéria e uma entrevista realizada com JULES KROLL, criador da agência KROLL, o qual dá sua versão sobre os fatos:

O SR. KROLL DÁ SUA VERSÃO

As intrigantes contradições do caso KROLL

Observa-se que o autor de todas as citadas matérias é LEONARDO ATTUCH, jornalista da revista ISTOÉ Dinheiro , vinculado à Editora Três.

Fontes da imprensa vinculam o jornalista LEONARDO ATTUCH a KROLL ASSOCIATES BRASIL (notícia anônima indica que atuaria sob pseudônimo SILVIO BERLUSCONE) e a DANIEL DANTAS, que, através, de suas matérias, “limparia” possível atuação ilícita verificada no relatório Parcial de Inteligência encaminhado a Vossa Excelência.

Há, desse modo, indício de que LEONARDO ATTUCH favorecia a quadrilha investigada no procedimento criminal supracitado, elaborando matérias que vão ao encontro dos interesses da ORCRIM.

Jornalismo isento, agora, pasme o Juízo, passou a ser “nova vertente da atuação da criminalidade organizada contemporânea”!

É o fim do mundo!

Onde estamos?

Seria o Estado Democrático de Direito mera ficção? E a constitucional liberdade de Imprensa? Teria sido inserida pelo legislador no Texto Magno por mera sofisticação retórica?

É inconcebível que o Governo Federal, quando tenha seus interesses contrariados ou questionados, lance mão de expedientes intimidadores e arbitrários, próprios dos regimes de força.

Afinal, vivemos, de fato, uma democracia, ou um despotismo disfarçado de república sindicalista democrática?

Bem cabem aqui as palavras do escritor e jurista francês EDOUARD RENÉE LÉFÉBVRE DE LABOULAYE, para quem, desde que haja juízes capazes de fazer respeitar a Constituição e as leis, o governo pode até ser absoluto, mas não será um governo déspota (6).

E foi precisamente o que se verificou no caso: o Poder Judiciário INDEFERIU o pleito de quebra do sigilo telefônico do Requerente.

Revista Consultor Jurídico, 2 de junho de 2005, 19h33

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