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Liberdade de imprensa

Jornalista paraense é agredido pelo diretor do jornal O Liberal

Uma empresa jornalística pode - e às vezes deve - usar o caráter especial do seu produto contra adversários que a agridem ou para alcançar objetivos legítimos. O Wall Street Journal, segundo jornal em tiragem dos Estados Unidos e de uma influência sem a menor possibilidade de comparação com o segundo, o débil USA Today, empreendeu, na década de 20, do século passado, uma campanha contra a General Eletric, que era a maior empresa americana e do mundo na época.

A GE, contrariada por uma reportagem do WSJ, mas sem contestá-la (por ser verdadeira), decidiu, em represália, cortar a publicidade que fazia no jornal. A partir daí a poderosa GE começou a conviver com um hábito indesejado: ver todos os dias suas mazelas serem expostas no jornal, que deslocou dois dos seus melhores repórteres para cobrir a indústria em tempo integral. Mazelas reais, muitas das quais desconhecidas pelo próprio board da GE, não invenções ou chantagens, eram publicadas diariamente. Incapaz de contraditar as acusações, a GE restabeleceu a programação publicitária e o jornal voltou a dar a cobertura rotineira à empresa.

Não é esse o procedimento do grupo Liberal. Com seu jus império, a empresa se tornou árbitro único do próprio poder, independentemente do poder legalmente constituído e até das boas regras de convivência. Sua relação com Jader Barbalho, outro pólo de mando no Pará, com origens semelhantes e desdobramentos que divergiram até o antagonismo radical, é revelador desse modus operandi.

O grupo Liberal participou, como nunca, sob os Maiorana, da eleição de 1990. Apoiou Sahid Xerfan, candidato do governador Hélio Gueiros, e pintou Jader como a quintessência de tudo que não presta. Como de regra, perdeu a eleição (essa tem sido a única forma de reação aos Maiorana da opinião pública, protegida pelo amálgama da vontade coletiva anônima). O nome de Jader sumiu do noticiário da corporação. Mesmo ao tomar posse do maior cargo público do Estado, não recuperou seu nome: foi referido, em página interna, como "o governador". Com os primeiros anúncios legais (os editais), recuperou o nome próprio. Com os anúncios institucionais, foi conquistando, sucessivamente, foto, primeira página e a anistia incondicional. O ladrão da véspera virara, ao som das caixas registradoras em fúria, o estadista do dia. Mas até o dia de uma nova cobrança sem retorno, quando raios voltaram a ser disparados dos fundos do Bosque.

O procedimento contra o pai se repete com o filho. Empossado prefeito do segundo maior município paraense, Helder Barbalho não existiu para O Liberal e TV Liberal nas festas do dia 1º. Se não existiu para os Maiorana, não existiu para o mundo paraense, que, sabendo das coisas pelos veículos do grupo, sabe quase nada sobre si - e o dobro sobre o mundo. É, de fato, um poder superlativo. Tanto que, dizem os confidentes, o filho Barbalho pediu ao pai que diminuísse a troca de tiros com os Maiorana para que sua nascente carreira de prefeito não enfrente um caminho cheio de espinhos, que os adversários - comerciais e políticos - já lhe apresentaram. Dizem que Jader atendeu o pedido e mandou desarmar um front, que fora municiado como jamais havia acontecido desde que o império Maiorana se consolidou, na década de 70, à base da unanimidade compulsória.

Houve alguma situação parecida na história anterior do Pará? Em matéria de imprensa, só com a Folha do Norte. Mas Paulo Maranhão, o dono do jornal (sem uma arma formidável como a afiliação à Rede Globo), precisava matar um leão por dia. Não só na caixa registradora, administrada pelo filho, João, mas, sobretudo, na redação. Paulo Maranhão raramente assinava seus editoriais, artigos e notas, mas todos eles saíam de sua fervente cabeça e, pelo estilo, eram logo identificados por quem sabia ler. Era o que dava legitimidade e grandeza ao seu papel. Pois se o que distingue a mercadoria jornalística é sua natureza subjetiva e especial, de informação, saber o que constitui uma informação é o que o autoriza a exercer o seu poder, para o bem ou para o mal, mas com seu valor intrínseco. Paulo Maranhão jamais iria a Santarém para perguntar se aquele rio lindo que a banha é o Tapajós. Já sairia de casa com a informação no bolso do colete.

Quando o negócio da informação se reduz a uma quitanda, o poder jornalístico se torna uma fonte de poder pessoal, imenso para quem o exercita e absolutamente vazio para todos os demais, e a informação, uma banana. É o que, em boa medida, explica o estado de prostração no qual o Pará se encontra, incapaz de entender seu drama, por falta de informações, e submisso à vontade do soba, que o manipula conforme seus caprichos.

O poder enorme de Romulo Maiorana Júnior, solitário e caprichoso, é a contrafação da impotência do Estado no qual esse poder se nutre.




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Revista Consultor Jurídico, 24 de janeiro de 2005, 21h40

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