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Jornalista paraense é agredido pelo diretor do jornal O Liberal

Por isso, o novo afiliado da Globo teve que colocar sua TV Liberal formalmente sob o controle de outras quatro pessoas. Três lhe devolveram imediatamente a outorga de confiança quando o veto dos militares (que nem queriam sair em fotografias ao lado do cap das comunicações) foi extinto. Com um, Romulo precisou negociar pacientemente, usando como intermediário o principal dos seus advogados e um dos seus maiores amigos. Limpo o caminho, ele foi se distanciando dos concorrentes, perdendo-os de vista graças ao seu modo muito peculiar - e muito eficaz - de administrar seus negócios, sempre neles reinvestindo, ainda que pelo primado da imobilização em ativo fixo, com poucas sobras para a qualificação de pessoal.

Quando morreu, quase 18 anos atrás, deixou aos herdeiros uma empresa que liderava em todos os segmentos do mercado, com vantagem sem igual na história das comunicações no Pará, azeitada e com muitas reservas em caixa, além de planos de expansão em pleno andamento, como era sua característica: o crescimento em moto contínuo, sem descanso. A doença fatal, embora cruel, deu-lhe tempo para encaminhar a sucessão.

Ela estava posta quase naturalmente: o mais velho dos dois filhos homens, entre cinco mulheres, levava seu nome (mais uma garantia da marca RM, que começou a imprimir no comércio varejista de Belém) e já principiava, a enorme distância dos irmãos, a secundá-lo quando em vida. Romulo Junior parecia ter herdado o instinto do negócio, uma das qualidades do pai, e um certo feeling pelo jogo político. Mas parecia faltar-lhe experiência, assessoria e uma dose de bom senso, de olhar autocrítico.

Houve alguns momentos muito difíceis para o grupo Liberal depois da morte de Romulo. Do ponto de vista operacional, a compra de uma impressora sofisticada, mas superdimensionada para as necessidades e características da empresa. Além disso, com um inconveniente não detectado por ocasião da compra: devido a sua dimensão, ela exigia que o jornal se transferisse da sede, no centro velho da cidade, para novas oficinas capazes de suportar a dimensão da máquina e seu impacto quando em funcionamento.

O novo prédio de O Liberal é uma das mais bem instaladas sedes de jornal do país. Em particular, o gabinete do principal executivo não tem paralelo com o de nenhum outro publisher do país. É, de longe, o mais suntuoso, do tamanho de um latifúndio - e com o mesmo significado etimológico: muito espaço para pouco uso. O mesmo qualificativo de suntuosidade Rominho espera ver aplicado à mansão que está construindo no condomínio fechado do Lago Azul, na saída da cidade, numa área de cinco mil metros quadrados, mil deles construídos, com requintes hollywoodianos.

Tudo se tornou hiperbólico para Romulo Júnior. Ele passou a exigir o máximo, a partir da constatação de que seu poder aparenta ser ilimitado. Pode obrigar a justiça a passar por cima das exigências do rito do casamento civil e a Igreja a abrir mão de certas regras do preceito religioso para não prejudicar a pompa e circunstância de um matrimônio decidido a tempo e hora pelo rei, o noivo, conforme regras que prescreve do trono.

Romulo Júnior, porém, nos editoriais hebdomadários que assina, atribui a fonte de seu poder ao próprio trabalho (não exatamente matutino, muito pelo contrário), à colaboração dos funcionários da empresa (com os quais tem raros contatos) e à credibilidade dos veículos de comunicação sob seu mando principal (os seis irmãos são secundários; um deles, a irmã mais velha, abriu mão de participar da sociedade, vendendo sua cota de 7%, e a mãe antecipou os direitos do primogênito masculino e do caçula, Ronaldo).

Este é o ponto que mais interessa, entre tantas histórias paralelas. As pessoas acreditam no que publicam ou dizem os veículos de comunicação do grupo Liberal? Sem dúvida, acreditam (muitas também acreditam no chupa-chupa, entidade extraterrestre ressuscitada na capa da última edição dominical do jornal, com direito a suíte no dia seguinte). Sem isso, os dois jornais diários da casa (O Liberal e Amazônia Jornal) não seriam lidos com exclusividade por 8 dentre 10 compradores de impressos nem a emissora de televisão (em rádio a situação não é a mesma, mas a radiofonia é a mais delgada das fatias do bolo) teriam as folgadas lideranças de que desfrutam.

Grande parte dos consumidores que acreditam no produto dos veículos Liberal acredita por falta de opção. O quase-monopólio dos Maiorana cria um estado de inércia difícil de romper: seus clientes não se sentem estimulados a buscar sucedâneos, ou simplesmente essa alternativa não existe para eles. No caso da TV, em função do domínio arrasador da Globo. Em relação à mídia impressa, porque nenhum competidor enfrentou-os com o investimento requerido para derrubar uma situação de décadas, nem o Diário do Pará, do deputado federal Jader Barbalho, claudicante na profissionalização e tímido no capital de risco.

Revista Consultor Jurídico, 24 de janeiro de 2005, 21h40

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