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Um país no limite

“O Brasil está virando Gotham City”, diz advogado

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O advogado Jairo Saddi foi ver o filme Batman Begins e voltou impressionado. Nem tanto pelo filme em si e muito mais pelas semelhanças que ele viu entre a Gotham City do homem-morcego e o Brasil de hoje em dia: “City chegou ao limite, ao extremo. O Brasil está chegando nesse ponto: violência, falta de segurança, problemas de saúde, desigualdade social, desequilíbrio regional e tudo isso. O que acontece no filme é que você cria um herói. O Brasil precisa de um herói”.

Saddi tem até o seu candidato a herói: o ministro Antonio Palocci, que a seu modo de ver, é o avalista da estabilidade econômica do país e a vacina que tem conseguido manter a imunidade da economia contra o vírus da crise política: “Na medida em que a crise não afete o Palocci certamente os mercados vão entender que foi um problema político e localizado no Congresso”.

A crise política foi só o começo da entrevista que o diretor do Centro de Estudos em Direito do IbmecLaw concedeu à equipe de jornalistas da revista Consultor Jurídico. Participaram da entrevista o editor-executivo Maurício Cardoso, o editor Rodrigo Haidar e os repórteres Leonardo Fuhrmann e Maria Fernanda Erdelyi. Saddi dissertou também sobre mercado de capitais, a situação do Judiciário no país, o exercício da advocacia e, com especial entusiasmo o ensino do Direito e o Ibmec: “a nossa intenção é fazer do Ibmec a melhor escola de negócio, administração e direito do país”.

Jairo Saddi é formado em Direito e é doutor em Direito Econômico pela Universidade de São Paulo. Tem também formação em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Além de seus postos de direção no Ibmec, é também vice-presidente do Ibef — Instituto Brasileiro dos Executivos de Finanças e redator-chefe da Revista de Direito Bancário e do Mercado de Capitais.

Leia a entrevista

Conjur — Como o senhor vê as atuais denúncias de corrupção?

Jairo Saddi — É um cenário muito diferente em relação ao do Collor. Há uma crise séria, de instituições. Nada que o Brasil não tenha conhecido inúmeras vezes, mas pela primeira vez com um partido de quem se esperava um comportamento diferente. Espero que isso não atinja o presidente Lula, seria muito ruim para o país, uma sangria totalmente desnecessária.

Conjur — Esta crise deve atingir a economia também?

Jairo Saddi — Na medida em que a crise não afete o Palocci certamente os mercados vão entender que foi um problema político e localizado no Congresso. Ou seja, quase como uma história conhecida. Além disso, a desvalorização do yuan faz com que os mercados continuem acreditando que a China pode continuar comprando commodities brasileiras, como minério de ferro. É só olhar o desempenho das ações das siderúrgicas. E o fiador desse processo financeiro é o Palocci.

Conjur — Esta situação singular que se dá agora, em que a instabilidade política não contamina o cenário econômico, é um sinal do amadurecimento e fortalecimento das instituições?

Jairo Saddi — É um sinal de uma mídia mais livre, um sistema político que se alimenta de escândalos, mas não acho que as instituições se fortalecem. Talvez essa contribuição do Banco Central de criar um cadastro informatizado de todos os correntistas seja muito maior do que qualquer contribuição. Hoje você não consegue sacar mais de R$ 10 mil sem comunicar ao Banco Central. Instituições se fortalecem com medidas que tem começo, meio e fim. O que o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) fez não foi um serviço à nação. Muito pelo contrário. O impeachment seria muito ruim para o país.

Conjur — O Palocci é o novo herói do Brasil?

Jairo Saddi — O filme Batman Begins tem uma analogia interessante com o Brasil, porque Gotham City chegou ao limite, ao extremo. O Brasil está chegando nesse ponto: violência, falta de segurança, problemas de saúde, desigualdade social, desequilíbrio regional e tudo isso. O que acontece no filme é que você cria um herói. O Brasil precisa de um herói. O Lula lamentavelmente não é esse herói. Apesar de ele ter essa biografia de herói. No exterior a biografia do Lula é muito admirada. Um país que sofreu a ditadura, que encarcerou líderes sindicais, ter Lula como presidente é exatamente a ruptura de um modelo de atraso. Só que ele assume e esquece de parar de fazer campanha. Em vez de tentar promover a mudança, ele resolve aderir. O Palocci é um médico, não entende de economia, mas tem bom senso.

Conjur — Palocci 2006? Ou chamamos o Batman?

Jairo Saddi — Eu acho que devia ser o papel do Lula, desde que não se descubra qualquer coisa errada com ele. O Brasil precisa de instituições, mas precisa também de mitos. Nós fomos destruindo mitos com muita rapidez. É só olhar os candidatos à sucessão do Lula. O melhor que o Lula poderia fazer é dizer “eu não sou candidato à reeleição”. Salvaria sua biografia. Outro dia estava em Washington e havia uma exposição sobre presidentes dos Estados Unidos. O melhor era um texto do Lincoln que dizia que a Presidência é como um fardo insuportável 24 horas por dia, 7 dias por semana, doze meses por ano, 4 anos da vida. Presidência é um fardo. Tinha que acabar com essa história de reeleição. Simplesmente criar algum mecanismo para que o presidente tenha um mandato de cinco anos — acho que quatro é pouco — e não possa se reeleger. Se o Lula resolver insistir na reeleição nós vamos para o buraco rapidamente porque esse cenário externo mundial tende a piorar.

 é diretor de redação da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 7 de agosto de 2005, 13h04

Comentários de leitores

1 comentário

Boa e má notícia Com as revelações dos valor...

Cláudio Amorim (Prestador de Serviço)

Boa e má notícia Com as revelações dos valores envolvidos em escândalos públicos, chegamos a uma boa e uma má notícia conclusiva. A boa, é que o Brasil é a nação mais rica do mundo, apesar do Estado gigantesco, dos "caixas dois", dos mensalões, superfaturamentos de obras, da fuga de capitais estrangeiros especulativos e principalmente das fortunas encardidas enviadas as lavanderias nos paraísos fiscais. Mesmo assim, ainda somos classificados entre os países de economias emergentes. Diante deste quadro, não tenho dúvidas que em oito anos de gestão pública seguindo os exemplos dos índices finlandeses de corrupção, alcançaria-mos o merecido status de nação desenvolvida. A má, é que não temos mão-de-obra qualificada em nossos quadros políticos.

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