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Avenida Paulista

Avenida Paulista é o resumo dos problemas, não o símbolo da cidade.

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A Avenida Paulista foi eleita símbolo da cidade pelos que desprezam a história, ignorando o Pátio do Colégio como lugar da sua fundação e desconhecendo que o marco zero fica no Largo da Sé.

Aberta há um século, lá foram erguidos casarões da plutocracia paulistana, de gosto duvidoso, quase todos demolidos e substituídos por edifícios comerciais de estilos variados, a maioria sem interesse arquitetônico.

Hoje, apresenta problemas de difícil solução com trânsito de veículos, transporte público, poluição aérea, visual e sonora e segurança pública.

A sua estrutura parece insuficiente para a demanda de veículos. O projeto do prefeito e urbanista Figueiredo Ferraz, que previa três níveis para trem metropolitano, via expressa e via local foi abandonado. Em conseqüência, a única via, com duas pistas e quatro faixas de rolamento cada uma, não dá conta do número de veículos que por lá trafegam.

No subsolo foi aberto o túnel do trem metropolitano, em funcionamento há anos. Em vão esperava-se a prometida integração ao metropolitano das linhas de ônibus, que continuam superpostas àquele. Se era para mantê-las sem alteração, para que o metropolitano?

Ônibus de várias linhas por lá circulam, fazendo concorrência com o metropolitano. Aliás, fazem concorrência uns com os outros, em perigosas ultrapassagens, em uma corrida interminável para chegar primeiro aos pontos de parada e abocanhar os passageiros.

Afora a poluição aérea causada pela emissão de fumaça dos ônibus a diesel e a poluição sonora pelo ronco dos motores, o guincho dos freios e o barulho das buzinas.

Capítulo à parte são os ônibus fretados: nas horas de maior movimento entopem as pistas, parando em qualquer lugar para apanhar ou deixar passageiros.

Tudo isso torna o trânsito caótico. A disciplina só pode vir com a integração ao metropolitano das linhas de ônibus comuns e fretados, que ficariam em estações para o embarque e o desembarque dos passageiros.

Não adianta transferir os ônibus para as estreitas ruas paralelas, já saturadas pelo intenso trânsito de veículos particulares e de aluguel.

Outro problema são as manifestações públicas de caráter político, sindical ou esportivo. As pistas são tomadas por milhares de pessoas, interrompendo a circulação de veículos, com reflexos no trânsito da cidade inteira. Visto que nas imediações da avenida há diversos hospitais, constitui uma crueldade dificultar o acesso a tais estabelecimentos de pacientes transportados em ambulâncias, presas no congestionamento de veículos.

Tudo isso poderia ser evitado com a transferência de tais manifestações para locais mais adequados, como o Largo da Sé, a Praça da República, o Vale do Anhangabaú ou a Praça Charles Miller. Questão de imposição da autoridade.

Não que a arquitetura dos megatérios seja deslumbrante para ser admirada. Mas a colocação de painéis de publicidade ao longo da avenida acabou por causar uma poluição visual que mais a enfeia.

Na avenida e nas imediações instalou-se o comércio informal, responsável pela degradação do centro da cidade, que vem sofrendo êxodo de escritórios e de estabelecimentos comerciais. Esse comércio é desova de carga roubada, contrabando e falsificação, alimentando o crime organizado. Não se vê que benefício social pode trazer a tolerância com tal atividade, que se caracteriza como verdadeira condescendência com o crime. Não é questão social, mas de polícia.

Que dizer da venda de alimentos e bebidas na rua, sem cuidado algum com a higiene, colocando em perigo a saúde dos incautos que os consomem?

A segurança é outro ponto fraco. Ladrões vivem subtraindo carteiras, bolsas e pastas das vítimas. Nas transversais, assaltantes armados roubam ocupantes de veículos presos no congestionamento. Postos policiais fixos deslocam os criminosos para outros pontos, onde agem livremente. Para prendê-los, bastaria colocar policiais à paisana nos cruzamentos, onde poderiam surpreender os bandidos, tirando-os de circulação.

Enfim, a Avenida Paulista é um quadro-resumo dos problemas que afligem os paulistanos, Ali, interesses particulares e corporativos sobrepõem-se ao interesse público, em uma guerra que parece perdida pelo cidadão comum.

 é desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Revista Consultor Jurídico, 25 de março de 2004, 18h32

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