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Adeus a um advogado

Morre o advogado Waldemar Zaclis, ex-campeão paulista pelo SPFC.

Foi sepultado, na manhã deste domingo (21/3) o advogado Waldemar Zaclis, homem que construiu uma notável biografia como profissional mas, principalmente, como ser humano. Na advocacia, notabilizou-se pela destreza no direito comercial e civil, fundamentalmente no contencioso.

Poeta, foi jogador profissional pelo São Paulo Futebol Clube. Zaclis formou-se em uma leva memorável da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, junto com a escritora Lygia Fagundes Telles e o ator Paulo Autran, na turma de 1945.

Na cerimônia religiosa oficiada pelo rabino Henri Sobel, no Cemitério Israelita do Butantã, suas qualidades e suas lições de vida, das quais ele nunca descuidou, foram rememoradas: “respeite os humildes e nunca baixe a cabeça para os poderosos”, lembrou Sobel que reproduziu outro conselho que Zaclis não deixava de dar — “Amai a família acima de tudo”. Ele amou.

O texto escrito pelo neto, Ricardo, lido pelo filho Lionel Zaclis, atesta isso. “Ele fazia parte de todos nós. Ele era o braço direito de cada um da família”.

Waldemar, morreu aos 15 minutos deste domingo de falência geral dos órgãos, decorrente do agravamento, ao longo dos anos, de seqüelas neurológicas decorrentes de um acidente automobilístico ocorrido há cerca de 10 anos.

Ele nasceu na Romênia, há 85 anos. Veio para o Brasil com 4 anos de idade. Foi o segundo colocado no exame de admissão na São Francisco. Representava o Centro Acadêmico XI de Agôsto no futebol e daí foi parar no São Paulo Futebol Clube, onde jogou profissionalmente de 1938 a 1943, como uma das estrelas do time à época em que lá estiveram também Leônidas e Valdemar de Brito.

Como “half esquerdo” (algo como o quarto zagueiro da formação moderna), foi campeão paulista de 1943 e participou da célebre partida de inauguração do Estádio Charles Müller, mais conhecido como Estádio do Pacaembu.

Mas na parede de seu escritório o lugar de honra não foi destinado a seus títulos ou diplomas. Esse espaço mostra o quanto cultuava as boas características do ser humano. Na carta destinada a ele pelo desembargado Washington de Barros Monteiro, lê-se isso: “(...) De todas as vastas qualidades que lhe ornam a personalidade, as que mais ressaltam são a bondade, a firmeza e a retidão”. É o que ele valorizava.

Na homenagem que a OAB-SP prestou, em 1995, ao cionquentenário da Turma de 45, Waldemar Zaclis declamou um poema de sua autoria: “Esperança – o Brasil com que sonhamos”.

Da mesma turma fizeram parte figuras de destaque nas carreiras jurídicas, na política, na literatura, no teatro. Entre eles figuram, por exemplo, advogados de nomeada como Manoel Martins de Figueiredo Ferraz , Raif Kurban, políticos como Francisco Chagas Caldas Rodrigues, que foi governador do Piaui e senador, a escritora Lygia Fagundes Telles, o ator Paulo Autran, diversos desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo, como Joviano Pacheco de Aguirre e Luis Francisco da Silva Carvalho.

Para se tornar o profissional que é descrito pelo rigoroso ministro do Supremo Tribunal Federal, José Celso de Mello Filho, como um “paradigma dos grandes advogados brasileiros”, Zaclis teve bons professores: Miguel Reale, Goffredo da Silva Telles, Tullio Ascarelli e Enrico Tullio Liebman.

Waldemar Zaclis tinha histórias para contar. Hoje elas pertencem a seus familiares e amigos. Em um dos casos de que foi protagonista, acrescentou-se à célebre máxima de que “a justiça não se dobra” o complemento de que, “eventualmente, porém, ela pode se abaixar”. Isso data da década de 50.

Foi quando um celerado que teve sua apelação negada, no caso em que entrara em uma sala de sessões atirando no juiz, repetira o ato no Tribunal de Justiça. Só não acertando os três desembargadores porque eles se abaixaram por trás de suas mesas.

O primeiro juiz a safar-se fora o célebre Helly Lopes Meirelles. No segundo atentado do réu inconformado, depois de fracassar em seu intento, o indivíduo saiu correndo pelos corredores labirínticos do TJ.

Arma na mão, o foragido dos soldados da Força Pública teve o azar de topar com o atlético Waldemar Zaclis que saia de um cartório. Ao perceber a situação, o surpreendido advogado não teve dúvidas e desfechou um poderoso soco no maluco que o tirou de ação.

O caso, naturalmente, de boca em boca ganhou cores bem mais fortes e lances mais cinematográficos, que o próprio advogado nunca conseguiu corrigir inteiramente. O fato é que a partir do episódio ele se tornou conhecido como defensor da magistratura.

Num tempo em que o espaço da mídia é quase todo tomado por maus exemplos, Waldemar Zaclis é uma chance exemplar para reverenciar os que se esforçam para ser boas pessoas.

Os votos de pesar dos amigos que não puderam ser avisados a tempo podem ser enviados para o e-mail de lionel.zaclis@zlst.com.br.

Revista Consultor Jurídico, 21 de março de 2004, 20h10

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