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Investigar é preciso

Limite de poder do MP prejudica defesa dos direitos fundamentais

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O desafio de acomodar um Poder Executivo fortalecido e personificado na figura do Presidente da República, dentro de um enquadramento das regras constitucionais e legais derivadas da separação de poderes, permanece formidável mesmo após 215 anos da criação do regime presidencialista pelos Estados Unidos, pois como destacam os norte-americanos, os poderes presidenciais continuam “latentes na circulação sangüínea do governo”.

A magnitude, complexidade e conseqüência do conflito entre a personificação da Presidência e a necessária impessoalidade no cumprimento das regras constitucionais comprovam que o Presidente da República ocupa um cargo que não pronta e facilmente é assimilado ou controlado pelos demais poderes.

Nesse contexto, a mais importante tarefa na prática institucional é cumprir o mandamento constitucional básico, que determina ao Chefe da Nação e demais autoridades a total submissão às leis e a necessidade de respeitar o complexo mecanismo de freios e contrapesos existentes em um Estado Democrático.

O Presidencialismo brasileiro, nesse aspecto, foi extremamente sábio, pois além dos clássicos mecanismos de freios e contrapesos existentes na tripartição de poderes, estruturou o Ministério Público como Instituição de defesa da Sociedade, garantindo-lhe total independência para zelar pelo cumprimento das leis e defender o interesse geral, dando-lhe nossa Carta Magna relevo de instituição permanente e essencial à função jurisdicional.

Para poder cumprir seu importante papel no regime democrático, a Constituição Federal enumerou diversas funções institucionais ao Ministério Público, entre elas, a promoção privativa da ação penal; o zelo pelo efetivo respeito dos Poderes Públicos e dos serviços de relevância pública aos direitos constitucionalmente assegurados, a expedição de notificações nos procedimentos administrativos de sua competência e a requisição de informação e documentos para instruí-los, a requisição de diligências investigatórias e a instauração de inquérito policial e o exercício do controle externo da atividade policial.

Além disso, o texto constitucional permitiu à legislação ordinária a fixação de outras funções, desde que compatíveis com sua finalidade constitucional. Ao erigir o Ministério Público como garantidor e fiscalizador da separação de poderes e, conseqüentemente, dos mecanismos de controles estatais (CF, art. 129, II), o legislador constituinte conferiu à Instituição função de resguardo ao status constitucional do cidadão, armando-o de funções, garantias e prerrogativas que possibilitassem o exercício daquelas e a defesa destes.

Incorporou-se em nosso ordenamento jurídico, portanto, a pacífica doutrina constitucional norte-americana sobre a teoria dos poderes implícitos – inherent powers –, pela qual no exercício de sua missão constitucional enumerada, o órgão executivo deveria dispor de todas as funções necessárias, ainda que implícitas, desde que não expressamente limitadas (Myers v. Estados Unidos – US 272 – 52, 118), consagrando-se, dessa forma, e entre nós aplicável ao Ministério Público, o reconhecimento de competências genéricas implícitas que possibilitem o exercício de sua missão constitucional, apenas sujeitas às proibições e limites estruturais da Constituição Federal.

Entre essas competências implícitas, parece-nos que não poderia ser afastado o poder investigatório criminal dos promotores e procuradores, para que, em casos que entenderem necessário, produzam as provas necessárias para combater, principalmente, a criminalidade organizada e a corrupção, não nos parecendo

razoável o engessamento do órgão titular da ação penal, que, contrariamente ao histórico da Instituição, teria cerceado seus poderes implícitos essenciais para o exercício de suas funções constitucionais expressas.

Não reconhecer ao Ministério Público seus poderes investigatórios criminais implícitos, corresponde a diminuir a efetividade de sua atuação em defesa dos direitos fundamentais de todos os cidadãos, cuja atuação autônoma, conforme já reconheceu nosso Supremo Tribunal Federal, configura a confiança de respeito aos direitos, individuais e coletivos, e a certeza de submissão dos Poderes à lei.

Obviamente que o poder investigatório do Ministério Público não é sinônimo de poder sem limites ou avesso a controles, mas sim derivado diretamente de suas funções constitucionais enumeradas no artigo 129 de nossa Carta Magna e com plena possibilidade de responsabilização de seus membros por eventuais abusos cometidos no exercício de suas funções, pois em um regime republicano todos devem fiel observância à Lei.

O que não se pode permitir é, sob falsos pretextos, o afastamento da independência funcional do Ministério Público e a diminuição de suas funções – expressas ou implícitas –, sob pena de grave perigo de retrocesso no combate ao crime organizado e na fiscalização à corrupção na administração pública, pois esse retorno à impunidade, como sempre alertado por Norberto Bobbio, gera a ineficiência e o descrédito na Democracia.

 é secretário municipal de Transportes de São Paulo, foi secretário da Justiça de São Paulo e membro do CNJ.

Revista Consultor Jurídico, 26 de julho de 2004, 19h55

Comentários de leitores

17 comentários

Em primeiro lugar o MP não sabe investigar,nunc...

acs (Advogado Assalariado)

Em primeiro lugar o MP não sabe investigar,nunca foi preparado para isto nem possui estrutura para tanto.Depois, feriria de morte a ideia dos freios e contrapesos que o ministerio publico cumulasse mais de uma função no processo penal.Essa idéia de que o MP é o arauto da moralidade, de tão cretina, nem merece comentários e por fim, mas não de menor importancia,o MP nem ao menos consegue se desemcumbir a contento da consecução das suas atribuições.E francamente o cidadão comum nem ao menos sabe pra que serve o MP e jamais sentiria sua falta se o mesmo deixasse de existir.FALA SERIO NE?

OK pessoal, acho que a solução é criarmos no Br...

Raimundo Pereira ()

OK pessoal, acho que a solução é criarmos no Brasil o Quarto Poder, que seria logicamente o MP. Observamos que muitos de seus membros sofrem ataques de arritmia cardíaca com a idéia de serem vinculados a alguém, a algo, enfim, a alguma "coisa" que esteja acima deles. Sendo o Quarto Poder estaria tudo resolvido - mas teríamos que eliminar da CF a disposição que diz que "todo poder emana do povo", pois não precisamos ir tão longe assim. O povo....ah ! ...o povo - o povo não entende dessas coisas.

Cara Dra. Sania, Ao invés de tentar desquali...

José Maria de Castro Panoeiro ()

Cara Dra. Sania, Ao invés de tentar desqualificar os argumentos jurídicos e fáticos que trouxe em minha colocaçao, talvez devessa a I. Delegada se indagar por quanto tempo e até quando este subscritor exerceu o cargo de Delegado de Polícia. Para sua ciência exerci com muito orgulho tal cargo por 1 ano e 8 meses, exonerando-me em 30/12/2003 para assumir o cargo de Promotor de Justiça. Logo sei como se dão as remoçoes e conheço bem o meio através do qual elas sao informadas à categoria policial. Mais que isso, guardo ainda grandes amigos nesta classe que muitas das vezes ainda me relatam as agruras da inexistencia de uma inamovibilidade para o Delegado poder conduzir com seriedade e isençao as investigaçoes. Procure antes de tentar impor alguma suspeiçao apresentar argumentos jurídicos, pois a divergência é inerente ao debate democrático, lamenta-se apenas a posiçao com a qual nao concordamos, mas esta é a síntese. Quando ao comentário que teci nao lhe altero numa linha, pois crer que uma instituiçao possa ser a fonte única da investigaçao é, no mínimo, cruzar os braços e deixar este caos em que se encontra a segurança pública ir adiante. Assim sendo recuso-me a prolongar a discussao com V.Sa. neste site uma vez que tudo o que poderia trazer a lume já o fiz. Contudo deixo desde logo abertas as portas da Procuradoria da República neste Estado para, querendo, prosseguirmos o debate.

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