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Aldeia Global

Globalização exige da comunidade jurídica conhecimento humanístico

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A constatação do pregador de que não há nada de novo sob o sol, aplica-se, por inteiro, ao termo cunhado, na contemporaneidade, buscando indicar um cenário novo e uma novidade plena.

Refiro-me à palavra globalização e ao conteúdo que se busca conferir ao vocábulo nestes últimos vinte anos. A globalização -- apontada como vínculo de integração entre povos -- sempre representou a meta utópica de pessoas e impérios.

Na era cristã, a primeira personagem, que deu início a um processo visando globalizar uma idéia, foi Paulo, nascido em Tarso, judeu de nacionalidade romana, filho de fariseus, portanto observadores das Leis, que recebeu forte influência da cultura grega.

Paulo de Tarso, pois, era fruto direto de três fortes culturas: a judaica, a grega e a romana e, por intermédio de suas conhecidas viagens pelo Mediterrâneo criou uma "rede" interligada por uma idéia.

Em momento posterior, os ibéricos conceberam a mais incrível das aventuras humanas. Romperam o deslocar sobre o solo e o navegar em mares fechados e se lançaram à navegação oceânica de forma indômita e sem precedentes no Ocidente.

Atingiram outras terras e outros povos e, apesar da fragilidade de seus veículos de locomoção -- caravelas, naves e navetas -- conceberam uma rede, a "net" dos navegadores, sem precedentes na História.

Descobriram novos mundos e entre mundos diferentes permitiram a troca de bens e a integração de culturas. Nada se equipara à saga dos ibéricos na trajetória do Ocidente.

Se o conteúdo da palavra globalização é antigo e foi forjado pelo denodo de povos determinados, em tempos remotos, a concepção do vocábulo, com sua atual conceituação é contemporânea.

Assim, quando se fala em globalização, como indicando grande novidade, no mínimo demonstra profunda ignorância histórica e a exposição do desejo recôndito dos países do norte de se apresentarem como os únicos titulares do novo, quando o anunciado por novo é tão antigo quanto o nascer do Sol e sob este mesmo Sol não há nada de novo.

Recente á inclusão de termo no Dicionário de la Lengua da Real Academia Española . Só o fez nas últimas edições, como ocorreu na vigésima segunda edição, datada de 2001. Assim é definido globalização pelo dicionário da Academia:

"Tendencia de los mercados y de las empresas a extenderse, alcanzando una dimensión mundial que sobrepassa las fronteras nacionales".

Os dicionários vernaculares apresentam o vocábulo.

O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa é preciso na formulação oferecida:

"Fenónemo que consiste na integração entre os mercados produtores e consumidores de diversos países ou blocos económicos"

O recém editadoDicionário Houaiss da Língua Portuguesa aponta que a palavra globalização ingressa em nosso idioma após 1960 e oferece uma conotação de natureza político-economica à indicação do seu significado:

... " processo pelo qual a vida social e cultural nos diversos países do mundo é cada vez mais afetada por influências internacionais em razão das injunções políticas e economicas"

Houaiss, ainda, aponta a globalização como um processo neocolonialista das empresas transnacionais.

O conhecido Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, em sua edição datada de 1995, registra globalizar, como brasilianismo indicativa do ato de integrar, mas não se refere à palavra globalização.

Percebe-se que o termo globalização é de estréia recente nas línguas ibéricas e, portanto, se constitui em neologismo com raiz anglo-saxônica (globalize).

Este mesmo neologismo é expressão de extraordinária ambigüidade, como registra Rubens Ricupero, em obra recente(1).

Análise política da palavra globalização

A partir da leitura do conceito de globalização, pelos mais importantes dicionários da Lingua Portuguesa e da Língua Espanhola, pode-se avançar na busca da natureza política da palavra globalização.

É claro que a globalização é a inevitável conseqüência das novas formas de comunicação.

O rádio, a televisão e a internet, esta caravela mexeriqueira de nossos antepassados,(2) tornaram efetivamente o planeta Terra em uma Aldeia Global (Global Village).

Todos os acontecimentos são instantaneamente conhecidos por todos os habitantes deste planeta, transformado em uma mera aldeia.

Esta integração, por intermédio dos meios de comunicação eletrônica, -- como no passado os instrumentos eram os barcos a vela --, conduz a inevitáveis novas situações.

Rompem-se as barreiras territoriais dos estados nacionais e estes passam a receber, mensagens dos possuidores dos meios avançados de comunicação eletrônica, influenciando povos e governantes.

 é advogado e ex-governador de São Paulo.

Revista Consultor Jurídico, 16 de julho de 2004, 19h00

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