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O teatro da Justiça

Peça teatral em cartaz retrata dia-a-dia do advogado e da justiça

Poucos temas são tão explorados no cinema, na dramaturgia, na literatura e em novelas como a Justiça e seus arredores. Um porém é que a característica geral é a ênfase aos estereótipos, quando o autor é leigo na matéria jurídica. Quando não é, o texto costuma ser chato.

A exceção mais conhecida é o advogado-escritor norte-americano, Scott Turow, autor de obras extraordinárias como Ofensas Pessoais, Acima de Qualquer Suspeita, Erros Irreversíveis, entre outros. No Brasil, a literatura é fraca nesse aspecto de retratar o Judiciário como ele realmente é.

Coube ao advogado Luís Francisco Carvalho Filho contrariar esse quadro. Ele escreveu Nada mais foi dito nem perguntado, um livro pequeno, menos de 90 páginas, mas que mergulha bonito nesse universo.

Na última sexta-feira (9/7), Nada mais foi dito... escalou a ribalta. A Companhia Folias estreou a peça, com o mesmo nome, que estará em cartaz até o dia 29 de agosto, no Teatro Jardim São Paulo, na Zona Norte da capital paulista.

Seis diretores se revezaram na tarefa de dirigir os treze quadros de que se compõe o livro, cujas estrutura e narrativa servem também de roteiro e script. Vale a pena ir ver. O candidato à prefeitura de São Paulo, José Serra, e o diretor de redação da Folha de S.Paulo, Otavio Frias Filho, foram. Bacharel em direito e dramaturgo bissexto, Otavio disse ter gostado. Achou o trabalho bem transposto do livro para o palco. Para ele, os advogados que forem ao teatro "vão se enxergar no espelho".

Versões

A peça, que teve a coordenação geral de Marco Antônio Rodrigues, naturalmente, deu vida às situações aflitas retratadas no livro. Um interrogatório bruto feito numa delegacia. O juiz perplexo diante de conflitos imbecis judicializados. A falta de papel higiênico no banheiro do fórum. O agente público que cede ao suborno. O viciado desesperado por ter que ficar trancafiado e outras passagens angustiantes que desfilam todos os dias pelos fóruns e delegacias brasileiras.

O trabalho remete à reflexão sobre as diversas visões que se pode ter de um mesmo fato. A verdade e a mentira, culpado ou inocente, passa a ser uma questão de ponto de vista. Nesse ponto, Nada mais foi dito... tem por remissão o conto Dentro da Mata (levado ao cinema por Kurosawa sob o título de Rashomon), de Ryunosuke Akutagawa. A diferença é que, na história japonesa, os quadros compõem-se das diferentes versões dadas por cinco personagens de um mesmo episódio. E, ao final, ninguém fica sabendo ao certo o que aconteceu. Como muitas vezes acontece, aliás.

O elenco deu conta do recado. Os atores são versáteis. A seqüência é de tirar o fôlego. Das treze encenações, saem-se melhor as que arriscam fugir da literalidade do livro para o surrealismo. O excessivo respeito ao texto, aliás, virou um defeito no palco. A palavra escrita, feita para ser lida, ficaria melhor se adaptada para o coloquial. Quando não trata de questões jurídicas, claro.

Isso não impede que o espetáculo atinja o objetivo de divertir e fazer pensar. Nos finalmentes, texto e espetáculo mostram para quem quiser ver que da cenografia à marcação, do figurino ao texto, do enredo à produção, um palco e um tribunal são até bastante semelhantes. O desfecho é que nem sempre merece aplausos.

Serviço

Local: Teatro Jardim São Paulo (clique aqui para mais informações)

Preço: R$ 15,00 (sexta e domingo) e R$ 20,00 (sábado)

Data: de 9 de julho a 29 de agosto

Horário: sexta e sábado, 21h; domingo, 19h

Revista Consultor Jurídico, 11 de julho de 2004, 14h20

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