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Nostradamus de araque

Previsões de experts de primeiro mundo caem por terra

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Fenômeno muito valorizado na atual sociedade globalizada é a força da chamada conjuntura econômica internacional e os famosos padrões e paradigmas dos países de ponta do grande capitalismo, o chamado primeiro mundo.

Esses padrões determinam a atividade econômica no planeta. Como não poderia deixar de ser, o Brasil suporta profundamente todas as conseqüências dessas decisões. Cumpre examinar até onde essas decisões são decorrentes da realidade ou mero jogo de interesses geopolíticos.

Um reduzido conjunto de especialistas produz análises e proclama previsões que passam a ser inquestionáveis. Esses especialistas viram "oráculos do mercado". As suas projeções decorrem de análises feitas com tecnologia "de primeiro mundo", por isso mesmo, muito superiores ao conhecimento existente nos países menos desenvolvidos. Essa premissa é discutível.

Os especialistas do primiero mundo -- os "experts" -- vivem cometendo erros descomunais. A quebra da Parmalat demonstrou como eram frágeis os padrões de controle da atividade econômica do setor empresarial. Nenhuma auditoria havia percebido o desastre nas contas da empresa. Mesmo de depois de percebida, chegava-se à conclusão que o rombo era cerca de três vezes maior que o inicialmente detectado.

Os grandes escritórios de consultoria do primeiro mundo também não perceberam a quebra da Enron, nos Estados Unidos, muito embora todos ostentassem os famosos ISO nove-mil-e-qualquer- coisa.

Os "experts" em política americana apontavam como certa a escolha de Howard Dean para a candidatura Democrata nas eleições desse ano. John Kerry provou que eles estavam errados.

No plano político-econômico, esses "experts", que também dão burradas monumentais, estabelecem o chamado Risco País, ou seja a taxa de segurança para o investidor estrangeiro aplicar no país.

Quando o governo Bush montava a invasão do Iraque, os analistas internacionais previam que a Turquia, que tem longa fronteira com o Iraque, seria invadida por inúmeros refugiados de guerra, com grave perturbação de sua economia. Erraram. A reação Iraquiana foi mínima e não houve refugiados. Detalhe, nesse período, o Brasil, sem nenhuma ocorrência militar nas imediações, e a Turquia tinham o mesmo índice de risco para os investidores.

Parece brincadeira, mas na Guerra das Malvinas (Falklands - como querem os "experts"), o Brasil tinha a mesma taxa de risco da Argentina, que estava em guerra.

Portanto, para os "experts", um país estar ou não em guerra é irrelevante para a ordem econômica. Qual a lógica para tamanho absurdo? Com um risco tão alto, o Brasil paga taxas mais elevadas para receber investimentos.

Na verdade, para enfrentar esse risco, temos de ter políticas que tranqüilizem os investidores. Nesse instante aparece o famoso "superávit primário" estipulado pelo FMI no manejo das finanças públicas. E ninguém se atreve a tocar na taxa de juros.

Será que convém ao Brasil aceitar como infalíveis as afirmações desses "experts"? Nesse ponto, cabem elogios às linhas de independência adotadas em nossa política externa.

É comum os países do primiero mundo alegarem questões de saúde pública para vetarem a importação de produtos dos países menos desenvolvidos. Sustentam que a precariedade nos controles de qualidade na produção põe em risco a saúde dos consumidores. Esses controles puderam ser observados agora no caso da gripe do frango, que afetou toda a Ásia.

Ninguém contesta as chamadas "barreiras fito-sanitárias", o problema é quando elas viram instrumento de política econômica. Ou seja, são utilizadas como pretexto para impedir a circulação de produção dos países menos desenvolvidos.

Pois bem, foi no centro do primeiro mundo que apareceu o "mal da vaca louca". Os melhores criadouros da Inglaterra (na certa com os famosos ISO's 9000) originaram uma doença que é diretamente decorrente de sua tecnologia de produção.

O episódio Waldomiro fez o Risco País subir. Os "experts" anunciavam uma "crise política" no Brasil, o mercado prontamente ouviu os seus oráculos, o que fez subir o dólar e tudo o mais.

Calma que o Brasil é nosso! Não faz muito tempo, o Brasil ganhou respeitabilidade internacional por afastar um presidente da República pelas vias do "impeachment", sem nenhuma crise institucional e sem recorrer às velhas quarteladas, tão próprias do subdesenvolvimento. Esse fato, da maior importância em nossa história, não foi considerado por esses "experts".

Então, o país não suportaria a perda de um Ministro de Estado, por mais importante que fosse? Na verdade, o risco era inexistente. O que aconteceu foi uma onda de especulação, na qual muita gente lucrou com a alta do dólar e fez negócios com isso.

Existem boatos assumindo foros de verdade e gente inescrupulosa ganhando com isso. Para impedir que isso continue ocorrendo, nada melhor que o bom senso diante dos fatos e notícias.

Nesse sentido, não podemos cair na histeria de ver em tudo a mão diabólica do imperialismo; nem tampouco nos deslumbrarmos com toda afirmação de algum PhD internacional. Cabe sempre a lembrança do velho adágio popular: "nem tudo que reluz é ouro".

 é professor do curso de Direito da UFPI e membro da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal da OAB.

Revista Consultor Jurídico, 26 de abril de 2004, 10h31

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