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Popó no TST

Popó apóia combate ao trabalho infantil e fala de trajetória

O campeão mundial de boxe superpena Acelino Freitas, o Popó, apoiou, nesta segunda-feira (13/10), a atuação do Tribunal Superior do Trabalho no combate ao trabalho infantil e comprometeu-se com a causa. Em solenidade no TST, o lutador emocionou-se ao relatar a infância pobre e disse que esteve em Brasília especialmente para apoiar a luta do TST não como Popó, mas como Arcelino Feitas. "Passei fome, mas mudei o rumo de minha vida com unhas e dentes", disse. Para o lutador, faltam oportunidades para que crianças e adolescentes pobres possam ter uma vida digna.

O presidente do TST, ministro Francisco Fausto, destacou a importância de parcerias com personalidades como o pugilista, "do qual todos nós, inclusive as crianças, somos fãs de carteirinha", para chamar a atenção da sociedade para problemas graves como esse que exigem iniciativas de todos os setores. Francisco Fausto disse que a Justiça do Trabalho só atua quando é demandada, mas o TST tem se empenhado em atuar politicamente contra práticas como essa.

Para o presidente do TST, o trabalho infantil é um fenômeno mais difícil de acabar do que o trabalho escravo, pois tem suas raízes na própria cultura do País, principalmente do Nordeste. Ele citou o caso das chamadas "crias de família", crianças que têm assistência médica e vão à escola, mas realizam trabalho doméstico. "Isso compromete o futuro da criança, porque elas são tiradas do lazer e da educação para realizar tarefas domésticas", disse. O ministro também citou os casos mais graves, como os das crianças que realizam trabalho penoso, em locais insalubres ou perigosos.

Popó citou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) que aponta 1,9 milhão de crianças e adolescentes de 7 a 14 anos fora da escola. "Isso é falta de oportunidade", enfatizou. O lutador destacou a importância do trabalho, mas ressalvou que "tem de ter o momento certo, a hora certa". Ele deu destaque também à formação da criança em casa, como a que recebeu dos pais, e lamentou a presença de crianças nos semáforos das grandes cidades, pedindo esmola, muitas vezes acompanhadas dos próprios pais.

Na cerimônia estiveram presentes os ministros Vantuil Abdala (vice-presidente do TST), Rider de Brito, Luciano Castilho, João Oreste Dalazen, Carlos Alberto Reis de Paula, Ives Gandra Martins Filho, Maria Cristina Peduzzi, José Simpliciano e Lélio Bentes e juízes convocados.

A vida de um lutador

Popó começou a treinar boxe aos 14 anos e hoje divide seu tempo entre os treinos e competições internacionais e a causa das crianças e adolescentes carentes. Em Goiânia (GO), ele fundou a Escola de Cidadania Popó, para crianças carentes e menores infratores de 13 a 18 anos.

Em Salvador, o lutador mantém a Academia Popó Monte Pedra, que também é freqüentada por menores carentes. Popó é campeão mundial dos superpenas da Associação Mundial de Boxe (AMB) e Organização Mundial de Boxe (OMB). Veja a seguir a íntegra da entrevista dada por Popó.

Leia a entrevista com Popó

P - Popó, o que é preciso fazer para "nocautear" o trabalho infantil no Brasil?

R - Sou uma pessoa que começou a lutar boxe cedo, aos 14 anos, por opção. Lembro que meus pais, apesar de todas as dificuldades -- porque passamos fome e dormimos no chão -- nunca concordaram em ver os filhos trabalhando, principalmente os menores. Eles queriam que a gente estudasse, que seguíssemos a profissão de atleta, de lutador de boxe. Deus colocou essa grande oportunidade na minha vida, de aprender boxe e explorar esse dom. A nossa idéia aqui é mostrar para o Brasil que lugar de criança é na escola, estudando, e que a educação dada pelos pais é muito importante para a formação dos menores.

Acredito que as dificuldades que os pais enfrentam na rua não devem ser levadas para dentro de casa, em casa tem que haver harmonia. Se não houver harmonia, as crianças irão para a marginalidade e procurarão emprego mais cedo. É preciso que haja uma consciência maior por parte da família, por parte dos pais. A educação dentro de casa hoje é muito falha, não existe conversa entre pais e filhos e as crianças acabam indo para a rua sem muito preparo, sem qualquer formação.

P - Como é a realidade da exploração do trabalho infantil na Bahia?

R - Isso acontece em todo o Brasil, não só na Bahia. Em todos os Estados que você for tenha certeza que alguém vai comentar sobre o que está acontecendo com os garotos na rua. Em Salvador, por exemplo, existem muitos garotos pedindo esmolas nos semáforos e os pais sentados ali, do lado, esperando os garotos pedir dinheiro. Isso é um absurdo.

P - Você desenvolve um trabalho com adolescentes carentes na Bahia?

R - Desenvolvo um trabalho social grande dentro da minha academia, que se chama Academia Popó Monte Pedra, em Salvador. Há pouco tempo, um engraxate de 14 anos me pediu para treinar boxe e depois de treinar por três meses ele conseguiu ser o campeão baiano de boxe. Então, há falta de oportunidade para esses garotos que querem viver do esporte, que buscam um estudo melhor. Nossa idéia hoje aqui no TST, não é só falar sobre a exploração do menor no trabalho. É falar também sobre a educação dentro de casa, a falta de oportunidade para as crianças no esporte, nos estudos.

Queremos que a sociedade aprenda a falar com os filhos. Que aprenda não, porque isso ela já sabe, mas tem medo de falar com as crianças. Falta diálogo. Então, queremos pôr na cabeça da sociedade a importância de formar as crianças ainda dentro de casa. Essa formação na família é o tempero para que tudo saia bem fora de casa. Veja o meu caso: apesar de todas as dificuldades que enfrentei na vida, de dormir no chão e passar fome, minha família nunca roubou nada de ninguém, nunca tivemos que pedir esmola e nunca foi preciso que meus pais nos colocassem para trabalhar para manter a casa. Meu pai foi apontador de jogo de bicho e, apesar de não ser um dinheiro bem visto pela sociedade, foi a forma encontrada por ele para educar os filhos.

P - A idéia é incentivar iniciativas como a sua na Bahia?

R - Com certeza. Desde que comecei a lutar boxe venho incentivando os projetos sociais. Vou sempre ao bairro onde fui nascido e criado, faço sempre a entrega de brinquedos no Dia da Criança para a garotada, gosto de me vestir de Papai Noel, porque me sinto bem fazendo isso. Vejo o sorriso e o olhar de uma criança nesses momentos e isso me fortalece cada vez mais.

P - Como você vê a iniciativa do governo ao criar o projeto Primeiro Emprego?

R - Eu vim aqui no TST exatamente combater o emprego dos menores. A gente quer botar os menores para estudar e não para trabalhar. Quem tem que trabalhar são os pais. Até seguir o seu rumo, com a idade certa, depois de concluir os seus estudos, a criança não deve trabalhar. A idéia é combater a exploração dos menores no trabalho. O nosso interesse não é falar sobre o trabalho em si, mas explorar a parte social no trabalho.

P - Como você enxerga essa questão nos outros países? A sua observação quanto ao trabalho infantil no Brasil é a mesma com relação a outros países?

R - A situação é um pouco diferente, porque no Brasil esse problema é escancarado. Lá fora esse problema existe e muito, principalmente nos Estados Unidos, mas eles escondem muito a marginalidade. No Brasil, quando existe marginalidade com o menor, a primeira coisa que a imprensa faz é ir lá e mostrar. Por isso que todo mundo pensa que o Brasil é um País carente, muito pobre. A própria imprensa coloca isso na cabeça da sociedade. Então, hoje, quando se liga a TV só se encontra isso. A televisão só visa os fatos ruins. Existe coisa muito boa sendo feita e é isso que a televisão deve procurar mostrar, as coisas boas que as pessoas fazem.

P - Você acredita que a Justiça do Trabalho pode ajudar nesse combate ao emprego do trabalho infantil?

R - Com certeza, é para isso que estou aqui. Vim para passar um pouco da minha mensagem para a garotada, passar a minha mensagem a este Tribunal e dizer que, no que precisarem de mim para combater esse tipo de trabalho, eu ajudarei. Eu desenvolvo um projeto social bom aqui perto, na minha academia em Goiânia, na qual abrigo quase 200 crianças para treinar boxe. Há psicólogos para ajudá-las e, se as crianças não estiverem na escola, não podem freqüentar a academia. Nosso objetivo não é formar atletas, mas levar crianças carentes para treinar boxe nos momentos em que têm tempo vago e no qual elas geralmente fazem besteira. Acredito que o apoio de um ídolo, de uma pessoa que a sociedade admira, é muito importante para essa campanha de combate ao trabalho infantil. A sociedade ouve melhor. Então o meu objetivo hoje é esse, passar uma boa mensagem para a sociedade. (TST)

Revista Consultor Jurídico, 13 de outubro de 2003, 12h28

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