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Brasil ilegal

Nizan recomenda não sair com o personal trainer à noite

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O publicitário Nizan Guanaes tem um jeito peculiar de explicar porque as pessoas devem se preocupar mais com as aparências do que com a vida real. "Eu amo meu personal trainer", exemplifica. "Mas ele é gay", diz num tom mais baixo de voz. O publicitário acentua cada palavra para explicar que não tem preconceito algum. "Eu sou baiano", explica. E para provar que vê o homossexualismo com naturalidade, Nizan garante que tem muitos amigos que são gays: "Até meu irmão é", reforça. No grand finale de sua parábola, ele arremata: "Agora, o que eu não vou fazer nunca é sair à noite com o meu personal trainer, porque isso destruiria minha reputação".

Segundo o publicitário, depois que uma pessoa tem a imagem comprometida, o melhor que se pode fazer, para não ser contaminado, é afastar-se dela. A possibilidade de afrontar o senso comum e sair-se bem, diz, é nula. Como exemplo, Nizan cita o que considera uma cruzada pessoal sua: "Faz vinte anos que tento convencer as pessoas de que o baiano é um povo trabalhador e o máximo que consigo é parecer engraçado".

O código de conduta de Nizan é vencedor. E é perseguido todo dia pelos meios de comunicação. A hipocrisia e a demagogia -- todo profissional da área sabe -- são ingredientes fundamentais para a construção de imagens. O abismo entre a importância da aparência e a da ética tem mais ou menos a mesma distância que há entre os índices de audiência da TV Cultura e da TV Globo. Ou, ainda, entre uma peça de Bertolt Brecht e o programa do Ratinho.

No livro Sociedade do espetáculo, o francês Guy Debord já havia se referido à década de 60 como um "tempo que prefere a imagem à coisa, a cópia ao original". Ou seja, o importante é trabalhar com a emoção ou com a fé. Mesmo que seja na base da ilusão.

Esse pode não ser o caminho do aperfeiçoamento humano. Mas quem liga pra isso se for o caminho do dinheiro? Nos anos 60 de Debord apelidou-se de "marmelada" um sucesso da época conhecido como Telecatch Montila, em que um grupo de musculosos simulava luta livre fazendo acrobacias num ringue de boxe. Hoje, a marmelada evoluiu para as pegadinhas ensaiadas e outras encenações rebatizadas de dramatizações.

Essa realidade é tão sabida que as eleições se tornaram, reconhecidamente, um torneio onde vence quem tem promessas mais saborosas a oferecer e quem melhor souber cortejar a massa ignara. É por isso que o comando das campanhas fica nas mãos de publicitários e não de cientistas ou especialistas em saúde, educação ou agricultura.

O jogo da hipocrisia, é claro, tem lá sua complexidade. A intelligenzia jornalística faz de conta que a grande maioria da população é civilizada e se choca com as palhaçadas da televisão. Como se a massa ignorante, imbecilizada e desorientada quisesse outra coisa e a produção do Domingo Legal -- "esses farsantes" -- estivesse empurrando, goela abaixo da população, essas porcarias.

Os críticos, esses anônimos que escrevem para menos de 2% da população, decretam que a população não tolera mais essas marmeladas. O Ministério Público e a polícia abrem inquéritos e o ministro da Justiça dá entrevistas.

No caso da entrevista falsificada do PCC, no Domingo Legal de Gugu Liberato, a pantomima derivou até mesmo para uma proibição de o programa ir ao ar com uma decisão jurídica inconsistente e insustentável. Mas cumpriu-se a obrigação de dar uma satisfação à estreita fatia ilustrada da população que sabe distinguir valores de antivalores.

Lutar contra a realidade pode ser a luta mais vã. Entanto, contemporizar com a co-existência de dois universos tão distantes dentro de um mesmo país torna as coisas muito complicadas.

Aproximar esses dois universos seria útil. Se não para eleger presidentes que prometam na campanha o que vão fazer, de fato, nas suas administrações, ao menos para que o Nizan possa sair com o personal trainer, de quem tanto gosta, à noite.

 é diretor da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 12 de outubro de 2003, 20h01

Comentários de leitores

6 comentários

Quanto ao assunto discutido, existem algumas co...

Marcos Borges Stockler ()

Quanto ao assunto discutido, existem algumas considerações que gostaria de fazer. Em preliminares acredito que não houve nenhuma ofensa ou discriminação. E cabe dentro de uma analise maior quanto aos fundamentos da vida em sociedade, aos princípios éticos e morais, que regem e fundamentam a convivência em sociedade, a polis, a evolução e preservação do homem e principalmente o direito, frisar que a sua frase foi uma frase infeliz, causado tantos comentários então vejamos: 1- Foi uma frase infeliz, por ter na sua preocupação com o conceito que outros lhe dariam, manifestado sua liberdade de expressar que não seria este um conceito que lhe agradaria. 2- Assim como, ele não gostaria de tal aparência, muitos não gostariam de estar dentro de um ônibus - transporte público -por não querer sair com pessoas pobres, é lógico, não manifestam o seu pensamento, reprimindo a liberdade de expressão. 3- Poderia tecer mil exemplos de outras situações, que muitos outros não gostariam e fugiriam na sua hipocrisia de tal aparência. 4- E como existem muitas pessoas assim, hipócritas, pelo mundo, que em suas hipocrisias se dizem defensores de causas dos excluídos. Sem olhar a sua própria atitude lastimável. É lógico que um homem com princípios éticos e morais suficientes para gerar prudência, um homem prudente, não saíria nem mesmo a noite sem uma necessidade justa. Quando digo homem, é um ser humano, ou uma pessoa como nossa lei especifica. O comentário foi infeliz, mas não por atingir uma "classe", antes sim por demonstrar ter ele certa preocupação, com o que o resto do mundo pensa e pensará dele. Eu não concordo com a discussão contra os princípios e a liberdade de expressão de um homem e o título dado ao texto pois ele não falou de qualquer "personal trainer" ele falou do "meu personal trainer" portanto o dele Caro Márcio Chaer, todos nós somos felizes algumas vezes e infelizes noutras. E quanto a discriminação, Cara Ana Elisa Siqueira Lolli, ela existe sim na hipocrisia das pessoas que se julgam melhores e superiores que outros por diferenças que não tiram a dignidade de qualquer pessoa, tais como cor, posição social, posição econômica. Não há que se confundir disfunção ou desvio de comportamento animal e biológico e até mesmo moral por busca desenfreada de goso carnal, com liberdade de expressão, com discriminação social, e muito menos com personal trainer, que é uma profissinal, como qualquer outro. No mais, acho que a discussão é sem fundamento.Obrig.

A Ordem é ordem se for ordeira; senão vira uma ...

Horácio Eveglio Pignatti ()

A Ordem é ordem se for ordeira; senão vira uma lavanderia e a roupa lavada em casa é para ficar mais limpa. Não só na OAB existe equívocos ; mas em todos os rincões; uns por falta de pagamentos , outros por ter pago ; uns por honrar os compromissos - mesmo parceladamente - outros por ser relapsos . O importante até o momento é receber - não importa a forma. O pitoresco é um fato recente - publicado em jornais de nossa região - Uma senhora pagou - quitou - o débito de energia elétrica do mês e recebeu a visita do pessoal da Cia para desligar a energia - cortar mesmo - e a coitada mesmo com a conta na mão ; monstrando aos energúmenos teve sua luz desligada .Haja paciência...

Resta saber se o personal trainer tem vontade d...

Ricardo Leitte ()

Resta saber se o personal trainer tem vontade de sair com o empresário à noite (!)

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