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Ligações perigosas

"PCC mantém contatos pontuais com Comando Vermelho."

O promotor Márcio Sérgio Christino, do Gaeco, grupo de elite do Ministério Público paulista, afirmou que o Primeiro Comando da Capital, o PCC, ainda mantém "contatos pontuais" com grupos do crime organizado carioca, como o Comando Vermelho, para exilar no Rio de Janeiro bandidos procurados pela polícia paulista. E vice-versa: daria guarida, em São Paulo, a traficantes procurados em território fluminense.

Márcio Sérgio Christino foi uma das primeiras autoridades a denunciar a existência do PCC quando o grupo era tido ainda, pela magistratura paulista, como apenas um fruto da imaginação. E, há cinco anos, lançou a obra "Por Dentro do Crime", um romance sobre o PCC baseado em depoimentos reais colhidos pelo próprio promotor.

Christino recebeu a reportagem da revista Consultor Jurídico em seu gabinete, no Pacaembu, para falar sobre o PCC. Seu livro está sendo relançado pela editora Escrituras.

Leia a entrevista

O que o caso Gugu mudou no PCC?

Com relação ao processo do jornalista Augusto Liberato nada mudou porque o procedimento deste processo era justamente o fato de que não eram agentes ligados ao Primeiro Comando da Capital. Aquilo foi tão somente um simulacro, uma fantasia daquilo que poderia efetivamente acontecer. O que mudou no perfil foi a talvez mais importante prisão feita nos últimos tempos a respeito do PCC, que foi a detenção em flagrante do advogado Mario Sérgio Mungioli, justamente quando fazia comunicação da organização diretamente para o líder maior, o Marcos William Camacho. O advogado foi preso em flagrante dentro do presídio de Presidente Bernardes e isto nunca tinha sido feito antes.

Como o PCC sobrevive hoje?

Eminentemente do tráfico. Essa é a atividade principal do PCC, mas isso não significa que eles não tenham outras atividades criminosas, digamos que eles sejam uma "holding" do crime, eles têm atividades tanto no tráfico quanto nos seqüestros, no roubo, enfim qualquer outra coisa que possa dar lucro ilícito. Mas principalmente a traficância, inclusive de dividindo áreas de atuação, cada qual se reportando a um poder central.

Como estão as ligações do PCC com outros grupos do crime?

A interligação é do PCC com outras facções do Rio de Janeiro, especialmente com o Comando Vermelho. São ligações pontuais e episódicas. Isso porque eles dividem mercados, um não atua na região do outro. Porém é certo que ambas as organizações mantêm algum tipo de contato. Esse contato porém é pontual, é uma coisa episódica, que se refere a ações isoladas. Para que possamos falar numa cooperação entre ambos, temos de necessariamente falar num comando central ou num plano em comum. E nenhum desses dois requisitos foi atendido até hoje.

O senhor diria que esses contatos pontuais são exatamente o quê?

Tráfico, sim. Compra e venda é possível. Mas principalmente deslocamentos. Às vezes uma pessoa foragida aqui busca um auxílio, busca ser ocultado lá, ou vice-versa. Então esse asilo, entre aspas, esta ligação, entre aspas, é uma coisa muito comum, o que não significa que um esteja literalmente organizado a receber o outro. É apenas uma relação eventual que acontece em determinados casos. Mas efetivamente existe essa correlação.

A ligação é especificamente entre o PCC e o Comando Vermelho que é a maior organização criminal do Rio de Janeiro. Mas o que quero lembrar que na época que o líder do PCC, o José Marques Felício, o Geleião, esteve no Rio de Janeiro, ele mantinha contatos não somente com o Comando Vermelho como também com o Terceiro Comando e com as outras facções que estavam representadas em Bangu, naquela época. Ele manteve contato com todas e deixou esta herança, que hoje se reflete principalmente no que se refere ao Comando Vermelho.

O PCC ainda extorque parentes de detentos para vender proteção dentro das cadeias?

Nós nunca mais tivemos notícia deste tipo de prática. Isso corresponderia a uma determinada época em que ex-lideranças, hoje já falecidas, como o Sombra e o Blindado (Edemir dos Santos Ambrósio e Alcides Delassari, respectivamente) exerciam sua liderança e tinham esta postura. Depois realmente não tivemos mais registros de casos assim, o perfil deles hoje é diferente.

Ao ver a fita do Gugu, os senhores esperariam que o PCC fosse ter uma atitude tão arraigada quanto aquela?

O PCC não é um organismo sólido e homogêneo. Ele tem faces, facções, ele tem posturas diferentes entre os seus próprios membros. Recentemente, uma facção do PCC pretendia realizar atos extremamente graves que perturbassem a ordem pública, tentando gerar blecautes, explodir torres elétricas, etc. Mas é uma facção menor e até o presente momento temos tido sucesso em fazer este controle. Mas eu duvido que eles tenham o perfil tal como apareceu naquela reportagem. Aliás, aquela reportagem, quando foi mostrada na televisão, a própria postura das pessoas que se apresentaram, o diálogo, a forma como falavam, desaconselhava a aceitação da veracidade de seus depoimentos.

Quem já tem um pouco mais de prática e está acostumado a ouvir testemunhos, conversar com eles, sabe o modo como se expressam, que não é o mesmo modo coloquial com o qual as pessoas falam. E essas características que eles geralmente possuem, o modo como se referem à hierarquia, por exemplo, isso não estava presente naquela reportagem. Então desde um primeiro momento já se desconfiou daquela atuação e principalmente o modo como ela foi feita que não corresponde ao perfil, à estrutura do PCC de hoje.

Revista Consultor Jurídico, 8 de outubro de 2003, 15h09

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