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Berzoini e jornalista continuam debate fora de programa de TV

Mas, então, por que a chicana? Simples: esse diálogo se seguiu a uma pergunta das mais objetivas. Indaguei o ministro se os servidores teriam votado em peso em Lula se soubessem que ele proporia essa reforma. O ministro disse que "sim". Estranhei que os eleitores votassem, por patriotismo ou crença em Lula, contra seus próprios interesses. Foi então que Berzoini afirmou que as novas regras podem fazer com que um servidor venha a "receber mais"; depois "receber igual" e, finalmente, "praticamente o mesmo". A questão original, afinal, já havia ficado para as calendas e perdido espaço para o factóide.

Competente

A despeito do truque e da tentativa, frustrada, de desmoralizar este jornalista, pelo que ele me deveria desculpas, devo dizer que admiro Berzoini. A serenidade com que diz as maiores barbaridades, a fluência e mesmo calma com que torce a história e faz o PT parecer um defensor de primeira hora das reformas, a sem-cerimônia com que transfere para o governo passado o insucesso deste governo; a sua tranqüilidade em defender uma proposta que seu partido satanizava até outro dia; a seriedade com que assegura que a taxação dos inativos é para valer, como se Lula não tivesse dito em campanha que era um mentiroso quem afirmasse isso, esse conjunto não deixa de exercer certo fascínio.

Sentimo-nos quase tentados a perscrutar os meandros psicológicos de uma inteligência como essa. A mim, em particular, me interessaria saber o que eu chamaria de "momento da queda", aquele em que o nosso ministro diz para si mesmo que será preciso fazer tudo aquilo que o partido sempre negou. E, sobretudo, deve ser muito interessante munir-se de coragem para fazê-lo, na certeza de que a mídia não tem memória, de que a população não tem memória, de que a história pode ser torcida e distorcida ao gosto do vencedor do momento.

Fala-se aqui com acento quase psicanalítico. Mas é claro que a questão é e sempre será política. Berzoini é o mais destacado membro e formulador do Partido Príncipe, daquele que veio para tentar tomar o lugar da sociedade, substituí-la, aparelhá-la, torná-la mera correia de transmissão de seus interesses estratégicos. Se vai conseguir é outra coisa, mas o fato de tentá-lo já deve ser fator dos mais estimulantes aos analistas políticos. Não gostaria de viver numa sociedade governada com gente que tem esses valores e essa concepção de política, mas reconheço no ministro um homem competente.

PSTU

À saída, Berzoini fez comigo uma brincadeira, que só torno pública porque feita na presença de outros coleguinhas.:"Diz ao Luiz Carlos que o site, às vezes, parece coisa do PSTU". Huuummm... Vamos ver: PSTU é um partido da extrema esquerda, que se opõe às reformas. Fiquei quase feliz. Os que nos detestam costumam nos identificar com "tucanos ressentidos", "serristas", "direitistas" e coisas do gênero. A associação com a extrema esquerda trotskista me fez lembrar de outros carnavais, quando eu militava nas fileiras do trotskismo - na mesma tendência do ministro Antonio Palocci, diga-se. Berzoini me descobriu!!!

Luiz Carlos, como é óbvio, é o economista e ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, publisher deste site e, na linguagem do antigo PT, é "o patrão"!!! Não só Berzoini me descobriu como pede que eu, como diretor do site, me entregue! Claro, entendi: naquele momento, embora apenas dois anos mais jovem do que o ministro, ele me reduzia a um garoto de recados, me infantilizava, robustecido e virilizado pelo poder - ainda que não tenha razão. Se é para mandar um recado jocoso, ele manda para quem manda: "o patrão". Naquela hora, ou a sua antiga natureza o traía, soprando-lhe ao ouvido o equívoco de outros tempos - "os patrões da imprensa burguesa..." - ou falava a sua nova natureza: de "patrão" para "patrão". Nem ele próprio deve saber.

Santo Deus! Ninguém me acusa de esquerdista já há quase 20 anos!!! Que um general do PT venha a fazê-lo é sintomático. Não sei não, mas isso deve falar menos de mim e das minhas opções ideológicas (eu, que não tenho a menor importância ) e mais do PT, que tem toda a importância.

Ministro, o recado foi dado. E o senhor estava errado. E errado por cálculo, de caso pensado, não por ignorância. O que não deixa de ser o elogio final que lhe faço.

Um abraço,

Reinaldo Azevedo, 41, é diretor de Redação do site e da revista Primeira Leitura e confessa ler textos de emendas, bula de remédio e a Constituição

CQD, MINISTRO BERZOINI!

A afirmação do ministro Ricardo Berzoini (Previdência) de que, no cálculo do benefício da aposentadoria dos servidores, eles até "podem receber mais" é uma daquelas constatações que não querem dizer nada. O efeito político é o experimentado no programa Roda Viva (TV Cultura) desta segunda-feira. O efeito técnico, no bolso do aposentado, é zero, ou melhor, engabelação. Vamos explicar.

Revista Consultor Jurídico, 2 de julho de 2003, 17h08

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