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Linha de tiro

Mais de 90% dos PMs paulistas já moram em favelas

Mais de 90% dos soldados da Polícia Militar de São Paulo (a quinta força armada das Américas) já moram em favelas. São obrigados a ir para o quartel escondendo a farda em pequenas malas, e talvez abandonar essa prática signifique a crônica de uma morte anunciada. De janeiro de 1997 a junho de 2003 foram assassinados 1.226 PMs em todo o Estado de São Paulo.

As informações são do coronel Hermes Bittencourt Cruz, eleito nesta semana presidente da Associação dos Oficiais da Reserva da PM. Cruz dispõe de curriculum invejável e ambivalente: se, por um lado, é ainda o único policial militar brasileiro a ter recebido, graças à sua política liberal, uma bolsa de direitos humanos em Columbia, Nova York (presente de um fã seu, o cientista politico Paulo Sérgio Pinheiro), Cruz também guarda uma passagem no comando a corporação mais linha-dura do Brasil, a Rota (Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar). Ex-comandante da Academia de Oficiais do Barro Branco, na zona norte de São Paulo, Hermes Cruz teve uma curiosa fama internacional. Em 1993, um bunker explodido em Manágua revelou documentos as ligar os 10 sequestradores do empresário Abílio Diniz com grupos terroristas de todo o mundo, incluindo o basco ETA. Num dossiê montado pela quadrilha internacional constava a seguinte frase "cuidado com o coronel Cruz", seguida de um alentado perfil seu.

Eis o que disse Hermes Cruz ao Consultor:

O que o senhor vai fazer agora como presidente da Associação?

Nossa associação vem se destacando na defesa dos policiais militares no seu trabalho. E logicamente nessa linha nos preocupamos com os levantamentos estatísticos, sobretudo os sobre policiais mortos e feridos no cumprimento do dever. Nosso levantamento é feito pela Associaçação dos Cabos e Soldados, junto com os números oficiais, mais as pesquisas de nossa atividade. De 1997 para cá , até junho, tivemos 1.226 pms assassinados no Estado de São Paulo. O número de maior relevância foi em 1999, quando 317 foram assassiandos. Mantemos a média de sete policiais mortos todos os meses.

Os senhores chegaram a fazer há pouco um enterro simbólico da

segurança pública de São Paulo. O senhor prosseguirá nesse embate

com o governador Alckmin?

Estamos aqui na defesa dos interesses dos ativos, dos inativos, e das pensionistas. Hoje a segurança está centrada na ponta de linha, isto é, na figura do policial, mas é a retaguarda dele que oferece falhas. Por exemplo, atrás do policial temos um sistema prisional falho, uma legislação branda, as grandes possibilidades que o bandido tem de escapar, mais a impunidade. Temos apoio no plano material, mas o poder intimidativo do Estado está falhando. Nossa política com o governador não será de confronto, mas de sensibilização. Não queremos mais conflito com o governo, mas a atenção que merecemos. Queremos harmonia. Aquele espetáculo de um toque de silêncio, uma bandeira sobre um caixão, uma salva de tiros e uma bandeira enrolada entregue a uma viúva de policial e depois essa viúva morrer de fome -- não interessa. Queremos dignidade. A polícia não pode ser privatizada, o goveno deve saber que a polícia é uma peculiaridade do estado. O governo tem de ter consciência disso. Veja em Brasília: ali um PM ganha duas vezes mais que o policial de SP, que é o estado mais rico do país.

Como vê a questão criminalidade versus policial militar?

O quadro geral da criminalidade é preocupante, sobretudo furtos e roubos contra o patrimônio. Os números de homicídios estão caindo. A população que não faz parte do processo produtivo está muito concentrada também nas grandes cidades, e como diz uma professora da USP o crime se transformou numa atividade econômica viável e sem risco. Hoje não é proibido para o policial lutar pela dignidade de vida, como todos os outros trabalhadores. A vida do policial não está digna, ganhando RS$ 1,2 mil por mês. Ele precisa esconder a sua condição para chegar em casa, próximo das favelas ou nelas, Não pode pagar aluguel e não pode sustentar a família, sai de casa com malinha e lá dentro a farda. Mais de 90% dos soldados moram em favela, a grande maioria, o déficit habitacional é tremendo. É uma questão mal resolvida pelo governo atual. Em outros governos 5% dos conjuntos habitacionais eram dedicados para a polícia.

Revista Consultor Jurídico, 27 de dezembro de 2003, 13h38

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