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Proposta rejeitada

Gerald Thomas não aceita pena alternativa proposta pelo MP

O diretor teatral Gerald Thomas não aceitou a pena alternativa proposta pelo Ministério Público, no valor de cinco salários mínimos, em benefício de uma instituição de caridade. Em audiência na quinta-feira (28/8), no 2º Juizado Especial Cível do Rio de Janeiro, ele alegou ao juiz Antônio Nascimento Amado que não cometeu o crime de ato obsceno.

No último dia 17 de agosto, Gerald Thomas baixou a calça e a cueca após ser vaiado no Teatro Municipal pelo público que foi assistir sua versão da ópera Tristão e Isolda, de Wagner.

Gerald Thomas disse que sua atitude foi uma manifestação dentro de uma peça teatral e que já pediu desculpas às pessoas que se sentiram ofendidas, tanto na televisão, como nos jornais. Segundo ele, existe uma hipocrisia enorme no assunto, porque em muitas peças o público vê cenas de nudez explícita.

"Não aceito [a pena alternativa] porque não cometi um fato criminoso, não aceito a transação penal", afirmou o diretor. Segundo ele, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, enviou um fax de apoio à sua posição, porque não é possível impedir a liberdade de expressão de um artista. Ele disse também que jornalistas, como Zuenir Ventura, escreveram artigos na imprensa contrários à ação na Justiça.

Geraldo Thomas afirmou que não fez nada demais além de ofender as pessoas que o ofenderam. Ele declarou que um país que elegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não pode ser transformado em ditadura. "Não é possível condenar um artista. Isto é uma catástrofe. Eu não posso ser censurado num governo que não é de ditadura", ressaltou.

O juiz Nascimento Amado enfatizou que quando é uma questão de princípios, não é aconselhável aceitar a pena antecipada. Ele aconselhou o diretor teatral a confiar na Justiça. "Se nós temos nossos princípios devemos lutar por eles. Confie na Justiça, confie no Ministério Público", disse o juiz.

A advogada Leilah Borges da Costa alegou que ficaria muito mal para seu cliente aceitar a transação penal, porque estaria confirmando a prática de um ato ilícito e admitindo uma pena antecipada. "Foi um ato desrespeitoso, mas não pode ser transferido para a área penal. Ele deixaria de defender os interesses da classe artística", afirmou Leilah.

Ao final da audiência, Gerald Thomas declarou que seu medo é abrir precedentes perigosos que intimidariam outros artistas. O processo seguirá para o Ministério Público, que poderá oferecer a denúncia ou pedir o seu arquivamento. (TJ-RJ)




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Revista Consultor Jurídico, 29 de agosto de 2003, 11h49

Comentários de leitores

6 comentários

É absolutamente imperdoável o gesto desagradáve...

Gabriela Sampaio Lima ()

É absolutamente imperdoável o gesto desagradável praticado pelo tal diretor. É inadmissível que diante da insatisfação do público, seja este ofendido brutalmente com uma cena ridícula daquelas. Alega ele ser manifestação dentro da esfera teatral. Pura enganação. Tendo em vista, que aquela cena não fazia parte do espetáculo que o público fora prestigiar. Agiu com dolo! Com a mais pura intenção de atingir àqueles que o vaiaram. Deve, sim, ser punido.

A liberdade dele termina quando começa a do púb...

Ricardo Porta Martini ()

A liberdade dele termina quando começa a do público! Não podemos aceitar com liberalidade, mesmo que seja de expressão, o protesto praticado pelo Sr. Gerald Tomas. Porque se abriria um precedente em condenar um artista que se posiciona desagradavelmente? Dentro dinâmica do fato ocorrido o seu protesto demonstra que sua personalidade se diluiu, ou seja, enfraqueceu, fronte a crítica negativa sobre o seu trabalho. Precedente, perigoso, este sim, se abreria colocar aqueles que se posicionam como "artistas modernos" no rol dos intocáveis. Injustificável e grosseira foi a sua reação naquela noite! O que faria então frente a uma crítica negativa da conceituada Bárbara Eliodora? Ele a mataria? O direito em demonstrar seu trabalho, seja como artista, seja como diretor, seja como pretenso intelectual, termina quando o direito à crítica sobre o seu trabalho pelo cidadão que paga ingresso para assistí-lo, seja expressada. Ou esse não é o risco do seu negócio? Polêmicas a parte o seu protesto foi reprovado pelo público e pelo próprio meio artístico. Quanto à sua não aceitação sobre a transação penal, mera técnica processual, que poderá lhe beneficiar, ou fazê-lo cair do cavalo com as calçãs na mão!

O Brasil discute a suposta licen?a que Gerald T...

Sósthenes Halter Menezes ()

O Brasil discute a suposta licen?a que Gerald Thomaz teria em ter mostrado a bunda no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. O bom senso reza que o p?blico tem o direito de se manifestar e vaiar aquilo que n?o o agrada. Por outro lado, o palco do teatro ? o Rec?ndito das maiores manifesta??es humanas, guardando a tradi??o de ali se contestar as bases, os conceitos, a arte em voga e em suma, acima de tudo, o homem, sendo ali "proibido proibir". E ? essa caracter?stica predominante o diferencial q.

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