Consultor Jurídico

Quinta-feira, 28 de agosto.

Primeira Leitura: mercado reage bem ao andamento das reformas.

O espetáculo do otimismo

A taxa de risco do Brasil caiu fortemente ontem, acompanhando uma maré de otimismo para com o país que não se via há tempos. No fim do dia recuava para 682 pontos básicos, o menor patamar desde fevereiro de 2001. Em parte, o mercado está reagindo ao bom andamento das reformas, mas não apenas isso.

Viva a Justiça!

A decisão judicial que abre espaço para restabelecer o reajuste das tarifas de telefonia previsto nos contratos firmados com as empresas deu mais ânimo ainda aos negócios. Que sirva de lição a Lula: não se constrói credibilidade no gogó, apenas. Segurança de que contratos serão cumpridos é a base do investimento. Viva a Justiça, que colocou o debate sobre o reajuste no devido eixo, desautorizando o ministro Miro Teixeira (Comunicações), que conclamou a população a contestar os reajustes.

Fé no crescimento

O índice Bovespa rompeu a barreira dos 15 mil pontos, o que não ocorria desde 13 de junho de 2001, e fechou em alta de 1,78% e giro de negócios de quase R$ 1 bilhão, o dobro da média diária do mês passado. O dólar comercial fechou em queda de 0,94%, e chegou à menor cotação do mês: R$ 2,960.

Novo "gradualismo"

As taxas de juros no mercado futuro continuaram se ajustando para baixo -- os contratos de abril, os mais negociados, passaram a prever taxa de 19,34% ao ano (queda de 1,7% em relação ao dia anterior). Não por acaso, crescem as apostas de que o "gradualismo" na redução da taxa básica de juros da economia pelo Banco Central agora se dará em novo patamar, com quedas mensais próximas de 2 pontos.

Preços em queda

Além dos insistentes discursos de ministros e do próprio presidente do BC, Henrique Meirelles, de que a prioridade é o crescimento, há também a constatação de que os preços livres prosseguem em queda. A terceira prévia do IPC da Fipe, divulgada ontem, mostrou que a deflação dos alimentos, que era de 0,23% na quadrissemana anterior, desta vez foi de 0,45%. Com isso, o índice total, incluindo preços administrados, subiu 0,37%, menos do que o previsto, o que levou a Fipe a reduzir sua previsão de inflação no ano de 7,5% para 7%.

Renda em alta

Com a queda da inflação dos últimos meses, a renda real dos trabalhadores começou a se recuperar. Também ontem saiu a pesquisa mensal de emprego do Dieese, em convênio com a Fundação Seade. O rendimento médio real dos ocupados na Região Metropolitana de São Paulo cresceu 1,8% em junho, na comparação com maio. O desemprego, em julho, caiu de 20,3% da população economicamente ativa para 19,7%. É pouco, mas é uma inversão de tendência.

Mais vendas

O ganho de renda decorrente da redução do chamado "imposto inflacionário" já se refletiu nas vendas de supermercados, que cresceram 4,11% em julho, na comparação com o mês anterior.

O risco de não cair na real

A análise dos números, contudo, exige cautela. O crescimento no fim do ano virá por conta de certa recuperação da atividade e dos salários e do barateamento do crédito. Mas não há como considerá-lo sustentável, visto que os gargalos que abortaram o crescimento do país em 2001 (crise energética) e 2002 (crise externa) ainda não foram equacionados. Assim, há o risco de o governo Lula tornar-se inebriado com as boas notícias e esquecer que o crescimento sustentável vai exigir dele muito mais do que discursos e redução de juros.

Assim falou... Luiz Fernando Furlan

"No último trimestre, nós vamos ter praticamente um festival de boas notícias"

Do ministro do Desenvolvimento, ajudando a levantar a onda de otimismo nos mercados. Sobre a vulnerabilidade externa, que pode crescer com o dólar cotado a menos de R$ 3, desfavorável para exportações, o ministro nada falou.

Bolsa de futuros

Na tentativa de conseguir a chancela da Organização das Nações Unidas para a ocupação do Iraque, os Estados Unidos apresentaram ontem um acordo sui generis: Washington admite a possibilidade de uma força internacional liderada pela ONU operar no país, desde que o comandante seja um americano. Ou seja, soldados de vários países atuariam na pacificação do Iraque, mas sob controle dos EUA, o que permitiria reduzir o número de soldados americanos no território.

É como se a ONU fosse uma espécie de "laranja" da Casa Branca. Se houvesse uma bolsa de apostas sobre os conflitos entre o Ocidente e o Oriente Médio, as ações de ONU certamente estariam em baixa. Não só por causa da crescente aversão do povo árabe ao organismo -- compreensível, em certa medida --, mas principalmente pela relação utilitária que o governo Bush quer manter com ele.




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Revista Consultor Jurídico, 28 de agosto de 2003, 13h38

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