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Poder de fogo

Reforma da Previdência e o descaso de deputados e senadores

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Recebi um e-mail, com a seguinte questão: "Paguei INSS por 10 anos consecutivos como autônoma, depois fiquei desempregada e parei de pagar. Hoje, com 65 anos, tomada por artrite reumatóide, não posso mais trabalhar. Tenho direito a algum benefício?"

Estou impressionado com o descaso dos deputados federais, senadores, ministros e governantes em geral com o povo em geral nessa discussão da reforma previdenciária. Só vemos categorias de elite, bem alimentadas, organizadas, representadas e com grande poder de fogo.

Pois bem, onde estão os representantes de Maria da Silva, empregada doméstica, Pedro Pereira, metalúrgico, Joana de Souza, balconista ou Simplício Simples, zelador de condomínio?

Cada um deles, com altos salários de 250, 300, 220 reais, querem, também, aposentar-se com essa mesma fortuna e alguns deles estão contribuindo há mais de 20, 25 anos. Acontece que a vida não foi generosa com eles e os salários não acompanharam as rugas que ganharam nessa jornada.

Alguns políticos oportunistas foram ao bairro onde mora esse bizarro quarteto e andaram dizendo que "todos são iguais perante a lei". Eles acreditaram. Mas, descobriram logo depois da festiva visita, que seu salário era bem mais baixo do que o do próprio deputado, que, inclusive, se aposentava em tempo bem mais curto.

Pior do que isso foi a certeza de que essas aposentadorias eram pagas por aqueles descontos mensais que sempre teimavam em minar seus já míseros salários.

Simplício e seus companheiros, com a pouca leitura que puderam adquirir nos dois ou três anos em que estudaram, souberam pelos jornais que deputados, juízes, ministros, senadores e grandes "líderes sindicais" em causa própria se reuniram madrugada a dentro discutindo a "reforma previdenciária".

É inútil perguntar a esses trabalhadores ou a tantos outros o que significa essa badaladíssima expressão. Sua esperança era que deputados e senadores que tanto disputaram seus votos na última eleição falassem em seu nome, pensassem em seus direitos, lhes dessem voz no Congresso.

A cada dia, porém, vêem que os felizardos que ganham os mais altos salários da República se aposentarão com "aposentadoria integral", o que seria muito bom se todos os brasileiros fossem iguais perante a Constituição Federal. Nisso eles não acreditam mais.

Saber se um desembargador vai ganhar 75, 80 ou 90% dos vencimentos de um ministro do Supremo Tribunal Federal não tem nenhuma importância para o modesto quarteto, já que seus salários ficam a anos luz desses parâmetros.

Brasília, para eles, é apenas um sonho. É o paraíso para onde são mandados os políticos mais inteligentes e bem articulados de seu Estado. Por lá, até o garagista da Câmara Federal ganha mais de 3 mil reais! Um menino que lava o carro de um ministro ganha três vezes mais do que qualquer um desses pobres diabos. Esse não é o ponto.

O ponto é que não importa a quantidade de madrugadas gastas pelos homens de Brasília, a reforma previdenciária será contra eles, os mais pobres, os únicos que sequer podem sonegar porque o patrão mesmo se encarrega de fazer o desconto (às vezes até embolsa essas quantias...).

Madrugada adentro, madrugada afora, as aposentadorias integrais daqueles senhores de dois ou três sobrenomes ilustres, serão pagas pelos minguados salários de Maria da Silva, Pedro Pereira, Joana de Souza e por Simplício Simples.

Minha resposta honesta àquele e-mail é: minha cara senhora, você dançou. O que você pagou por 10 anos já foi gasto em aposentadorias integrais dos felizardos que se aposentaram antes de você. E sua idade já não permite contribuir com o fundo sem fundo da previdência. Espero que sua prefeitura, pelo menos, lhe dê uma ajuda funeral com um mínimo de dignidade.




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 é advogado especializado em Direito do Consumidor em Campo Grande (MS) e autor do "Manual do Consumidor Indignado".

Revista Consultor Jurídico, 5 de agosto de 2003, 14h19

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