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Odisséia na Terra

Juiz nega indenização para Elba Ramalho em ação contra Veja

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A autora, no entanto, como dito na matéria que abaixo segue, faz uma mistura sincrética com tudo isso:

Ashtar Sheran e Santuário de Maria

Elba falou com a Revista Vigília sobre seu envolvimento com a Ufologia, mostrando uma sincrética mistura de conceitos. “Eu sou uma curiosa, na verdade. Acho que sou como metade da população do planeta terra que já despertou a consciência de que não estamos sós, que existem outras vidas, da mesma forma como eu me interesso por astrologia e outra série de coisas que envolvem a fenomenologia e a paranormalidade”, disse, lembrando ser espírita kardecista.

Depois de revelar, em entrevista, ter vivenciado experiências próximas com discos-voadores, afirmou que há alguns anos vem aprofundando seus conhecimentos a respeito das supostas aparições da Virgem Maria. “E o que eu descobri nas mensagens da Virgem Maria em mais de 400 lugares é que todas as mensagens contêm advertências aos seres humanos para que eles possam se prevenir contra as abduções”, disse.

Essa relação mais intensa com um mundo que mistura espiritualidade e Ufologia começou, disse Elba, há um ano, quando entrou em um “Santuário da Virgem Maria, de muita luz, muita potência e muita fenomenologia, pela forma como elas canalizam, não só a Virgem Maria, porque são videntes da Virgem Maria, mas como elas canalizam Ashtar Sheran e Ashtar El”. Os dois últimos citados pela cantora seriam extraterrestres que, para a corrente mística da Ufologia, representam uma espécie confederação intergalática com o objetivo de salvar a humanidade. Segundo ela, teria partido deles uma mensagem para que a cantora fosse ao congresso.

Óleo negro e implantes

Elba diz que no Santuário assistiu “a mais de 15 retiradas de chips”, referindo-se à prática da extração do que seriam implantes colocados nos humanos por ETs de intenções malévolas. Uma dessas extrações teria sido feita no próprio filho da cantora. “Esses chips foram colocados para uma preparação do organismo para que as pessoas pudessem receber um tipo de substância até agora chamada pelos seres de óleo negro” e continuou: “uma espécie de um óleo preto, que é uma bactéria, que mina tua energia e te provoca doenças”, afirmou.

Parece até uma estória de ficção; aliás, é o mesmo artifício usado pelos ETs no seriado televisivo Arquivo-X. E a incógnita deve continuar, já que, segundo Elba, Ashtar Sheran e Ashtar El ainda “não autorizaram” a análise química da substância. “A gente nem sabe quando eles vão liberar que elas [as videntes do Santuário] mandem para análise”, disse.

Funcionário da Unicamp defende a universidade

A palestra da cantora, que teve início após uma rápida sessão de autógrafos sobre pôsteres do que seria uma imagem de Ashtar Sheran, foi uma das que mais exigiu da credulidade dos participantes.

A citação a supostas análises de “chips” e laudos feitos por cientistas da Unicamp – eles estavam numa pasta apresentada fechada por Elba Ramalho – ao contrário do que se poderia esperar, não gerou acirrada disputa de céticos pesquisadores em busca de provas. A cantora se despediu, e ninguém viu os laudos.

A reação não demoraria, no entanto, por parte de defensores da Unicamp. Um funcionário pediu a palavra para dizer que a universidade é uma instituição aberta, e segundo ele dificilmente os segredos a ela creditados durante o Congresso seriam tão bem guardados a ponto de nada chegar com estardalhaço à imprensa.

Coincidentemente, através de e-mail no dia seguinte, em resposta a um resumo do Congresso postado a um grupo de pesquisadores pelo hipnólogo Mário Rangel, Elba esclareceu: “Na verdade a Unicamp analisou os fenômenos que ocorrem no Santuário, águas, mel e outras materializações. Quem analisou os chips foram cientistas da Universidade de São Carlos, por amizade e interesses particulares pelo assunto. É apenas para que fique tudo claro e correto, que estou esclarecendo e pedindo desculpas pela falha”.

(Obtido na internet, site www.vigilia.com.br/n03104.htm, no dia 24/10/2002)

Está claro, portanto, que a autora já disse mais de uma vez, em mais de um lugar que “foi chipada”. Isso nem sequer foi contestado por ela.

Considerando toda a prova dos autos e mais o que pode ser obtido neste extraordinário instrumento de pesquisa que é a internet, pode-se afirmar que as opiniões da autora são inusitadas. Assim, como bem dito pelos requeridos, ela foi “incauta” ao falar de tudo isso para público especializado.

Até mesmo para este julgador, que não é especialista, soa estranho colocar na boca da Virgem Maria profecias sobre o fim das águas potáveis no planeta (vide fls. 111) ou sobre a “vaca louca”. Sobre o primeiro tema, é desnecessário invocar a Virgem Maria. Ele está tratado com muitos detalhes em bem feita matéria na revista National Geographic de setembro deste ano, que, na capa, diz “Água doce – E se ela acabar?”. A matéria foi escrita por Fen Montaigne com o apuro característico da revista editada pela sociedade fundada em 1888.

A autora reclama que o jornalista desconsiderou a venda dos seus últimos discos. Os requeridos, no entanto, estão certos que os últimos discos dela venderam bem porque foram obras conjuntas, reunião de vários artistas (O Grande Encontro). Assim, é compreensível que um acabe ajudando o outro e a obra venda mais. Antes desse trabalho, o disco “Solar” vendeu 75.720 cópias (vide fls. 16). Assim, é crível a consideração feita pelos requeridos que a autora está vendendo pouco. É cabível considerar que sua aparição no evento de Curitiba foi em busca de notoriedade. Como visto nesta sentença, a autora também apareceu em Ferraz de Vasconcelos (“Santa de vidro”) e em encontro ufológico em Campinas.

Em tal encontro, de acordo com a matéria copiada, a palestra dela foi uma das que mais exigiu credulidade dos participantes. Citou o nome da Unicamp, universidade orgulho de todos os paulistas, e foi contestada. Disse depois (na fita também) que o especialista seria da Universidade de São Carlos. A autora certamente não sabe, mas em São Carlos existem os campi de duas universidades públicas: a USP – Universidade de São Paulo e a Universidade Federal. Assim, ao se referir de forma vaga, o interlocutor que conhece um pouco mais fica sem saber a qual das duas, igualmente prestigiosas, ela se refere.

O pedido da autora é todo improcedente. Não se pode falar em dano moral e nem em violação da sua imagem. Os requeridos nada devem pagar para ela e, por extensão os pedidos dos itens “b” e “c” de fls. 13 ficam prejudicados. Os pedidos de fls. 14 já foram examinados quando das primeiras considerações.

Ante o exposto, julgo improcedente o pedido inicial e condeno a autora ao pagamento de custas e despesas processuais, além dos honorários advocatícios da parte contrária, que fixo em dez por cento do valor da causa, lembrando que os dois requeridos tiveram o mesmo patrono.

P.R.I.

São Paulo, 25 de outubro de 2002.

JOSÉ TADEU PICOLO ZANONI

Juiz de Direito




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 é editora da revista Consultor Jurídico e colunista da revista Exame PME.

Revista Consultor Jurídico, 31 de outubro de 2002, 16h18

Comentários de leitores

1 comentário

Existem muitas coisas ainda escondidas nesse no...

Simão, Wilson (Outros)

Existem muitas coisas ainda escondidas nesse nosso Brasil que não damos a mínima e que mas que na realidade existem mesmo e estão ali presentes, parecendo mais que os olhos dos brasileiros é que foram programados para não vê-las.. A pagina logo abaixo indicada, que em principio deveria somente atender os detalhes de uma monografia comentando como se chegou as proporções áureas da bandeira do Brasil ( que é muito interessante para todos) abre-se em outros tópicos mostrando que existe um forte indicio que no passado. a prática da astrologia Estatal e do misticismo foi secretamente ."ao contrario do nazismo" difundida em todo o território nacional e que seus efeitos, tanto positivos como negativos, permanecem até hoje incrustado no comportamento e na educação dos brasileiros chegando até a interferir no raciocínio lógico. http://geocities.yahoo.com.br/omarconopolo/xxxx.html Com os dados encontrados nessa página, ficará a seu critério julgar, se houve ou não anuência do estado com o clero ou tudo não passa de mera coincidência.

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