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Violação de direitos

Entidade processa o Brasil por violência policial e racismo

Neste momento, Fagner disse para os policiais que eles tinham atirado em um menino do Exército. A partir de então, a postura dos policiais mudou. Todos os policiais que estavam no morro, permaneciam no quintal da casa de Wallace. Rafaela viu e ouviu quando o tenente Busnello reconheceu o erro que cometera, comentando no telefone celular “fiz uma merda” .

Após a comunicação de que Wallace era membro do Exército, iniciou-se então uma discussão entre os policiais . Alguns aparentavam querer socorrer Wallace, mas os que comandavam a operação não permitiam. Os demais policiais demonstravam aguardar ordens do comandante, tenente Busnello. Este, no entanto, permanecia sem saber o que fazer. Segundo as testemunhas, em nenhum momento ouviram os policiais negarem ter atirado em Wallace. Tampouco haviam bandidos no local, uma vez que o tiroteio parou no momento em que os policiais atiraram em Wallace.

Um dos policiais colocou uma luva para pegar em Wallace , depois tirou essa luva e colocou no chão, ao lado da vítima. Essa luva e mais de 20 cápsulas deflagradas de fuzil foram recolhidas pela família e entregues no quartel do Arsenal de Guerra (quartel do Exército onde Wallace era recruta) ao Capitão Carrodia. Esses objetos nunca mais apareceram na investigação e tampouco foram entregues às autoridades competentes.

Enquanto os policiais discutiam sobre o que fazer naquela situação, os familiares tentaram então socorrer Wallace, que parecia estar vivo, mas perdia muito sangue. Contudo os policiais os impediram.

Os policiais não queriam que eles chegassem perto de Wallace . Inconformado com tal situação, um tio de Wallace de nome Paulo Tibuci Jacob, tentou chegar perto da vítima para socorre-la, e neste momento levou um empurrão de um dos policiais, que quase chegou desferir socos contra ele, e só não o fez, porque Paulo não demonstrou resistência .

Essa situação durou mais de 20 minutos, até que os policiais resolveram socorrer Wallace, que neste momento já havia perdido quase todo o sangue do corpo, pois havia sido atingido por um tiro de grosso calibre. Segundo os familiares, todo o quintal ficou banhado de sangue.

Os policiais pegaram Wallace pelos braços e pelas pernas e começaram a carregá-lo. Notando que esta não era a melhor forma de carregar uma pessoa ferida, os familiares se prontificaram a ajudar os policiais, e novamente foram impedidos. No meio do caminho de descida do morro, verificando que os familiares não mais estavam por perto, os policiais começaram a arrastar Wallace pelo chão. Neste momento um amigo da família de nome Tony, pediu para que os policiais carregassem a vítima de forma adequada. Foi então que um policial lhe respondeu “carrega essa merda você então” . Tony, então ajudou os policiais a levarem Wallace até o carro da polícia, que foi jogado na caçamba do camburão, local onde os presos são transportados .

Wallace foi levado para o Hospital Miguel Couto, aonde chegou com vida às 22:16 hs, mas morreu logo após, ás 2:25 hs da madrugada do dia 14 , de hemorragia externa , devido a grande quantidade de sangue que perdeu, provavelmente, por conta da demora no socorro .

C – A investigação no Brasil

Em virtude do episódio, foi aberto um inquérito policial na 12a Delegacia de Policia do Rio de Janeiro, no dia 14 de setembro de 1998 . Os policiais militares Soldado Nogueira, Sargento Aldi, Tenente Buenello, Soldado Athayde, Sargento S.Silva, Cabo Dias, Cabo Edmar, foram chamados para depor. Somente sete policiais foram apresentados como sendo os que participaram da ação no morro.

Os policiais alegaram em seus depoimentos que se dirigiam ao local dos fatos por requisição do Centro de Operações, para apoiarem outros policiais militares que estavam no local trocando tiros com bandidos. Este fato foi desmentido pelas testemunhas, pois não haviam bandidos no local.

Nenhum depoimento no inquérito policial identifica quais policiais tinham participado dessa suposta troca de tiros com bandidos.

Nenhuma diligência foi feita no sentido de efetuar o exame para verificar se existia impressões digitais da vítima na arma encontrada ao seu lado. Da mesma forma, a arma não foi periciada para verificação de possível disparo efetuado pela mesma, e se esses disparos poderiam ter sido efetuados por Wallace.

Os fuzis recolhidos pela polícia, utilizados pelos policiais que estavam no local dos fatos, não foram periciados, no sentido de se verificar se de alguma destas armas saiu a bala que matou o Wallace de Almeida.

Os familiares da vítima foram intimados para prestar depoimento na Delegacia de Policia do Méier, bairro periférico, zona oeste da cidade, numa distância de mais de 15 km do local dos fatos. No dia dos depoimentos, ao invés de facilitar a identificação dos policiais envolvidos no caso, foi apresentado às testemunhas, um livro com fotos de milhares de policiais, fotos estas 3x4 em preto e branco, o que em muito dificulta a identificação, mesmo porque, estas fotos, normalmente são tiradas quando os policiais ingressam na corporação, e não mais são renovadas.

Revista Consultor Jurídico, 15 de fevereiro de 2002, 15h14

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