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Lição de anatomia

Tognolli dá palestra sobre evasão e lavagem de capitais na Câmara

A julgar pelos experts da Stratfor, ligada `a Universidade de Austin, no Texas, as Nações Unidas serviram aos interesses do Departamento de Estado dos EUA ao potencializarem a noção dos " novos inimigos da humanidade". Quereriam os invasores do Kossovo, na verdade, apenas a posse do oleoduto do Mar Cáspio, a abastecer China e Rússia, ainda inimigos geopolíticos dos EUA. Compramos, todos, e em massa, a versão oficial.

Historicamente, o Departamento de Estado sempre elegeu inimigos de ocasião para justificar seu projeto político de expansão. Nos anos 20, a elite branca, racista e protestante, os Wasps, chamavam "vagabundos" imigrantes: os negros, italianos, irlandeses e judeus que refaziam a cultura americana, discutindo absolutamente tudo em bares e botecos .

Essa elite branca e racista se aproximou do governo dos EUA para a decretação da lei seca- o que portanto tiraria essa "gentalha" da noite, em que discutiam, nos bares, as fundações culturais do século 20. Decretaram a Lei Seca para se livrar desses "inimigos".

Passada a " febre comunista", novos inimigos tiveram de ser eleitos. Narcotraficantes, é claro, a partir do golpe de Estado promovido pelo general boliviano Garcia Meza, em 1980. Essa ética de novos inimigos mandou para a cadeia o homem-forte do Panama, general Manuel Antonio Noriega. Quinze mil homens da Guarda Nacional dos EUA invadem o Panamá, em dezembro de 1989, dez dias antes de os EUA perderem o controle geopolítico do Canal, na primeira semana de janeiro de 1990. Cobri, pessoalmente na Corte de Miami, por um ano, todo o julgamento. A Justiça dos EUA desembolsou US$ 176 milhões no julgamento, incluída a verba para se pagar testemunhas de acusação.

Sabemos que o problema do narcotráfico é tamanho que as dez principais máfias do mundo, enraizadas em 23. Países, inclusive o Brasil, movimentam por ano a soma de US$ 3 trilhões de dólares. Mas, nobres Deputados, o nosso ponto de vista é o uso geopolítico desses problemas.

Nem se precisa dizer que os novos inimigos narcotraficantes fizeram com que nosso FHC comprasse dos EUA o Sistema de Vigilância da Amazônia, o Sivam, por US$ 1,4 bilhão. - e, senhores, na sexta feira passada, quando o dólar finalmente resolveu cair, comemoramos um empréstimo de US$ 250 milhões do BID.

Caros senhores: feriu a todos nos, brasileiros, a declaração do secretario norte-americano Paulo O'neill, referindo que o FMI não poderia confiar neste país por causa do dinheiro que governantes mandam para a Suíça.

Apesar de o dr. Samuel Johnson ter dito que o nacionalismo é o ultimo refugio dos calhordas, precisamos de uma urgência nacionalista para conter a lavagem de dinheiro. A questão agora não é apenas criminal, é política e geopolítica. As redes internacionais de TV são prodigas em comprar e vender as posturas do departamento de Estado dos EUA. Não podemos admitir que o Brasil seja manchetado como um pais de risco porque a mídia internacional mostra aqui e ali casos de lavagem de dinheiro. Como vimos, a lavagem de dinheiro deixou de ser algo da esfera do crime local. É um dispositivo, senhores deputados, essencialmente geopolítico.

A saturação massiva de informações, como mostrada pelo jornalista Leão Serva em sua obra Jornalismo e Desinformação, cria culpados. É assim que se justificam os projetos internacionalizantes. O pais que não cuida de si suscita a sua inserção na lista das zonas de risco. E assim os projetos nacionais cedem a interesses internacionais.

Falemos de um outro assunto correlato: economia. A tecnologia reduz o tempo de produção, mas não há mercado para escoar o produzido tão rapidamente.

A única saída do Primeiro Mundo seria promover algazarra, ainda quer discretamente, por meio de invasões, guerras e instabilidades. Será verdade? O fato eh que a secretaria norte-americana Madeleine Albright comemorou a invasão do Kossovo como a criação de um "novo mercado de escoamento da produção dos EUA", já que a terra ali estava arrasada.

Consultemos o livro "Le bonheur 'economique", de Francois- Xavier Chevallier (Albin Michel, 1998, Paris). Ele nos conta coisas nada animadoras, com base nas teorias dos " Ciclos", do economista russo Kondratieff. Para o economista, avanço tecnológico e redução de tempo de produção resulta em guerras para lastrear a produção encalhada pela redução de seu tempo de produção. A Revolução Industrial teria gerado, a partir de 1783 e seguindo o economista, o crack na Bolsa de Londres e a Revolução de 1830. A introdução da química do ferro, a partir de 1837, a Revolução de 1848, a Guerra de Secessão nos EUA, o crack de Viena. A química pesada, no inicio do século, a primeira Guerra Mundial, o crack de 1929 em Nova Iorque e a Revolução de 30 no Brasil. A crise do petróleo, em 1973, teria potencializado a Guerra do Vietnam.

Por assim dizer, a tecnologia informática e a bioquímica teriam gerado o fim da URSS, as guerras localizadas, como o Kossovo, e o crack das economias do Terceiro Mundo. Verdade? Se lembrarmos que, ao final da Segunda Guerra, produção industrial dos EUA cresceu 60%, o produto bruto nacional 90% e o numero de desempregados caiu para apenas 500 mil em todo o pais, a teoria tem algum crédito....Criar novos inimigos, combatê-los localizadamente com forças-tarefas, em todo o mundo... Não é uma ótima estratégia de escoamento da produção???

Revista Consultor Jurídico, 4 de agosto de 2002, 10h23

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