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Lição de anatomia

Tognolli dá palestra sobre evasão e lavagem de capitais na Câmara

"A consultoria C&N (www.c-n-constantinou.com), localizada na Ilha de Chipre, no Mediterrâneo, cobra um pouco mais caro, mas oferece um pacote completo. Pelo site da consultoria, é possível abrir uma empresa 'off-shore' com US$ 3 mil (o equivalente a R$ 7,8 mil). Não há burocracia. Basta escolher um nome qualquer para a companhia, enviar uma cópia do passaporte e uma carta de referência de um banco brasileiro por fax. Em 6 dias, a empresa já recebe e faz pagamentos, emite recibos e possui conta bancária aberta em um banco local. Incluindo cartão de crédito Visa ou Mastercard. Tudo isso devidamente anotado no 'Livro de Registros' da Ilha de Chipre. Em nome de laranjas, é claro.

Com mais US$ 800, o verdadeiro dono da empresa fica invisível. No 'Livro de Registros', os sócios da consultoria aparecem como diretores da companhia. O endereço é o mesmo do escritório deles. Passam a operar sob procuração e fazem tudo o que o verdadeiro acionista mandar. Apenas o Banco Central local sabe quem é o real dono do negócio. E não revela para ninguém, protegido pela lei sagrada do sigilo bancário e fiscal local."

Vejamos, senhores deputados, mais técnicas. Num escândalo de lavagem de dinheiro, descoberto nos EUA há dois anos, anúncios ofereciam empréstimos de capital de risco a empresários em troca de "taxas de adiantamento". Vítimas em todo o mundo começaram a pagar taxas de adiantamento, que variavam de US$ 50 milhões a US$ 2,2 bilhões, para ter acesso ao capital de risco. Após pagarem as taxas, solicitava-se às vítimas a assinatura de um contrato que lhes exigia a pronta obtenção de uma carta de crédito, que variava de US$ 2 milhões a mais de US$ 20 milhões, paralela ao empréstimo. Caso as vítimas fossem incapazes de obter cartas de crédito para esses valores com tal rapidez, os golpistas diziam que elas haviam violado os termos do contrato e ficavam com suas taxas de adiantamento.

Na verdade, os criminosos haviam estabelecido o esquema sabendo que as vítimas não seriam capazes de cumprir com os termos do contrato, de forma a ludibriá-las pelas taxas de adiantamento. Para ocultar o dinheiro que haviam roubado, os golpistas criaram o Caribbean American Bank, Ltd., em Antigua e Barbuda, em 1994. Os agentes alfandegários e do FBI descobriram que o banco não era mais que uma operação de fachada, uma das 18 operações similares sob o controle do American International Bank, Ltd., em Antigua.

Os dois bancos foram fechados desde então, por relação com a fraude. Utilizando esses bancos e numerosas companhias de fachada, os golpistas puderam comprar aviões, iates, veículos, imóveis e outros ativos com a receita da fraude. Alguns dos acusados recebiam conhecidos cartões de crédito (em nome das companhias de fachada) dos bancos de Antigua, para poderem gastar o dinheiro roubado em crédito em qualquer parte do mundo.

A lavagem de dinheiro, tão pródiga hoje, ganhou o nome nos EUA, nas décadas de 20 e 30, - quando os gangsters sentiram a necessidade de esconder a procedência de seus lucros com atividades ilegais. Seus primeiros investimentos foram feitos em lavanderias, daí origem da expressão "lavagem de dinheiro". Uma atividade tão antiga, mas tão atual, vai chegando cada vez mais aos ouvidos das autoridades. Sabemos que a Receita Federal, a Polícia Federal, o Ministério Público e o Banco Central estão concluindo a primeira operação conjunta realizada no país para combater a remessa ilegal de dinheiro para o exterior. A operação deve levar 2.787 pessoas à prisão. Longe dos olhos das autoridades, elas mandaram para fora do país pelo menos R$ 1,2 bilhão de 1996 a 1998.

Caros deputados: tive acesso, há pouco mais dois meses, a informações sobre o famoso dossiê Cayman, forjado. Saibam que os autores do dossiê falsificado compraram, numa agência do Caribe, empresas que já continham as iniciais dos nomes de políticos do PSDB. As empresas eram pré-fundadas com combinações de várias letras do alfabeto. Os interessados podem comprar por seis mil dólares empresas com as iniciais que bem entendam. Hoje mesmo, excelências, qualquer brasileiro que disponha de 6 mil dólares e de muita má-fé, pode por exemplo adquirir uma empresa pré-formada, com as iniciais CJT - e aí surgiria uma empresa fantasma cuja propriedade poderia ser atribuída a este professor e jornalista - Claudio Julio Tognolli.

Mas gostaria de trazer a discussão para a mídia, caros senhores. E mostrar como os crimes de lavagem de dinheiro podem satanizar geopoliticamente este país na mídia.

Por exemplo: qualquer jornal que se julgasse importante mandou um correspondente para o Kossovo, a partir de abril do ano passado. Todos queriam ter um representante para ver de perto como Slobodan Milosevic promovia, a limpeza étnica contra 10 mil kossovares albaneses. Final do ano 2000, a maior pagina de geopolítica do mundo (www.stratfor.com ), muda a versão: obtiveram documento do todo-poderoso FBI americano mostrando que menos de 100 corpos foram encontrados nas valas. E nenhum mostrava-se vitima de limpeza étnica. Ofereço o documento ao editor de assuntos internacionais de um grande jornal brasileiro. Sua resposta: " nossa linha é a Depto. de Estado americano, isso não nos interessa.."

Revista Consultor Jurídico, 4 de agosto de 2002, 10h23

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