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Software Livre (II)

Consultor da Conectiva examina as vantagens do Linux (II)

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E o fato de você conhecer uma língua estrangeira, utilizada internacionalmente, é algo padrão há muito tempo. Há dois mil anos se utilizava o latim para isso, até o final do século XIX se utilizava o francês, e assim por diante.

ConJur - Seria quase uma aculturação, ou seja, adaptação da tecnologia à realidade brasileira?

Roxo - A tecnologia não se adapta, hoje a tecnologia é pura e simplesmente um conhecimento, o que você faz é talvez evoluir a língua. A língua é algo vivo.

O computador não existia há alguns anos atrás, então, da mesma forma que no inglês eles chamam computer (máquina de calcular), o francês chama de ordinateur (ordenador) e em português nós chamamos de computador (computare, de calcular), seguimos mais ou menos o mesmo tipo de linha que os países de língua inglesa, quer dizer, a origem latina da palavra e é uma adaptação da nossa língua, é a prova que a nossa língua está viva, ela está evoluindo, acompanhando os conceitos que acontecem hoje em dia.

Então, a gente não precisa 'pegar' a tecnologia e aculturá-la, o que temos que fazer é evoluir e acrescentar nessa "sopa" que forma a cultura nacional mais as noções e características que formam essa tecnologia de ponta, é isso que nós fazemos em português dentro das nossas universidades, dos nossos centros de pesquisa, das nossas empresas de alta tecnologia. Como por exemplo, a própria Petrobrás possui um grande centro de pesquisas.

Temos grandes empresas, grandes centros de pesquisa onde se faz tecnologia de ponta, e em português. Quer dizer, para se criar ou implementar uma tecnologia não há língua, a tecnologia é algo representável matematicamente. Então não há aculturação. O simples fato do conhecimento da tecnologia estar disponível em qualquer língua, e qualquer um que seja capaz de compreender essa língua na qual essa tecnologia está disponível, poderá trazer para o português esse conhecimento. E uma vez internalizado, a tecnologia é algo que a gente não transfere.

Se eu disser para você: 'ah, eu vou te transferir a minha tecnologia', isso é balela. Você, que é advogado, sabe que isso é um belo de um 171 (estelionato), porque um carro, eu 'puxo' a chave e entrego para você, estou te transferindo o meu carro, o carro é seu, eu não tenho mais o carro. No momento em que eu digo para você: 'eu estou te transferindo a minha tecnologia' eu não estou transferindo em verdade nada, eu estou dando a você o conhecimento dessa tecnologia, mas eu continuo mantendo essa tecnologia.

Mas no momento em que eu estou te passando o conhecimento, eu estou ganhando experiência, na realidade eu estou dando um passo à frente em relação à tecnologia que estou te passando. Então no momento em que alguém trouxe a tecnologia para o português, estaremos apenas internalizando esse conhecimento, que continua a ser desenvolvido em português mesmo.

Eventualmente temos até a necessidade de criar palavras em outras línguas para transmitir o desenvolvimento que a gente faz.

ConJur - Qual a situação da Conectiva perante Curitiba, o Paraná, o Brasil e o mundo?

Roxo - A Conectiva é a terceira maior empresa especializada no ramo no mundo. Nós temos grandes chances de nos tornar a segunda em pouco tempo. A primeira é a Red Hat, sem dúvida. E a Conectiva é líder isolada na América Latina, com um grupo de profissionais reconhecidos internacionalmente, trabalhando aqui no Brasil, em Curitiba.

Nós temos vários contatos com universidades, grupos de usuários, com centros de pesquisas, apoiamos completamente o desenvolvimento de tecnologia dentro do nosso País. Temos plena consciência de que o Brasil não fica nada a dever a ninguém no mundo sob o ponto de vista da inteligência, da competência, do conhecimento. Quem menos reconhece a capacitação do brasileiro, tristemente, é o próprio brasileiro.

A Conectiva é, sem dúvida nenhuma, a detentora de uma competência excepcional dentro do País e nós não queremos ser os únicos detentores desse conhecimento. A Conectiva não acredita na necessidade de um monopólio para poder se dizer a primeira do mundo, ou para poder dizer que é a primeira em qualquer área. É muito mais gostoso a gente ser o primeiro, a gente se sobressair em um mundo de iguais. E a Conectiva sabe que existem atualmente mais duas ou três outras distribuições comerciais disputando esse mercado.

ConJur - No Brasil? Em português?

Roxo - No Brasil. Isso é um conceito interessante, porque não existe Linux em português ou em inglês, existe o Linux. O software livre é internacionalizado, o que você faz é tirar de dentro dele as mensagens e colocar isso em uma base de dados.

No momento em que você traduziu essa base de dados, o seu programa já tem a capacidade de 'falar' qualquer outra língua. Com isso, quando surge uma correção de programa, não é uma correção para o inglês e você tem que esperar meses para fazer uma correção para o português.




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 é advogado, diretor de Internet do Instituto Brasileiro de Política e Direito da Informática (IBDI), membro suplente do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e responsável pelo site Internet Legal (http://www.internetlegal.com.br).

Revista Consultor Jurídico, 21 de dezembro de 2001, 12h39

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