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Segunda Leitura

Operação Arco de Fogo prova que dá para proteger Amazônia

por Vladimir Passos de Freitas

Os brasileiros das demais regiões pouco conhecem da Amazônia. Seus destinos turísticos costumam ser outros. Portugal, Itália e Espanha, pelas origens. Estados Unidos, pelo fascínio de Nova York ou o lazer da Disneyworld. Sabem que aquela parte do território nacional, que os peruanos chamam de selva e os norte-americanos de rain forest precisa ser preservada. Todavia, não compreendem bem o que lá fazem as ONGs, os problemas indígenas e até que ponto há risco para a soberania nacional, se o Brasil não tratar de conservá-la. Por sua vez, os amazônidas vêm revelando preocupação crescente com o assunto. A visão do progresso a qualquer preço vai cedendo lugar à busca do equilíbrio. O estado do Amazonas, antes de qualquer iniciativa da União, editou sua Lei 3.135, de 5 de junho de 2007, que institui a Política Estadual sobre Mudanças Climáticas e Desenvolvimento Sustentável. E este é apenas um exemplo.

Pois bem, neste quadro complexo por excelência, a única unanimidade é a de que a Amazônia deve ser protegida. O imenso manancial de recursos hídricos, a floresta, os minerais e a biodiversidade que alimenta remédios milagrosos, não podem ser desperdiçados. A Operação Arco de Fogo, da qual participaram a Polícia Federal, o Ibama, a Força Tarefa Nacional e, excepcionalmente, o Judiciário e o Ministério Público de Rondônia, mostrou que isto é possível. Basta querer e compreender que é melhor somar que dividir.

A operação abrange vários municípios. Vejamos o que se passou em um deles. Cujubim, a duas horas de Ariquemes, estado de Rondônia, é um nome que certamente 99% dos brasileiros jamais ouviram. Pesquisa no Google pouco ajuda. O portal não fornece qualquer tipo de informação e aponta que os dados só serão acessíveis a quem estiver cadastrado. A pecuária e o arroz alimentam sua economia. Mas, a maior riqueza local é a madeira que, explorada sem critérios, um dia acabará, deixando um rastro de pobreza.

A partir daí, a operação conjunta teve em mira algo maior. Não apenas prender os infratores da legislação ambiental, que não são poucos. Mas praticar, também, uma ação social. Educar e reprimir, binômio indispensável para o sucesso. Na parte repressiva, os dados impressionam. Foram apreendidos nada menos do que dois quarteirões de madeira serrada e em tora, extraída irregularmente. Multas foram aplicadas, no valor aproximado de R$ 5 milhões, foram abertos Inquéritos Policiais e Termos Circunstanciados. Ações Civis Públicas foram propostas. E aqui o diferencial: A juíza e o promotor de Ariquemes deixaram a sede da comarca e foram a Cojubim, onde colheram a prova imediatamente, possibilitando a tão almejada efetividade da Justiça.

A presença da juíza e do promotor, no dia 14 de junho, não se limitou à esfera ambiental, com 14 audiências de natureza penal e cerca de 50 em ações civis públicas. Foi além. A oportunidade foi aproveitada para a realização de audiências em causas cíveis, nove de divórcio, 13 de alimentos e seis de reconhecimento de paternidade, entre outras (vide www.dep.gov.br/DCS).

Até aí a união de forças e os bons resultados já mereceriam comemoração. Mas a operação foi além. O material apreendido (havia toras escondidas até debaixo da terra) será em parte leiloado, revertendo o dinheiro para o Fundo Municipal do Meio Ambiente, e em parte doado ao município para a construção de cerca de 6 mil moradias populares. E junto ao município vêm sendo feitas gestões para que sejam dadas aulas de educação ambiental no ensino básico.

A Operação Arco de Fogo é a prova de que é possível proteger a Amazônia, dentro da lei. Basta querer. E também contar com pessoas dedicadas como a juíza de Direito Duília Sgrott Reis, o delegado federal Caio Porto Ferreira e outros tantos que não se limitaram a cumprir o dever, foram além, dedicando todos os seus esforços para alcançar a proteção do meio ambiente e a promoção social dos que apostaram suas vidas naquele pedaço do Brasil.

Revista Consultor Jurídico, 29 de junho de 2008

Sobre o autor

Vladimir Passos de Freitas: é desembargador aposentado do Tribunal Regional Federal da 4ª Região e professor de Direito Ambiental da PUC/PR.

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Total: 2Comentários

joão gualberto (Advogado Autárquico - - ) 30/08/2008 - 17:25

Oportuno e pertinente o comentário do Dr. Wladimir Passos de Freitas ponderando que é possível fazer cumprir a lei ambiental. Mas é preciso que não se restrinja a casos isolados ou às chamadas blitz governamentais para arredar um pouco a ânsia predatória contra a Natureza. O drama das leis ambientais e florestais é a contumaz falta de cumprimento. Baixam-se as leis e não são dadas as estruturas necessárias para fazê-las efetivas nem são cobradas das autoridades públicas sua responsabilidade, deste modo formando-se um círculo vicioso de faz-de-conta de que a lei existe e as autoridades a fazem cumprir. É preciso também que se pavimente a via das licenças e/ou autorizações ambientais e florestais através de procedimentos claros, factíveis, essenciais, proporcionais ao porte dos empreendimentos, aprazados e descentralizados de modo que todo o esforço de proteção da Natureza não se reduza à indigesta atividade de fiscalização e punição (muitas vezes formais), que nunca irão contribuir fundamentalmente para reverter a cultura do uso predatório e irresponsável da Natureza. Há também de se respeitar a diversidade do Brasil, país continental, com vários ecossistemas e sub-sistemas, que necessitam normatização especial quanto ao uso e preservação da Natureza. O que é bom para o Amapá, pode não ser para Minas Gerais ou Rio Grande do Sul. O exemplo das áreas de preservação permanente e de reserva legal florestal são o exemplo contundente disso, levando o Código Florestal a ser talvez a lei mais vilipendiada do nosso ordenamento legal-ambiental nestes aspectos. Mas, quiçá, ainda possamos crer que seja possível.

eduardo hammer (Consultor - - ) 30/06/2008 - 11:47

A operação em questão é certamente importante porem o primordial seria manter a pressão em cima desse absurdo a céu aberto que se pratica na esquecida região norte do Pais. Alias , errei , não é tão esquecida não pois diversas nações e ONG's 171 da vida estão silenciosamente tomando espaço naquela região em que se queima mato a vontade , extrai-se madeira em escala industrial e o des-governo federal "finge" que esta preocupadissimo com o assunto. Hoje em dia com os sistemas de monitoramento via satelite e com mais as aeronaves de inteligencia eletronica da FAB , da pra saber a hora que um matuto acende um inocente cigarro no meio da floresta. Essas queimadas so não acabam pois são protegidas pelos politicos safados da região que dão cobertura a esse tipo de crime ecologico hediondo. Se o des-governo quisesse realmente fazer algo a respeito, bastaria decretar ( e nisso eles são muito bons) a EXPROPRIAÇÃO automatica das terras em que fosse constatada a queimada ou a derrubada irregulares , pronto! Obvio que agora teremos que engolir os defensores da propriedade individual porem sem as consequencias e obrigações que vem a reboque , mas faz parte do jogo. O problema é gravissimo e não é com medidas conta-gotas que vai ser resolvido. O mais grave é que este absurdo literalmente a ceu aberto , esta servindo de munição pesada para os que tem interesses alienigenas em se instalar na Amazonia, o pior de tudo , devidamente protegidos por acordos obscuros que a petralhada sai assinando mundo a fora. Pobre Brasil , saueado todo o tempo com a anuencia calhorda dos des-governantes de plantão.

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