Notícias > Criminal

aaaHomeImprimirEnviarComentar

PróximoPáginas 1 2

Operação Navalha

MPF denuncia 61 pessoas por fraudes em licitações

por Maria Fernanda Erdelyi

Depois de doze meses, o Ministério Público Federal denunciou na segunda-feira (12/5) o ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau, o governador do Maranhão Jackson Lago (PDT), o de Alagoas Teotônio Vilela (PSDB) e outras 58 pessoas acusadas de fraudes em licitações públicas. A ministra Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça, já começou a analisar o caso. A denúncia é resultado da Operação Navalha, deflagrada em maio do ano passado.

Os governadores são acusados de formação de quadrilha, peculato e corrupção passiva. Sobre o ex-ministro recai a acusação de formação de quadrilha, gestão fraudulenta e corrupção passiva. A ministra relatora do caso costuma trabalhar rápido e dobrar esforços no gabinete quando o assunto é suspeita de corrupção e desvio de dinheiro público. Coube a ela assinar em 2007 os decretos de prisão de 48 pessoas acusadas de participar de fraudes — decretos que foram revogados pelo Supremo Tribunal federal algum tempo depois.

Foi Eliana Calmon também quem tomou depoimentos de acusados na fase de inquérito do caso. Na ocasião, levantou-se a possibilidade de a ministra ter de se declarar impedida para relatar eventual processo, já que atuou na fase de inquérito. Para a ministra, contudo, o que fez está dentro de suas atribuições. Ela deve priorizar a análise da denúncia em relação a outros processos de seu gabinete.

A denúncia, oferecida pelas subprocuradoras-gerais da República Lindora Maria Araújo e Célia Regina Souza Delgado um ano depois da operação da Polícia Federal, narra esquemas de desvio de recursos públicos nos estados de Alagoas, Maranhão, Piauí e Sergipe que teriam sido protagonizados pelo sócio-diretor da empresa Gautama, Zuleido Veras, acusado de peculato, corrupção ativa e fraude em licitações. Segundo as subprocuradoras, nos ministérios, verbas da União eram direcionadas para obras nos estados e nos municípios nos quais atuava a Gautama.

Ainda de acordo com o MP, empregados da Gautama, empresários, servidores públicos e agentes políticos participavam das transações que englobavam todo o processo de destinação e aplicação dos recursos, passando por fraudes nos processos de licitação e o desvio de “vultosos valores” por obras não executadas ou executadas irregularmente.

Em documento de 130 páginas, Lindora e Célia Regina falam em “sofisticado grupo criminoso” comandado por Zuleido Veras para direcionar recursos públicos, federais e estaduais para obras da Gautama, garantir processos de licitação e a liberação de pagamentos de obras superfaturadas, mesmo inexistentes ou executadas irregularmente.

Com a denúncia em mãos, a ministra Eliana Calmon deve estudar o caso e os acusados devem apresentar defesa prévia. Quando formar convicção sobre aceitar ou não a denúncia, a ministra levará seu voto para análise da Corte Especial do tribunal, formada pelos 22 ministros mais antigos, com reuniões quinzenais. Eliana Calmon costuma ser rigorosa na análise de processos de desvio de dinheiro público.

Em 2006, ela foi relatora do inquérito que investigou acusados de desvio de recursos públicos, corrupção, prevaricação, concussão, peculato, extorsão, lavagem de dinheiro e venda de sentenças judiciais em Rondônia. Na ocasião, Eliana Calmon determinou a prisão do ex-presidente do Tribunal de Justiça de Rondônia, Sebastião Teixeira Chaves.

A ministra decretou, em decisão monocrática, a prisão de autoridades, inaugurando o instrumento dentro da competência originária do STJ. Como se tratava de acusação de crime organizado, ela entendeu as prisões como necessárias para desarticular o esquema, que, segundo as acusações, envolvia, além do TJ, a Assembléia Legislativa, o Tribunal de Contas e o Ministério Público do estado. Segundo a Polícia Federal, o grupo desviou, desde 2004, cerca de R$ 70 milhões dos cofres públicos por meio do pagamento de serviços, compras e obras superfaturadas.

Texto alterado às 10h, de 14 de maio, para acréscimo de informações

Leia o resumo da denúncia da Operação Navalha

EXCELENTÍSSIMA SENHORA MINISTRA RELATORA ELIANA CALMON – CORTE ESPECIAL DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA.

INQUÉRITO nº 544

O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, pelas Subprocuradoras-Gerais da República signatárias, na forma da delegação que lhes foi conferida pela Portaria nº 223, DE 17/05/2007, do Procurador Geral da República, vêm, com fundamento no artigo 129, inciso I, da Constituição Federal e artigo 6º, inciso V, da Lei Complementar nº 75/93, oferecer DENÚNCIA contra

1) ZULEIDO SOARES DE VERAS, brasileiro, casado, empresário, residente em Lauro de Freitas, Bahia;

2) MARIA DE FÁTIMA CESAR PALMEIRA, brasileira, empresária, residente em Brasília, DF;

3) TEREZA FREIRE LIMA, brasileira, secretária, residente em Brasília, DF;

4) GIL JACÓ CARVALHO SANTOS, brasileiro, empregado da GAUTAMA, residente em Salvador, Bahia;

5) FLORÊNCIO BRITO VIEIRA, brasileiro, funcionário da GAUTAMA, residente em Salvador, Bahia;

6) HUMBERTO RIOS DE OLIVEIRA, brasileiro, empregado da GAUTAMA, residente em Salvador, Bahia

7) VICENTE VASCONCELOS CONI, brasileiro, empregado da GAUTAMA, residente em São Luís, Maranhão;

8) ABELARDO SAMPAIO LOPES FILHO, brasileiro, casado, engenheiro, residente em Maceió, Alagoas;

9) BOLIVAR RIBEIRO SABACK, brasileiro, empregado da GAUTAMA, residente em Salvador, Bahia;

10) ROSEVALDO PEREIRA DE MELO, brasileiro, empregado da GAUTAMA, residente em Maceió, Alagoas;

11) DIMAS SOARES DE VERAS, brasileiro, casado, natural de Cacimba de Areia/PB, residente em Patos/PB;

12) JOÃO MANOEL SOARES BARROS, brasileiro, empregado da GAUTAMA, residente em São Luís, Maranhão;

13) RICARDO MAGALHÃES DA SILVA, brasileiro, casado, engenheiro civil, residente em Salvador, Bahia;

14) GERALDO MAGELA FERNANDES DA ROCHA, brasileiro, divorciado, administrador de empresas, residente em Brasília, DF;

15) ROBERTO FIGUEIREDO GUIMARÃES, brasileiro, casado, economista, residente em Brasília, DF;

16) ERNANI SOARES GOMES FILHO, brasileiro, casado, servidor público federal, residente em Brasília, DF;

17) SÉRGIO LUÍS POMPEU SÁ, brasileiro, casado, empresário, residente em Brasília, DF;

18) JOSÉ REYNALDO TAVARES, brasileiro, residente em Brasília, DF;

19) JACKSON KEPLER LAGO, brasileiro, casado, Governador do Estado do Maranhão, residente em São Luís, Maranhão;

20) NEY DE BARROS BELLO, brasileiro, servidor público, residente em São Luís, Maranhão;

21) ABDELAZIZ ABOUD SANTOS, brasileiro, residente em São Luís/MA;

22) RICARDO WAGNER DE CARVALHO LAGO, brasileiro, residente em São Luís/MA;

23) ALEXANDRE MAIA LAGO, brasileiro, residente em São Luís, Maranhão;

24) FRANCISCO DE PAULA LIMA JÚNIOR (PAULO LAGO), brasileiro, residente em Brasília, DF;

25) SEBASTIÃO JOSÉ PINHEIRO FRANCO, brasileiro, servidor público, residente em São Luís, Maranhão;

26) JOSÉ DE RIBAMAR RIBEIRO HORTEGAL, brasileiro, residente em São Luís, Maranhão;

27) ULISSES CESAR MARTINS DE SOUSA, brasileiro, residente em São Luís, Maranhão;

28) JOSÉ AURELIANO DE LIMA FILHO, brasileiro, residente em São Luís/MA;

29) JOSÉ RIBAMAR SANTANA, brasileiro, residente em São Luís/MA;

30) JOSÉ ELISEU CARVALHO PASSOS, brasileiro, residente em São Luís/MA;

31) OTÁVIO JÚLIO ROSAS COSTA FILHO, brasileiro, residente em São Luís/MA;

32) TEOTONIO BRANDÃO VILELA FILHO, brasileiro, residente em Maceió/AL;

33) JOÃO FERRO NOVAES NETO, brasileiro, residente em Maceió/AL;

34) EDUARDO HENRIQUE ARAÚJO FERREIRA, brasileiro, residente em Maceió/AL;

35) DENISSON DE LUNA TENÓRIO, brasileiro, servidor público, residente em Maceió, Alagoas;

36) MARCIO FIDELSON MENEZES GOMES, brasileiro, residente em Maceió, Alagoas;

37) ADEILSON TEIXEIRA BEZERRA, brasileiro, servidor público, residente em Maceió, Alagoas;

38) JOSÉ VIEIRA CRISPIM, brasileiro, servidor público, residente em Maceió, Alagoas;

39) ENEAS DE ALENCASTRO NETO, brasileiro, residente em Brasília, DF;

40) FLÁVIO CONCEIÇÃO DE OLIVEIRA NETO, brasileiro, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe, residente em Aracaju, Sergipe;

41) JOÃO ALVES FILHO, brasileiro, residente em Aracaju/SE;

42) JOÃO ALVES NETO, brasileiro, casado, administrador de empresas, residente em Aracaju, Sergipe;

43) JOSÉ IVAN DE CARVALHO PAIXÃO, brasileiro, casado, médico cirurgião, residente em Aracaju, Sergipe;

44) MAX JOSÉ VASCONCELOS DE ANDRADE, brasileiro, residente em Aracaju/SE;

45) GILMAR DE MELO MENDES, brasileiro, residente em Aracaju/SE;

46) VICTOR FONSECA MANDARINO, brasileiro, residente em Itaporanga D´Ajuda/SE;

47) ROBERTO LEITE, brasileiro, residente em Aracaju/SE;

48) KLEBER CURVELO FONTES, brasileiro, residente em Aracaju/SE;

49) SERGIO DUARTE LEITE, brasileiro, residente em Aracaju/SE;

50) RENATO CONDE GARCIA, brasileiro, residente em Aracaju/SE;

51) SILAS RONDEAU CAVALCANTE SILVA, brasileiro, casado, engenheiro, residente em Brasília, DF;

52) JORGE TARGA JUNI, brasileiro, Presidente da Companhia Energética do Piauí S.A – CEPISA, residente em Teresina, Piauí;

53) WALTER LUÍS CARDEAL DE SOUZA, brasileiro, residente em Porto Alegre/RS;

54) IVO ALMEIDA COSTA, brasileiro, servidor público, residente em Brasília, DF;

55) ALOÍSIO MARCOS VASCONCELOS NOVAES, brasileiro, residente em Belo Horizonte/MG;

56) JOSÉ RIBAMAR LOBATO SANTANA, brasileiro, residente em São Luís/MA;

57) JOSÉ DRUMOND SARAIVA, brasileiro, residente em Rio de Janeiro/RJ;

58) JOSÉ RICARDO PINHEIRO DE ABREU, brasileiro, residente em Brasilia/DF;

59) GREGÓRIO ADILSON PARANAGUÁ DA PAZ, brasileiro, residente em Teresina/PI;

60) EMANOEL AUGUSTO PAULO SOARES, brasileiro, residente em Teresina/PI;

61) ROBERTO CESAR FONTENELLE NASCIMENTO, brasileiro, residente em Teresina/PI.

INTRODUÇÃO

Investigações iniciadas no Estado da Bahia conduziram à descoberta de grupo organizado voltado para a obtenção ilícita de lucros através da contratação e execução de obras públicas, praticando, para tanto, diversos crimes autônomos, como fraudes a licitações, peculato, corrupção ativa e passiva, crimes contra o sistema financeiro nacional, dentre outros delitos.

Durante o curso das investigações foi autorizada a interceptação telefônica dos envolvidos, tendo-se revelado esquemas ilícitos de desvios de recursos públicos, nos Estados de Alagoas, Maranhão, Piauí e Sergipe, protagonizados pelo sócio-diretor da empresa GAUTAMA, ZULEIDO SOARES DE VERAS, e por seus empregados, com o envolvimento de empresários, servidores públicos e agentes políticos, esquemas que se iniciavam nos Ministérios, onde era obtido, mediante o oferecimento de vantagem indevida, o direcionamento de verbas da União para obras nos Estados e nos Municípios nos quais a Construtora GAUTAMA atuava, e que englobava todo o processo de destinação e aplicação dos recursos, desde a apresentação e aprovação dos projetos pelos entes políticos - que eram elaborados pelo grupo criminoso -, passando pelas fraudes nos processos de licitação e o desvio de vultosos valores por obras não executadas ou executadas irregularmente.

As atividades delituosas se desenvolveram concomitantemente nos vários Estados em que a GAUTAMA executava obras públicas, locais onde mantinha escritórios, chefiados por um funcionário da empresa, com agentes especialmente dedicados às atividades ilícitas ali desenvolvidas.

Em diversas situações constatou-se que o grupo, em um primeiro momento, identificava nos Ministérios a existência de recursos destinados a obras públicas nos Estados e Municípios. Em seguida, cooptava agentes políticos e servidores públicos para viabilizar a realização dos convênios entre os Ministérios e os entes federativos, participando, inclusive, da elaboração dos projetos técnicos e estudos exigidos para a sua celebração.

Posteriormente, o grupo criminoso passava a atuar na fase da licitação, para que a GAUTAMA fosse vencedora no procedimento, seja isoladamente ou em consórcio com outras construtoras. Pelo que se viu dos diálogos interceptados, essa fase era a mais complexa de todo o processo. Compreendia: a celebração de acordos para “acomodar” os interesses de eventuais concorrentes; a cooptação dos servidores públicos que conduziam as licitações, para que não criassem embaraços ao fato dos processos serem conduzidos pela GAUTAMA; e, mais do que isto, aceitassem agir de modo determinado para que a obra fosse adjudicada a própria GAUTAMA.

Superada a fase da licitação, com o início da execução das obras, iniciava-se a fase mais proveitosa, quando efetivamente alcançavam os fins ilícitos a que se propunham, que eram o desvio e a apropriação dos recursos públicos. Nesta etapa eram apresentadas as medições periódicas, todas fraudadas, que eram aprovadas e os valores respectivos pagos, mediante a corrupção dos servidores públicos incumbidos de examinar os processos, atividade que incluía a emissão de pareceres técnicos que analisava a compatibilidade entre as medições apresentadas e as obras efetivamente executadas, a aprovação das medições e a autorização dos pagamentos.

Recebidos os pagamentos, o grupo se incumbia de distribuir as propinas devidas, nos percentuais previamente ajustados com os servidores públicos e agentes políticos envolvidos.

A presente ação refere-se à descrição dos fatos e condutas relacionadas ao esquema que envolve especificamente a empresa GAUTAMA e os servidores públicos e agentes políticos, nas obras identificadas nos autos, em diversos Estados da Federação.

DA QUADRILHA

A análise das condutas dos investigados demonstra a existência de um sofisticado grupo criminoso, comandado pelo denunciado ZULEIDO SOARES VERAS e integrado por empregados da construtora GAUTAMA e por lobistas, que se aliaram de forma permanente e estável para a perpetração da prática delituosa: o direcionamento de recursos públicos, federais e estaduais, para obras a serem executadas pela Construtora GAUTAMA; o vencimento de processos de licitação; e a liberação de pagamentos de obras superfaturadas, executadas irregularmente, ou mesmo inexistentes, mediante a corrupção de servidores públicos e agentes políticos.

O conjunto probatório produzido no âmbito do presente inquérito aponta que o grupo liderado por ZULEIDO VERAS constituía o núcleo central de toda a atividade delituosa, que se estruturou profissionalmente para a prática de crimes como peculato, fraude à licitação e corrupção ativa .

Identificou-se, também, que nos Estados em que a GAUTAMA tinha interesse em executar obras públicas formaram-se outras quadrilhas, integradas por servidores públicos e agentes políticos, que se organizaram de forma estável e permanente para atender aos propósitos ilícitos do grupo comandado por ZULEIDO, condutas estas que serão descritas quando da narração dos eventos.

Apurou-se que a quadrilha liderada por ZULEIDO VERAS era composta por funcionários da GAUTAMA que atuavam nos diversos Estados em que o grupo exercia as suas atividades, mantendo com ele relação direta de subordinação, acatando as suas ordens e determinações, conscientes do caráter ilícito das suas condutas: MARIA DE FÁTIMA CÉSAR PALMEIRA, TEREZA FREIRE LIMA, GIL JACÓ CARVALHO SANTOS, FLORÊNCIO BRITO VIEIRA, HUMBERTO RIOS DE OLIVEIRA, VICENTE VASCONCELOS CONI, ABELARDO SAMPAIO LOPES FILHO, BOLIVAR RIBEIRO SABACK, ROSEVALDO PEREIRA MELO, DIMAS SOARES DE VERAS, RICARDO MAGALHÃES DA SILVA e JOÃO MANOEL SOARES BARROS; e por intermediários que se valiam da influência que possuíam para articular com os servidores públicos e os agentes políticos a prática dos atos necessários para que a organização criminosa alcançasse os seus objetivos ilícitos: GERALDO MAGELA FERNANDES DA ROCHA, ROBERTO FIGUEIREDO GUIMARÃES, ERNANI SOARES GOMES FILHO e SÉRGIO LUÍS POMPEU SÁ, cumprindo identificar a seguir o papel de cada um deles na estrutura criminosa ora denunciada.

DOS INTEGRANTES DA QUADRILHA LIDERADA POR ZULEIDO

1) ZULEIDO SOARES VERAS, sócio-diretor da Construtora GAUTAMA, era o líder do grupo criminoso. Estabelecia as diretrizes de atuação da quadrilha, coordenava e controlava as ações dos demais agentes, funcionários da empresa e intermediários. Dirigia todo o esquema delituoso, articulando todos os episódios descritos nesta peça acusatória.

2) MARIA DE FÁTIMA PALMEIRA, Diretora Comercial da empresa GAUTAMA, era o braço direito de ZULEIDO, ocupando posição de destaque na estrutura da quadrilha. Ao lado de ZULEIDO, interagia com todos os demais agentes, decidindo as ações a serem implementadas para viabilizar todo o processo de direcionamento de obras públicas à GAUTAMA, desde a celebração dos convênios até a fase final de pagamento dos valores indevidos.

Antes de ser contratada pela GAUTAMA, foi servidora da Secretaria de Infra-Estrutura do Estado de Alagoas, tendo proporcionado ao grupo criminoso fácil acesso à estrutura administrativa do referido órgão. Intermediou, ainda, o pagamento de vantagens indevidas aos servidores públicos e agentes políticos.

3) TEREZA FREIRE LIMA, secretária da empresa GAUTAMA em Brasília, era um dos elos de ligação de ZULEIDO com os demais membros da quadrilha e com os servidores públicos envolvidos nos esquemas delituosos, repassando as suas orientações, ciente da ilicitude das condutas praticadas. Além disso, encarregou-se de efetuar entregas de dinheiros para pagamentos de propinas.

4) GIL JACÓ DE CARVALHO SANTOS, Diretor Financeiro da GAUTAMA, providenciava dinheiro para o pagamento das propinas solicitadas ou oferecidas aos servidores públicos e aos agentes políticos. Esse dinheiro era retirado das contas da própria GAUTAMA na Caixa Econômica Federal e no Banco do Brasil ou nas contas das outras empresas de ZULEIDO. Em todas as situações nas quais houve o pagamento de vantagem indevida, os integrantes da quadrilha mantinham contatos com GIL JACÓ, que arranjava o dinheiro e remetia para os locais onde seriam feitos os pagamentos. No esquema criminoso, o seu papel ainda consistia na administração dos lucros da prática ilícita.

5) FLORÊNCIO BRITO VIEIRA, empregado da Construtora GAUTAMA, atuava sempre ao lado de GIL JACÓ CARVALHO SANTOS, efetuando os saques em dinheiro para o pagamento das propinas e transportando o numerário para as localidades onde seriam consumados os pagamentos. Quando estava impossibilitado de viajar ou se fazia necessário o transporte de propinas para mais de um estado, dividia a tarefa com HUMBERTO RIOS DE OLIVEIRA

6) HUMBERTO RIOS DE OLIVEIRA, empregado do setor financeiro da GAUTAMA, auxiliava GIL JACÓ e dividia com FLORÊNCIO a tarefa de sacar o dinheiro para o pagamento das propinas e transportá-lo até os locais onde seriam entregues aos beneficiários.

7) VICENTE VASCONCELOS CONI, funcionário da GAUTAMA no Estado do Maranhão, participou de quase todos os episódios delitivos ocorridos naquela unidade federativa. Intermediou, por diversas vezes, o pagamento de vantagens indevidas a servidores públicos para obter a aprovação de medições relativas a obras executadas irregularmente ou não executadas pela Construtora. Manteve encontros e reuniões constantes com servidores das Secretarias de Infra-Estrutura e de Planejamento para obter a aprovação das medições irregulares.

8) GERALDO MAGELA FERNANDES DA ROCHA foi servidor público do Estado do Maranhão, exercendo o cargo de assessor do então Governador JOSE REINALDO TAVARES. Teve intensa atuação em defesa dos interesses escusos da quadrilha durante o período de assessoria do ex-Governador. No curso das investigações, foram captados dezenas de diálogos entre GERALDO MAGELA e ZULEIDO VERAS, FÁTIMA PALMEIRA e VICENTE CONI, sempre combinando modos de ação para viabilizar as pretensões ilícitas do grupo criminoso.

Valendo-se das facilidades que o seu cargo proporcionava, de acesso a autoridades do Estado e a servidores das Secretarias de Infra-Estrutura e de Planejamento, patrocinou os interesses do grupo, ora relativos à aprovação das medições das obras de construção das pontes, ora referentes à celebração de convênio entre o Estado e o Ministério dos Transportes, recebendo, em contrapartida, valores em dinheiro. Intermediou, também, reuniões entre ZULEIDO e o então Governador JOSÉ REINALDO para tratar não apenas das medições, cuja aprovação, em virtude das graves irregularidades apresentadas, exigiam uma intervenção direta do primeiro mandatário para determinar aos seus subordinados a realização dos pagamentos, mas, também, das questões pertinentes às obras de pavimentação da BR 402, cujo convênio com o Governo Federal interessava particularmente ao grupo.

Além disso, intermediou o pagamento de vantagens ao ex-Governador, inclusive mediante a emissão de notas frias da sua empresa POOL COMUNICAÇÕES.

Após deixar o cargo que exercia no Governo do Estado, GERALDO MAGELA passou a integrar a quadrilha de ZULEIDO. Aproveitando-se de sua influência, atuou perante os órgãos da administração do Estado, notadamente nas Secretaria de Infra-Estrutura e de Planejamento, tendo, inclusive, promovido a aproximação entre o grupo criminoso e o Governador JACKSON LAGO, através do seu irmão RICARDO LAGO.

9) ROBERTO FIGUEIREDO GUIMARÃES foi contratado, sem licitação, como prestador de serviços ao Estado do Maranhão, tendo exercido papel semelhante ao de GERALDO MAGELA, cabendo-lhe, na verdade, defender os interesses financeiros do grupo nos diversos escalões da administração pública, mesmo após o seu desligamento do Governo do Estado.

No governo de JACKSON LAGO participou de reunião em Brasília, no HOTEL KUBITSCHEK PLAZA, entre VICENTE CONI e ABDELAZIZ ABOUD SANTOS, Secretário de Planejamento do Estado do Maranhão, para tratar dos interesses da quadrilha. Apesar de já designado para exercer o cargo de Presidente do BRB – Banco de Brasília, não se afastou do grupo criminoso, continuando a patrocinar os seus interesses.

10) ABELARDO SAMPAIO LOPES FILHO, engenheiro e funcionário da GAUTAMA em Alagoas, era a pessoa responsável pela apresentação de medições irregulares à Secretaria de Infra-estrutura daquele Estado, agindo intensamente para obter a aprovação das medições e o pagamento dos valores indevidos. Comunicava-se freqüentemente com ZULEIDO VERAS e com FÁTIMA PALMEIRA, discutindo estratégias para viabilizar os propósitos delituosos do grupo.

11) BOLIVAR RIBEIRO SABACK, diretor operacional da GAUTAMA, representava os interesses da organização perante o Governo do Estado de Alagoas, articulando o pagamento de medições apresentadas pela construtora referentes a obras que não foram executadas.

12) ROSEVALDO PEREIRA DE MELO, empregado da GAUTAMA no Estado de Alagoas, negociava a liberação de recursos públicos para a organização criminosa, sempre em pagamento das medições irregulares.

Antes de trabalhar para a GAUTAMA, foi servidor do Estado de Alagoas, lotado na Companhia de Água e Saneamento do Estado, órgão vinculado à Secretaria de Infra-estrutura. Valeu-se, por diversas vezes, da sua influência junto aos servidores da referida Secretaria, notadamente de suas relações de amizade com o Secretário MÁRCIO FIDELSON, para obter a aprovação das medições, oferecendo, como compensação, vantagens indevidas.

13) RICARDO MAGALHÃES DA SILVA, engenheiro civil, representante da GAUTAMA no Estado de Sergipe, era o responsável pelo acompanhamento das obras executadas naquele Estado e pelos processos das medições. Teve destacada atuação nos fatos ilícitos ali ocorridos, mantendo contatos pessoais com os agentes públicos incumbidos da aprovação das medições irregulares apresentadas à Secretaria de Infra-Estrutura do Estado, intercedendo para que fossem efetuados os pagamentos respectivos. Participou, também, das tratativas nos episódios designados por “Evento Maranhão” e “Evento Luz para Todos”.

14) ERNANI SOARES GOMES FILHO, é servidor do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, à disposição da Câmara dos Deputados, exercendo atualmente as suas funções no gabinete do Deputado Federal Márcio Reinaldo, do Estado de Minas Gerais. A sua função era a de obter, no âmbito do Ministério, a liberação de orçamento para as obras de interesse da GAUTAMA. Em razão do cargo que exercia, ERNANI era peça-chave no esquema criminoso, propiciando ao grupo acesso a dados e informações que possibilitaram situação de vantagem na disputa pela destinação de recursos aos Estados e Municípios onde a GAUTAMA executava suas obras. Segundo consta do seu próprio depoimento, era sempre procurado por ZULEIDO VERAS e mantinha contatos freqüentes com FÁTIMA, prestando assessoria nos procedimentos de obtenção e liberação de recursos para obras de interesse da Construtora.

15) JOÃO MANOEL SOARES BARROS, empregado da GAUTAMA no Estado do Piauí, atuava sob as ordens diretas de ZULEIDO VERAS e de FÁTIMA PALMEIRA, tendo se destacado em razão dos atos que praticou para fraudar o processo de licitação que permitiu à GAUTAMA adjudicar as obras de construção de redes de distribuição de energia elétrica em áreas rurais do Estado do Piauí, contempladas pelo Programa “Luz para todos”, do Governo Federal. Participou, também, das negociações no episódio designado por “Evento Maranhão.”

16) DIMAS SOARES DE VERAS, irmão de ZULEIDO e empregado da GAUTAMA, gerenciava as obras do “Programa Luz para todos” no Estado do Piauí. Mantinha freqüentes contatos com o Presidente da CEPISA JORGE TARGA, articulando os interesses da quadrilha. Providenciou a entrega de propina a JORGE TARGA e elaborou medição fraudulenta.

17) SÉRGIO LUÍS POMPEU SÁ, lobista e empresário, sócio da PROSPER ASSESSORIA E CONSULTORIA LTDA, presta serviços à ENGEVIX. As suas relações com ZULEIDO remontam a 1998, quando ainda morava em Salvador e trabalhava para a Construtora Fernandez.

Segundo apurou-se, o denunciado SÉRGIO SÁ promoveu a aproximação de ZULEIDO com o então Ministro de Minas e Energia SILAS RONDEAU e com o seu assessor IVO DE ALMEIDA COSTA. Foi também SÉRGIO SÁ, na condição de integrante da organização criminosa, quem aproximou ZULEIDO VERAS do denunciado JORGE TARGA JUNI, Presidente da CEPISA.

Teve papel significativo nos fatos identificados como “Evento Luz para Todos”, articulando junto a diversos órgãos públicos para dirigir à GAUTAMA as obras de construção das redes que levariam luz elétrica a área rural do Estado do Piauí, além de atuação destacada no Ministério de Minas e Energia, mais especificamente com o então Ministro SILAS RONDEAU, para viabilizar os termos aditivos aos contratos firmados entre a ELETROBRÁS, CEPISA e GAUTAMA. Para alcançar esses objetivos, intermediou encontros entre ZULEIDO e MARIA DE FÁTIMA com SILAS RONDEAU e IVO DE ALMEIDA, inclusive para o pagamento de vantagem indevida ao ex-Ministro.

Assim procedendo, de modo livre e consciente, ZULEIDO SOARES DE VERAS, MARIA DE FÁTIMA CÉSAR PALMEIRA, TEREZA FREIRE LIMA, GIL JACÓ CARVALHO SANTOS, FLORENCIO BRITO VIEIRA, HUMBERTO RIOS DE OLIVEIRA, VICENTE VASCONCELOS CONI, ABELARDO SAMPAIO LOPES FILHO, BOLIVAR RIBEIRO SABACK, ROSEVALDO PEREIRA MELO, DIMAS SOARES DE VERAS, RICARDO MAGALHÃES DA SILVA, JOÃO MANOEL SOARES BARROS, GERALDO MAGELA FERNANDES DA ROCHA, ROBERTO FIGUEIREDO GUIMARÃES, ERNANI SOARES GOMES FILHO e SÉRGIO Luís POMPEU SÁ estão incursos nas penas do artigo 288 do Código Penal.

DOS EVENTOS

A seguir serão relatadas as atuações das quadrilhas nas diversas situações identificadas, descritas como eventos específicos, de acordo com as obras irregularmente executadas em cada Estado.

Excetuando-se as situações em que a quadrilha de ZULEIDO atuava diretamente nos Ministérios para obter o repasse de recursos públicos para Estados e Municípios onde as obras a serem executadas já estavam previamente direcionadas para a GAUTAMA, o modo de agir do grupo nos vários eventos foi bem semelhante. Na maioria deles foram flagrados os integrantes da organização criminosa negociando, mediante o pagamento de propinas, o direcionamento das licitações, o superfaturamento das obras, a aprovação e o pagamento das medições irregulares, por obras não executadas ou executadas fora dos padrões previstos.

Revista Consultor Jurídico, 13 de maio de 2008

Sobre o autor

Maria Fernanda Erdelyi: é correspondente da Revista Consultor Jurídico em Brasília.

PróximoPáginas 1 2

aaaHomeImprimirEnviarComentar

Topo Home

Leia também
STJ libera R$ 1 milhão para Gautama pagar dívidas trabalhistas
STF estende HC a todos os envolvidos na Operação Navalha
Oi Fixo confirma grampo no telefone do ministro Marco Aurélio
Indícios não justificam pedido de prisão preventiva
Gautama permanece impedida de participar de licitações públicas Texto com íntegra
Presos por fraude em licitações na Bahia conseguem liberdade
Réu tem direito de se defender mesmo na fase de inquérito Texto com íntegra
Restrição à PF é coerente com a existência do foro privilegiado
Ex-assessor de Silas Rondeau tenta provar inocência no STF
Justiça de Sergipe proíbe Gautama de participar de licitações
Gautama é proibida de participar de licitações públicas
Delegado suspeito de vazar dados na Navalha continua afastado
Irmão de Lula é mais lembrado que Operação Navalha
MPF quer proibir Gautama de participar de licitações públicas
Grupo investigado por fraudes será denunciado ao STJ
Navalha: STJ suspende julgamento de delegados da PF afastados
STJ desbloqueia contas de envolvidos na Operação Navalha
Leia os votos que libertaram funcionários da Gautama Texto com íntegra
Supremo dá liberdade ao empresário Zuleido Veras, da Gautama Texto com íntegra
Gilmar Mendes adia decisão sobre liberdade de Zuleido Veras
Leia o voto que libertou engenheiro preso na Operação Navalha
Irmão do dono da Gautama é libertado após depoimento no STJ
Pedido de prisão de ex-procurador se baseou em erro da PF Texto com íntegra
Carlos Velloso repudia intimidação da PF a Gilmar Mendes
Juiz acusa PF de vazar informações na Operação Navalha Texto com íntegra
Tarso Genro diz que não sabia de operação antecipadamente
Advogados e entidades apóiam ministro Gilmar Mendes
Ministro Gilmar Mendes tocou na ferida não cicatrizada

Total: 7Comentários

olhovivo (Outros - - ) 14/05/2008 - 08:11

Caro Parquet, volto a perguntar: desde quando elaborar denúncia exige coragem? A resposta é óbvia. Não se trata de criticar, mas de falar o óbvio. E essa mania de classificar tudo de "quadrilha"? Fica bonito perante a galera e a mídia, mas tecnicamente... Daslu, Skinkariol, governadores, deputados, tudo virou "quadrilha". Teve até quadrilha de dois: Maluf e o filho. Lembra?

Parquet (Promotor de Justiça de 1ª. Instância - - ) 13/05/2008 - 23:19

Prezado "olhovivo",
Fineza indicar como o Sr. gostaria que fosse a atuação do Ministério Público. Sim, porque quando age, o Sr. reclama; quando não age, acusa a Instituição de omissa. É realmente difícil agradá-lo... Aliás, sem exceção, nunca vi um comentariozinho sequer elogiando a atuação do MP... Sempre críticas e mais críticas, o que denota, de forma hialina, perseguição gratuita e infundada. Ora, trate de fazer alguma coisa pela sociedade ao invés de ficar choramingando por aí. Já cansou.

olhovivo (Outros - - ) 13/05/2008 - 22:43

E.T.: O carlos trocou por "mudabrasil". Como foi essa mágica?

Para fazer comentários, você precisa estar cadastrado e identificado.
Se ainda não fez seu cadastro, clique aqui para se cadastrar.
Se ainda não se identificou, clique aqui para registrar seu email e senha.

Topo Ler mais comentários

Anuncie Anuário 2009