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Ideias do Milênio

"A Igreja teve um papel importante no genocídio dos tutsis de Ruanda"

Entrevista concedida pela escritora Scholastique Mukasonga, autora do livro Nossa Senhora do Nilo, à jornalista Elizabeth Carvalho para o Milênio — programa de entrevistas que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura GloboNews às 23h30 de segunda-feira, com reprises às terças (17h30), quartas (15h30), quintas (6h30) e domingos (14h05).

Wikimedia Commons

No século que passou, uma nova expressão foi inventada para designar a selvageria humana capaz de dizimar populações inteiras em nome do nacionalismo, da etnia, ou da religião: genocídio.

O século XX colecionou genocídios. O dos armênios, em 1915, um milhão e meio de mortos. O dos judeus, seis milhões de mortos entre 1941 e 1945. O dos cambojanos sob o regime de Pol Pot, dois milhões em 1975. E o dos tutsis de Ruanda, em 1992, um massacre de um milhão de pessoas em apenas 100 dias.

Ruanda é um país pequeno que fica no coração da África. Antes da chegada do colonizador europeu, se fundia em uma vasta região que compreende a República do Congo, Uganda e Burundi. Uma região de sociedades organizadas em castas de acordo com sua função, como a dos hutus, que cultivavam a terra e os tutsis, criadores de gado, todos unidos pela mesma cultura, a mesma língua, as mesmas crenças.

Mas as hierarquias das complexas sociedades africanas não se encaixavam nos parâmetros dos colonizadores do Ocidente e eles decidiram que os hutus e os tutsis pertenciam a duas etnias diferentes, fomentaram disputas, e o ódio floresceu.

As consequências de sucessivos massacres que terminaram no genocídio de 92 ainda são sentidas hoje nesse pequeno e pobre país. O presidente, general Paul Kagame, já está no comando do país há 14 anos.

A escritora Scholastique Mukasonga é uma tutsi como Kagame e também exilou-se ainda muito jovem no Burundi, mas nunca mais voltou a Ruanda. Todos os membros de sua família morreram no genocídio. Casou-se com um francês e fixou residência na Normandia, que, apesar das águas geladas da sua costa, oferece o calor dos grandes pastos de sua terra natal.

Elizabeth Carvalho — Seu nome, Scholastique, é cristão. Foi a primeira coisa que percebi nesse romance que você escreveu: a questão da cristianização de Ruanda — que começou com a colonização e que tem um papel muito importante no seu livro.
Scholastique Mukasonga —
Da colonização alemã, não restaram vestígios nem sequelas. Mas guardamos muitas sequelas da colonização belga. Ou seja... a Igreja realmente tinha carta branca para organizar tudo. Na minha época, nos anos 1960 e 1970, a identidade era a ficha de batismo. Uma pessoa não batizada não existia nem frequentava a escola. Se eu não me chamasse Scholastique e só tivesse o nome Mukasonga, nunca teria entrado na escola. Foi por isso que precisei escrever Nossa Senhora do Nilo. Para realmente exteriorizar isso. Porque foi isso que causou o genocídio.

Elizabeth Carvalho — A Igreja teve papel importante no genocídio?
Scholastique Mukasonga — Teve. Hoje eu digo isso. É a primeira vez que me sinto à vontade para dizer isso. Nós fomos cristianizados à força muitas vezes. Não podíamos escolher, então éramos batizados à força. O primeiro rei, Musinga, que se recusou a aceitar o batismo na época, em 1931, foi deposto. Foi exilado.

Elizabeth Carvalho — Um tutsi...
Scholastique Mukasonga — Foram buscar o filho dele, o último rei de Ruanda, Ndahindurwa, que aceitou ser batizado. Como o rei aceitou o batizado, isso ampliou os limites, claro. Todos os ruandeses e seus chefes também aceitaram. Então, a minha geração só conheceu a Igreja Católica: 99,99% da população eram católicos. Isso facilitava a vida do colonizador. Era mais fácil usar os missionários, pois eles se comunicavam diretamente com a população autóctone. Os verdadeiros colonizadores foram da Igreja.

Em Ruanda, sempre houve três categorias de pessoas, e essas três categorias eram as partes que compunham a sociedade ruandesa. Eram totalmente complementares. A única diferença era a atividade de cada uma. Então, a população ruandesa tinha três tipos de atividade. Havia a agricultura, o cultivo da terra, havia a criação de gado e havia a arte, a cerâmica. Aqueles que cultivavam a terra eram chamados de hutus. Eles não eram diferentes fisicamente. Eles só eram hutus porque cultivavam a terra.

Elizabeth Carvalho — Não era uma etnia. Era um nome dado aos camponeses.
Scholastique Mukasonga — Isso. Era impossível que fosse outra etnia porque, como disse, falávamos a mesma língua e vivíamos juntos. Não havia uma região hutu e outra tutsi. Temos as mesmas histórias, a mesma escrita. Nós nos casávamos, vivíamos juntos. Além dos camponeses, havia os criadores de gado. Eram os pastores, que só cuidavam das vacas. Como era preciso viver do que se produzia no campo, a maior parte das terras era reservada para a produção, para o cultivo. Havia muito pouca terra para as vacas pastarem e, além disso, elas não davam muito leite. Para ter um litro de leite, era preciso ordenhar 10 vacas.

Na verdade, o nome “tutsi” vem da vaca. E, além dos hutus e tutsis, havia os twas, que eram os ceramistas. Para cozinhar era preciso ter tigelas, para pegar água no rio era preciso ter jarros, calabaças ou cuias, ou seja, cerâmicas. Para fazer a cerveja de sorgo ou banana — para fabricá-la e guardá-la — era preciso ter jarros. Eram os utensílios usados no dia a dia.

Elizabeth Carvalho — Um dos elementos mais impressionantes do seu livro é a pequena janela que você abre para uma civilização tutsi que se originou no Egito.
Scholastique Mukasonga —
Isso é uma invenção.

Elizabeth Carvalho — É, porque isso foi uma ideia construída pelos padres brancos, não é?
Scholastique Mukasonga —
Para nos dividir. É uma grande invenção perigosa e destruidora. Na verdade, eles tentaram criar uma diferença entre hutus e tutsis para transformar os tutsis em estrangeiros, em alguém vindo de outro lugar, que não seria ruandês. Que seria o judeu, o judeu errante. No início, eu não sabia se eles tinham consciência de que isso ia gerar muitos anos depois, um genocídio. No início, por que quiseram criar isso? Era justamente um tipo de desenraizamento, de recusa ao fato de aquela ser a casa deles.

Os hutus, os tutsis e o twas são igualmente ruandeses. Nenhum chegou antes, nenhum veio de fora. Eu nunca ouvi isso dos meus pais nem os pais dos meus pais nunca ouviram um ruandês falar uma língua diferente do quiniaruanda. Então todos nós somos — hutus, tutsis e twas — ruandeses.

Elizabeth Carvalho — Qual é a ligação entre essa mentira e o colonialismo que se instalou na região?
Scholastique Mukasonga — Em 1931, foi criada a carteira de identidade étnica. Os colonizadores belgas disseram: “Chega. Não dá para aturar pessoas que um dia são hutus e, no dia seguinte, tutsis. Os tutsis são diferentes fisicamente.” Então eles se basearam apenas na estatura de quem tinha, excepcionalmente, porte físico diferente. Eles concluíram que os tutsis tinham um nariz ocidental, longo, eram grandes e de pele clara. Isso foi estabelecido a partir de 1931 e a carteira de identidade étnica foi criada. A partir disso, os que tinham uma carteira de identidade étnica tutsi passaram a ser tutsis até 1994, até o genocídio.

Entre 1931 e 1959, foi tudo tranquilo. As identidades foram criadas, alguns eram tutsis e eram os chefes, os outros eram hutus. Mas, nos anos 1950, os países africanos começaram a exigir a independência. Quando os ruandeses imitaram os outros africanos e exigiram a independência, nos anos 1950, o colonizador belga ficou com medo. Ele pensou: “Para os outros africanos negros, isso vai demorar. Eles não são uma ameaça. Mas se os tutsis, que são inteligentes e diferentes, exigirem a independência, isso será perigoso.

Elizabeth Carvalho — Esse massacre em nome do povo majoritário, que aconteceu em Ruanda, também aconteceu no Burundi, mas foi exatamente o contrário, ou seja, foi um massacre dos tutsis contra os hutus, que matou 200 mil pessoas, no início dos anos 1960.
Scholastique Mukasonga —
 Vou explicar. Ruanda e Burundi têm a mesma história. É igual. Eles têm a mesma língua, as mesmas categorias, o mesmo povo. Eu trabalhei lá. Foi onde mais fiz amigos na idade adulta. É exatamente a mesma coisa. É o mesmo povo. Aliás, na época da colonização, se chamava Ruanda-Urundi. Minha mãe sempre dizia: “O rio ficou vermelho de sangue.” As pessoas eram cortadas em pedaços, como um cacho de bananas, e jogadas no rio. Toda minha família imediata — tios, tias, tudo — foi parar no rio. E eles diziam: “Todos os rios de Ruanda alimentam o Nilo. Estão sendo jogadas no Nilo e mandados de volta ao Egito.”

Os tutsis do Burundi viram o que estava acontecendo com os tutsis de Ruanda. Eles ainda não tinham sido afetados, mas reagiram rápido. Esse é meu ponto de vista e foi o que vi na época. Eles reagiram rápido. Pensaram: “Somos minoria. Como somos minoria, teremos o mesmo destino. A única solução é pegar em armas. O exército do Burundi tem de ser tutsi. Senão vamos morrer.” Então havia uma maioria com facões e uma minoria com fuzis. Foi assim que eles sobreviveram, mais do que nós. Já no massacre de 1972, alguém lançou o projeto de fazer no Burundi o que havia sido feito em Ruanda em 1963. Digo isso porque eu estava em Nyamata em 1963. Foi naquele ano que jogaram os tutsis no lago Cyohoha, do lado da minha casa. Ficavam amarrados. Em 1967, fizeram a mesma coisa. Em 1973, fomos exilados e perseguidos nas escolas e instituições. Em 1972, os hutus quiseram fazer no Burundi o que tinham feito em 1959, 1963 e 1967 em Ruanda. Só que os tutsis tinham armas. Então isso não aconteceu. Causou um desastre. Quem planejou matar foi morto.

Elizabeth Carvalho — Para voltar ao romance Nossa Senhora do Nilo, há um momento do livro em que você fala das meninas que são ricas, que são mercadorias muito caras — porque se casarão por motivo políticos — e que têm, em seu futuro, três profissões possíveis.: enfermeira, parteira e assistente social. Você foi assistente social. Me conte como você mudou sua trajetória e entrou na literatura.
Scholastique Mukasonga —
A escola Nossa Senhora do Nilo foi inspirada na minha experiência na escola Notre-Dame-De-Cîteaux. Era um pouco hipócrita. Era uma escola de elite, mas, ao mesmo tempo, ainda estávamos submetidos à manipulação e à hipocrisia da Igreja. Afinal, não podíamos ter outra profissão além das reservadas às mulheres. Ficávamos limitadas a tudo que era de segunda categoria.

Nunca pensávamos em ser médicas, juízas, agrônomas... Agora há muitas agrônomas e médicas no meu país, mas, na época, só podíamos ter profissões de freira. Eu só escolhi essa profissão porque era a única relacionada à agronomia — que eu não podia estudar porque, na época, a agronomia era proibida às mulheres. A assistente social tinha, por vocação, o costume de trabalhar ao lado do agrônomo nos vilarejos para ajudar no desenvolvimento do campo. Eu não planejei começar a fazer a literatura, um dia eu me vi nela. Como posso explicar? Eu nunca sonhei em ser escritora.

Elizabeth Carvalho — Mas você sempre escreveu, sempre contou histórias?
Scholastique Mukasonga — Primeiro eu comecei a escrever como Primo Levi, que explica isso no livro É Isto Um Homem?. Aliás, é meu livro de cabeceira. Ele diz: “Sobreviver e testemunhar estão inextricavelmente ligados.” O autor diz no livro A Noite que os seres vivos têm um dever simples. Eles têm de testemunhar para os mortos e os vivos e, sobretudo, para as gerações de hoje e de amanhã porque eles não querem que sua história... Eles não querem que seu passado seja o presente nem o futuro das crianças de hoje e de amanhã. Pensei: “Não posso falar sobre o genocídio. Tenho que achar outro modo de ser guardiã da memória.”

Além disso, na época, eu corria um risco. Minha cabeça fervilhava. Eu estava viva. Tinha medo o tempo todo. “Toda a sua memória vai sumir.” Era a guardiã de uma memória que sumiria de um dia para o outro. Não tinha tempo a perder. Então comecei a escrever em abril de 1994, mas eu não tinha nenhuma intenção de publicar. Só fui para casa dez anos depois. Eu não tinha publicado nada e não tinha intenção de publicar. Fui para lá porque, dez anos depois, tive força para enfrentar a realidade nua e crua, os vilarejos vazios. Foi um extermínio total. Em três cidades não havia uma só casa. Foi então que tive medo. Pensei: “Tenho de ir para o aeroporto. Tenho de entrar no avião agora e pegar minhas anotações.” Cheguei aqui em Caen, fui pegar minhas anotações, retrabalhei o texto e o aperfeiçoei. Falei: “Vou publicar. Não posso guardá-las porque vão sumir.” Foi aí que apresentei meu manuscrito.

Elizabeth Carvalho — Foi onde tudo começou.
Scholastique Mukasonga — Consegui publicar, mas era o único livro que ia escrever. A importância da literatura é justamente mostrar o que as autoridades, o governo, os racistas querem esconder, não querem mostrar. A literatura existe para mostrar. 

Revista Consultor Jurídico, 11 de setembro de 2017, 6h54

Comentários de leitores

1 comentário

Bela entrevista!

ABSipos (Advogado Autônomo)

Parabéns pela entrevista e à escritora, pelo livro.

Aprendi há muitos anos na escola que os tutsis foram massacrados porque eram mais altos do que os hutus, mas nada das causas para o massacre me foram ensinadas, talvez por ter estudado em um colégio de origem católica.

Fico feliz por ter tido acesso a esse esclarecimento e triste mais uma vez pelo massacre e por saber que nada foi resolvido e que as sementes para novos massacres ainda estão no solo.

Que com o livro a Escritora consiga nos ajudar para que não repitamos os erros de nossos antepassados.

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