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Grifa texto

Especialista em redação jurídica ensina como enfatizar o que é importante

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Quem nunca viu um texto grifado, em que o autor faz o que pode para dar ênfase a um trecho de um parágrafo? Às vezes se vê sentenças em letras maiúsculas, sublinhadas, em itálico e em negrito. Às vezes, com três pontos de exclamação ou de interrogação no fim. Tudo porque o autor quer tornar algumas frases mais eloquentes.

Mas esses recursos de formatação são dispensáveis. Para dar ênfase a frases (ou sentenças), a fim de “obrigar” o leitor a prestar atenção nelas, basta saber jogar com as palavras. E a maneira mais prática de fazer isso é colocar as palavras que criam ênfase (ou o clímax de uma ideia), no final da sentença (ou oração).

Isso é o que recomenda o editor-chefe do Black’s Law Dictionary, Bryan Garner. Esse é o mais prestigioso dicionário jurídico dos EUA, citado frequentemente em decisões judiciais. Garner também é autor do Garner’s Modern English Usage , do The Chicago Guide to Grammar, Usage, and Punctuation e um frequente autor de artigos sobre redação jurídica no Jornal da ABA (American Bar Association).

Para ilustrar sua teoria de que as palavras mais fortes devem vir no final da sentença, ele empresta um texto do jornalista Jason Gay, do Wall Street Journal, descrevendo o ambiente em uma cafeteria:

"Há um rapaz nesta cafeteria sentado em uma mesa, que não está no celular, nem em um laptop, simplesmente bebendo café, como um psicopata”.

“Como um psicopata” é a imagem mais forte criada pelo escritor para descrever, de seu jeito, a situação. Por isso, ele a destaca, colocando-a no fim da sentença. Se não usar essa técnica, provavelmente terá de usar recursos de formatação para destacá-la:

“Há um rapaz nesta cafeteria sentado em uma mesa como um psicopata, que não está no celular, nem em um laptop, simplesmente bebendo café”.

Essa é uma técnica usada frequentemente em piadas. Normalmente, o clímax de uma piada vem no final e é a parte que provoca risadas. Mas é também uma técnica que pode ser usada na descrição de uma tragédia, para assegurar o impacto desejado.

Barner conta que, há pouco tempo, recebeu de um advogado uma proposta de acordo que buscava favorecer a mulher de um homem que morreu em um acidente de avião.

Um trecho do texto da proposta dizia: “No momento em que o avião de Paul caiu, sua mulher Betty estava ajudando um amigo em uma liquidação de artigos domésticos. Logo depois do acidente, Betty recebeu um telefonema de Billy Nugent. Ele veio e levou Betty à casa de seus pais, onde lhe informaram sobre a morte de seu marido, há cerca de 30 minutos”.

Para dar mais dramaticidade à situação da viúva demandante, ele mudou o texto para:

Betty, mulher de Paul, estava ajudando um amigo na liquidação de artigos domésticos, quando o avião de Paul caiu. Logo depois do acidente, Betty recebeu um telefonema de Billy Nugent, um amigo da família, que veio e a levou à casa de seus pais. Lá ela ficou sabendo que Paul acabara de morrer.

Essa “organização” das palavras ou expressões no parágrafo também cria um crescendo de dramaticidade, que pode ser útil para convencer juízes, jurados, ou quaisquer ouvintes ou leitores.

Essa é uma regra destacada por Garner. E, como se diz, regras existem para ser quebradas. Mas regras só podem ser quebradas com propriedade por quem as domina. O escritor Gabriel Garcia Marques, por exemplo, quebrou essa regra logo na abertura de Crônica de uma Morte Anunciada. Ele iniciou a primeira sentença com uma imagem forte, intrigante:

No dia em que iam matá-lo, Santiago Nazar levantou-se às 5 e 30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo.

Nesse caso, o escritor levou o leitor a se concentrar na história logo na primeira frase. Só não há uma boa defesa para a colocação da expressão forte, intrigante, no meio da sentença ou do parágrafo. Aí vai exigir grifos de todas as naturezas, para que não passe despercebida.

Outra forma de criar crescendo emocional e enfatizar um fato na descrição é separar uma sentença em frases menores. Por exemplo, pode-se escrever: “Paulo Afonso não tinha nada a perder, nem mesmo sua vida”. Mas para enfatizar o fato de que ele não dava importância à própria vida, pode-se escrever: “Paulo Afonso não tinha nada a perder. Nem mesmo a própria vida”.

Porém, frases mais curtas não são usadas apenas em prol da dramaticidade. Podem ser usadas em prol da clareza. Garner busca um exemplo em uma cláusula que diz:

Qualquer novo membro servindo apenas uma porção de um mandato de sete anos no cargo pode continuar a servir até que um sucessor é nomeado e se qualifique, exceto que tal membro não pode continuar a servir por mais de um ano após a data na qual o mandato do membro irá expirar, a não ser que fosse renomeado.

Um parágrafo escrito assim é até difícil de entender e exige provavelmente mais de uma leitura para ser compreendido. Com frases mais curtas, fica mais fácil de entender. Garner sugere o seguinte:

Um novo membro que serve apenas uma parte de um mandato de sete anos no cargo pode continuar a servir até que um sucessor qualificado seja nomeado. Mas, se não for renomeado, o novo membro não pode servir mais do que um ano após a data em que seu mandato irá expirar.

 é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Revista Consultor Jurídico, 9 de setembro de 2017, 9h07

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