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Imposição do CNJ

Em sessão secreta, TJ-SP discute fim de placa especial de carros de magistrados

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Os 25 desembargadores que compõem o Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo discutiram nesta quarta-feira (21/6), a portas fechadas, se a corte deveria cumprir decisão do Conselho Nacional de Justiça que proibiu placas especiais — fixadas no lugar da chapa oficial — em veículos que transportam membros da magistratura.

Carro do Judiciário paulista circula com placa preta e numeração própria.
Reprodução/Blog Interesse Público

Assim que anunciado o fim da sessão judiciária, a transmissão online saiu do ar, mas os desembargadores continuaram no mesmo lugar para abordar o tema, por mais de 30 minutos. Quem estava acompanhando os julgamentos até então teve de deixar o recinto, e um grupo de estrangeiros que tentava conhecer o Salão Nobre do TJ-SP foi proibido de entrar.

Hoje, desembargadores paulistas podem andar com placas pretas de bronze numeradas pelo próprio tribunal, que dificultam a identificação dos veículos pelas autoridades de trânsito. Os números geralmente seguem a ordem de antiguidade de cada desembargador. 

A partir de 1º de julho, a corte vai substitui-las por placas de fundo branco, com o registro Renavam, como qualquer outro automóvel, conforme norma publicada nesta quarta. No ano passado, o CNJ mandou todo o Judiciário seguir o Código de Trânsito Brasileiro, ao analisar consulta feita pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região. 

A frota do tribunal tem cerca de 1,3 mil carros. Questionada pela ConJur, a corte não informou quantos usam placas especiais. Segundo a assessoria de imprensa, a sessão fechada ocorreu porque o tema não estava na pauta do dia. “Após o encerramento, houve apenas esclarecimento por parte do presidente aos integrantes do Órgão Especial”, afirma.

Parte do colegiado considerou um absurdo seguir a ordem. “Não podemos ceder nossas prerrogativas. A cada dia entregamos um anel, mais tarde serão os dedos”, reclamou o desembargador Arantes Theodoro. O desembargador Ferraz de Arruda disse que um “ato impensado” do TRF-3 acabaria prejudicando uma “tradição” do tribunal.

Servidores fecharam as portas do Salão Nobre e determinaram a saída de quem acompanhava a sessão judiciária.
ConJur

Segundo o corregedor-geral da Justiça, Pereira Calças, o CNJ não tem competência para disciplinar esse tipo de assunto. Ele afirmou que, sem entrar na discussão se as placas especiais são corretas, o TJ-SP não deveria concordar com “decisões sem fundamento”, que “vão além” do papel do conselho.

O decano da corte, Xavier de Aquino, questionou: “Se o CNJ disser que desembargadores só podem trabalhar de terno preto, vamos cumprir?”

Mais tranquilidade
O desembargador Álvaro Passos afirmou que o uso das placas especiais sinaliza “privilégios” de uma classe, o que “não se admite mais na nossa sociedade”. Ele próprio contou ter parado de utilizar o benefício depois de ser xingado no trânsito. Passos disse que passou a sentir “maior tranquilidade” quando o carro que utiliza para ir ao trabalho passou a ter placas brancas.

Na avaliação do desembargador Moacir Peres, há “irregularidade flagrante” na prática atual do tribunal paulista. O CTB só permite placa especial a veículos de representação dos presidentes de tribunais, chefes de outros poderes e generais das Forças Armadas. O Conselho Nacional de Trânsito abre a possibilidade também para carros de vice-governadores e vice-prefeitos, ministros de tribunais superiores, senadores e deputados.

Membros do Poder Judiciário e do Ministério Público podem ter placas especiais temporariamente e de forma excepcional — se vítimas de ameaças, por exemplo —, “mediante autorização específica e fundamentada das respectivas corregedorias e com a devida comunicação aos órgãos de trânsito competentes”.

Peres citou ainda um escândalo na Câmara Municipal de São Paulo, em 2012, quando o uso indiscriminado de placas pretas repercutiu na imprensa.

O presidente do TJ-SP, Paulo Dimas Mascaretti, declarou que não poderia contrariar ordem do CNJ. Ele afirmou que vários tribunais já têm seguido a decisão e reconheceu que a placa adotada atualmente não tem nenhuma previsão legal, o que dificulta qualquer defesa. Para Mascaretti, questionar a medida judicialmente seria inapropriado numa época em que o país passa por assuntos mais delicados.

* Texto atualizado à 0h30 do dia 22/6/2017 para acréscimo de informação.

 é repórter da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 21 de junho de 2017, 19h45

Comentários de leitores

7 comentários

Democracia total

O IDEÓLOGO (Outros)

Não deveriam os desembargadores do TJSP utilizar ônibus, táxis e carros próprios para deslocamento de suas mansões aos locais de trabalho? Por que esses ricos servidores públicos não o fazem.

País que consegue sair do século xvi ?

Valentin (Advogado Sócio de Escritório - Internacional)

Não suportar ideia de ser igual aos demais cidadãos – exceto no desempenho de missão ímpar de julgar como magistrado – não é nada contemporâneo. Insurgir-se contra normas legais do CTB e ponderada resolução do CONTRAN que primam pelo bom senso, é mais que inadequado. Lembrando lição de democracia e praticidade de países nórdicos onde altos mandatários só deixaram de ir trabalhar de bicicleta por imposição de órgãos de segurança estatais...

A dignidade da magistratura e a autocrítica

Rejane Guimarães Amarante (Advogado Autônomo - Criminal)

Todo o poder emana do povo e em seu nome é exercido. Acrescento que o povo é a ultima instância. Aqueles que se propuseram a julgar o povo brasileiro precisam conhecer e comportar-se de forma coerente com a realidade brasileira. E quanto ao Poder Judiciário, a expectativa é a de um senso de justiça apurado e obediente à Constituição Federal. É ultrajante tantas "mordomias" quando policiais, médicos e enfermeiros, professores recebem salários muito menores do que os dos magistrados. Ademais, qualquer verba de dinheiro público deveria ser aplicada na eficiência dos serviços, não para satisfazer as futilidades e caprichos de magistrados. Existe forte mobilização no Congresso para alterar leis que afetam a forma como a magistratura está estruturada. Quem estudou tanto, deveria fazer autocrítica e mudar de comportamento. Seria digno agir dessa forma. Mais dia, menos dia, a Lei colocará as coisas nos seus devidos lugares.

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