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Opinião

Teori tinha a desafetação intelectual de quem sabe o que está falando

Por 

*Artigo originalmente publicado no jornal Folha de S.Paulo deste domingo (22/1) com o título Uma trapaça da sorte.

"Quem faz grandes coisas,
E delas não se envaidece,
Esse realiza o céu em si mesmo"
Lao Tsé, Tao Te Ching

É muito difícil fugir do lugar comum nos momentos de perdas trágicas. A impermanência é o símbolo maior da nossa humanidade. A morte, a única certeza plena dessa vida. Pode acontecer a qualquer um, a qualquer momento. Mas nunca é hora. O Brasil, o Supremo e os amigos não estavam preparados para viver sem Teori Zavascki.

Subitamente, nos demos conta de como precisávamos dele. Discreto, avesso a holofotes, Teori ficaria imensamente incomodado com a comoção que causou e a atenção que está recebendo.

Não foram poucas as decisões emblemáticas que passaram por suas mãos em tempos recentes. Entre elas, a possibilidade de execução da pena após a condenação em segundo grau; o afastamento da presidência da Câmara dos Deputados de parlamentar sob acusações graves; a prisão de um senador da República acusado de interferir com investigação em curso. Para citar as que tiveram mais visibilidade.

O Brasil vive um momento difícil e grave. Parece haver uma conspiração de circunstâncias negativas. Mas é possível, também, interpretar os acontecimentos como uma virada histórica na direção de um país melhor e maior.

Teori tinha essa percepção, e supervisionava a operação "lava jato" aristotelicamente: com virtude, razão prática e coragem moral. Continuar o trabalho de mudar o patamar ético do Brasil, com a mesma determinação e serenidade, será a forma mais digna de homenageá-lo.

Teori foi também um professor de primeira linha, que ensinou por muitos anos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e produziu alguns livros clássicos. Há poucos meses, por insistência minha, ele havia se integrado ao Programa de Pós-Graduação do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), onde lecionaríamos juntos. Também lá fará uma falta imensa.

Enfim, caberá ao noticiário enumerar os fatos da sua vida pública e de sua trajetória como magistrado e acadêmico. Aproveito o espaço que resta para um breve depoimento pessoal.

Éramos amigos próximos, mas recentes. Fomos nomeados para o Supremo Tribunal Federal com poucos meses de distância. Antes de virar juiz, estive despachando com ele diversas vezes, postulando direitos que me pareciam legítimos.

Admirava-o tanto pela cortesia e consideração com que tratava advogados anônimos quanto pela nossa fraterna e espirituosa convivência no tribunal. A gente na vida ensina sendo. Teori Zavascki era um bom exemplo disso.

Teori tinha a simplicidade das pessoas profundas. O senso de humor de quem é verdadeiramente sério. A desafetação intelectual de quem sabe bem do que está falando. Amigo é a pessoa com quem você pode simplesmente ficar calado, contar uma derrota ou chorar mágoas. Seguro de ouvir uma palavra de alento de um interlocutor de boa-fé.

Teori era mais de prudências do que de ousadias. Mais de tradições do que de modernidades. Talvez, por isso mesmo, de uma forma dialética e afetuosa, nos completávamos.

Não faz muitas semanas que eu disse a ele, em plenário: "O país teve muita sorte de tê-lo como relator da 'lava jato'". Com o estilo de sempre, e um sorriso maroto, respondeu: "Quem não teve sorte fui eu". Olhando agora, a constatação é inevitável: nenhum de nós teve.

Sentado em um restaurante longe de casa, devastado de tristeza, a comida esfriando na minha frente, escrevo essas palavras como quem chora. Com tinta, em vez de lágrimas. Ajude-nos aí de cima, amigo.

 é ministro do Supremo Tribunal Federal, professor titular de Direito Constitucional da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e professor visitante do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB).

Revista Consultor Jurídico, 22 de janeiro de 2017, 11h40

Comentários de leitores

5 comentários

Lindas palavras de Barroso, lamentável ignorâcia doSR Cabeda

Gryphon (Advogado Autônomo - Civil)

Texto muito bom, que mostra um pouco o lado humano daqueles que são constantemente desumanizados. Belíssimo uso da linguagem.
Por outro lado, me surpreende muito a ressentida manifestação de alguém que se diz magistrado do Trabalho e assina o comentário abaixo como "Luiz Fernando Cabeda". Doutor Luiz, deixe-me lhe dizer o seguinte.

1. O min. Barroso usou termos técnicos da filosofia aristotélica. Pesquise frônese, φρόνησις (phrónesis) e aretê, ἀρετή (aretê). Quem não conhece Aristóteles é o senhor! Não entendeu a referência!

2. A turma que está hoje no STF, muitos nomeados por Dilma Rousseff, FOI A PRIMEIRA NA HISTÓRIA DO BRASIL A CONDENAR FIGURÕES POLÍTICOS. Esse foi o julgamento histórico do mensalão. Qual outra formação do STF condenou figurões do partido que estava no poder? NENHUMA, DOUTOR!

3. Ainda bem que eu nunca encontrei o senhor como juiz e provavelmente nunca vou encontrar. Volte para a sua revistinha veja e deixe de expor seu ressentimento em público - isso é muito feio.

4. O senhor não se aumentou em nada ao diminuir os outros.

de uma maneira justa e perfeita.

Roberto Cavalheiro (Advogado Autônomo)

A complexidade dos momentos eternizados em letras timbradas nas vidas alcançadas por estas mesmas letras, os momentos de descontração e os debates, lembranças, apenas, lembranças que aos poucos vão turvando com o passar dos dias, lembranças.
Como as palavras sinceras Min. Barroso, que são acolhidas neste escrito, expondo sem rodeios os olhos marejados.

A construção do engodo e a revolta da verdade

Luiz Fernando Cabeda (Juiz do Trabalho de 2ª. Instância)

O ministro Barroso certamente está querendo se mirar em um espelho que, tal como nos parques de variedades, mostra deformações, ao gordo faz magro, ao alto faz baixo, etc.
Ele que é, reconhecidamente - e sem favor - alguém que porta a vaidade na algibeira, gosta da linguagem rebuscada, pratica o trejeito verbal, tem a ousadia de militar pela causa da 'autoficção' e, nesses atributos, mostra que é bom.
Há no entanto uma " revolta dos fatos" frente ao que diz.
Aristóteles deixou uma diretriz eterna diante do prestígio que as apreciações particulares possam ter: 'Platão e a verdade nos são caros, mas devemos amar mais a verdade'.
O grupo de ministros nomeados por último por Dilma Roussef foram escolhidos "ad hoc" e tinham por 'missão' esvaziar o Mensalão. Nesse critério se enquadram todos os que substituíram Ellen Gracie, Peluso, Ayres Brito e Joaquim Barbosa.
Desses, todos os que participaram do julgamento do agravo regimental contra as condenações do Mensalão cumpriram seu compromisso. Livraram os condenados da pena pela formação de quadrilha. Como se os crimes articulados com sofisticação pudessem ser praticados sem a organização de uma quadrilha.
Entretanto, a História os desmentiu prontamente, e logo a Lava Jato mostrou que a quadrilha tanto existia QUE ATUOU INCLUSIVE DURANTE O JULGAMENTO DO PRÓPRIO MENSALÃO.
A morte não engrandece a quem não teve grandeza em vida. Barroso inspira-se no grande Lao Tsé como quem invoca Pilatos no Credo. Ele é um "pagador de promessa" e só está no STF porque fez um pacto com o ministro da Justiça na época para defender Cesare Battisti de graça.
Já que o ministro Barroso não respeita a memória dos brasileiros e sua capacidade crítica para entender a História, deveria respeitar ao menos Aristóteles.

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