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Tempos de ansiedade

No dia da posse, americanos não sabem o que esperar do presidente Trump

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O republicano Donald Trump se torna o 45o presidente dos Estados Unidos nesta sexta-feira (20/1), às 12h (horário de Nova York). Sua chegada à presidência é um caso sem precedentes. Por exemplo, ele será o primeiro presidente sem qualquer experiência política ou militar. Por não saber o que esperar de seu governo, parte da população está cruzando os dedos para que, no final das contas, ele se saia bem. E parte da população está esperando que seu governo termine em impeachment, antes de corridos os quatro anos do mandato.

Ele também será o primeiro presidente a iniciar um governo com um índice de popularidade abaixo da média: 40% de aprovação, segundo pesquisa do Washington Post e da ABC News. É o índice de popularidade mais baixo de um presidente eleito, às vésperas da posse, desde que essa pesquisa começou a ser feita em 1977, antes da posse de Jimmy Carter.

Pesquisa do Gallup chegou ao mesmo número para Trump: 40%. Em comparação, Barack Obama tinha um índice de popularidade de 78% antes da posse, Bill Clinton, 66% e George Bush, 62%. Parte da queda da popularidade de Trump deriva do alto índice de rejeição a sua candidatura e das atitudes que tomou durante a campanha. Parte, provavelmente, das escolhas que fez para seu gabinete.

Gabinete
Trump escolheu para a Secretaria do Trabalho, por exemplo, o CEO de uma cadeia de restaurantes Andrew Puzder, que é contra o aumento do salário mínimo e contra pagamento de 50% de adicional por hora extra. O comentário mais comum foi o de que ele escolheu uma raposa para cuidar do galinheiro.

E fez outras escolhas parecidas. Para a Secretaria de Energia, ele escolheu o ex-governador do Texas Rick Perry. Ao concorrer à Presidência, em 2012, uma de suas promessas foi a de extinguir o departamento de Energia do governo federal.

Para a Agência de Proteção ao Meio Ambiente (EPA — Environmental Protection Agency) ele escolheu o advogado e ex-procurador geral de Oklahoma Scott Pruitt. Ele processou a EPA diversas vezes, não acredita em ciência do clima e nega que as atividades humanas contribuem para o aquecimento da Terra.

Para a Secretaria de Educação, escolheu Betsy DeVos que, no passado, defendeu cortes de verbas de escolas públicas e a distribuição de vouchers (pagos pelos cofres públicos) às famílias, para que possam colocar seus filhos em escolas particulares. Para a Secretaria de Saúde, ele escolheu o deputado Tom Price, um dos maiores inimigos do Obamacare, o seguro-saúde dos pobres.

Para o cargo de procurador geral da República, ele escolheu o senador do Alabama Jeff Sessions, que não foi confirmado para um cargo de juiz pelo Senado anteriormente por ser racista. Para o cargo de conselheiro sênior do presidente, ele escolheu o presidente da Breitbart News Stephen Bannon, que pertence ao movimento “alt-right” (direita alternativa) e é suspeito de ter ligações com o movimento supremacia branca.

Para a Secretaria do Estado (que equivale ao Ministério das Relações Exteriores) ele escolheu o CEO da Exxon Rex Tillerson. Na audiência de confirmação no Senado Tillerson foi bombardeado por perguntas agressivas de senadores do Partido Republicano, o partido de Trump, por suas ligações com o presidente da Rússia Vladimir Putin — uma relação que os republicanos (e democratas) não suportam.

Na quinta à noite, já em Washington para as primeiras celebrações da posse, Trump defendeu, em discurso, suas escolhas, dizendo que só escolheu gente inteligente. “É o maior QI de todos os tempos de um gabinete presidencial”, ele disse.

Na mídia
O estilo Trump também é novidade para o povo americano. Ele adotou, mais que qualquer outro candidato presidencial, o estilo “bateu, levou”, que os brasileiros conhecem dos tempos do presidente Collor.

Colocou apelidos depreciativos em seus concorrentes, incluindo os republicanos. Chamava o senador Marco Rubio de “Little Marco” e o senador Ted Cruz de “Lyin’ Ted” (Ted mentiroso). Na competição contra a democrata Hillary Clinton, só a chamava de “Crooked Hilary” (desonesta, inescrupulosa, corrupta).

Durante toda a campanha e na primeira entrevista coletiva, antes da posse, chamou a mídia de desonesta, mentirosa, entre outros adjetivos. Ele se referia apenas aos órgãos de imprensa que publicavam notícias desfavoráveis a ele. Arrumou uma briga particular com a CNN, que divulgou uma notícia sobre uma suposta farra dele com prostitutas em um hotel em Moscou. Na entrevista coletiva, se recusou a responder perguntas do repórter da CNN e de outros órgãos de imprensa que declarou “desonestos”.

Usuário contumaz do Twitter, ele “bateu” em todos os que o criticaram. Entre eles, o senador republicano John McCain, considerado herói de guerra. Trump escreveu que ele não pode ser considerado herói porque foi preso. Ele também criticou o deputado John Lewis, considerado o congressista mais respeitado do país, um “ícone dos direitos humanos”, que, em uma entrevista, afirmou que não reconhecia a legitimidade do governo Trump, porque ele foi eleito com a ajuda de Putin. “Bateu”, também, em vários artistas que o criticaram.

Trump também atacou duramente os três principais órgãos de segurança do país, a CIA, o FBI e a NSA (a Agência de Segurança Nacional), porque eles produziram um relatório confirmando que a Rússia invadiu os computadores do comitê democrata de campanha para ajudar a eleger Donald Trump. Além de criticar as agências, ele ficou do lado, de certa forma, da Wikileaks, que publicou os documentos “roubados” e que é odiada pelos políticos americanos.

Trump também é chamado de narcisista, dado a seu passado como celebridade — ele foi apresentador da versão americana do programa O Aprendiz. Alguns comentaristas políticos dizem que sua briga com a imprensa não é para valer. Ele não irá, por exemplo, cumprir sua promessa de se afastar das câmeras e dos holofotes, porque isso iria ferir de morte seu narcisismo.

Uma promessa em que a maioria dos americanos acredita é a de que ele irá realmente criar mais empregos. Nesse embalo, ele declarou, em um discurso recente: “Eu sou o maior criador de empregos que Deus já fez”. Tradicionalmente, os americanos concedem a um novo presidente um crédito de confiança de 100 dias. Cumprido esse prazo, os jornais começam a publicar avaliações do novo governo. Só então será declarado se a ansiedade era justificada ou não.

 é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Revista Consultor Jurídico, 20 de janeiro de 2017, 11h12

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