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Opinião

Teori deixa um legado de honradez e probidade que o tempo não desgasta

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Quando a morte nos visita, com a sua força avassaladora que quebranta todas as nossas resistências, percebemos claramente toda a magnitude da enorme fragilidade de nossa vida. E não apenas de nossa vida, mas também das amizades fraternas que nela brotam e depois crescem e se desenvolvem, se espraiando sobre os nossos dias, tecendo sobre eles uma espécie de manto.

Ninguém sabe ao certo por qual motivo ou secreta razão somos subitamente atingidos por um petardo potente que nos impacta com a força de um desastre e retira de nossa convivência, sem qualquer prévio aviso, uma pessoa com quem dividíamos, até ontem, as alegrias e os prazeres da companhia afável e das conversas animadas e divertidas, que davam o tom da relação humana calcada no respeito, na afetuosidade e na simpatia.

Foi o impacto de um tufão o que me derrubou, quando me chegou a notícia incrível da morte inesperada do meu amigo Teori, pessoa cordial e atenciosa, que nunca sofreu o delírio das grandes altitudes ou da síndrome dos escolhidos, incapaz de uma indelicadeza, por mínima que fosse, ou de uma desatenção ocasional, sempre disposto a premiar o seu interlocutor com a sua atenção inteligente e prestimosa, sem improvisar respostas, jamais disfarçando sentimentos ou simulando dominar assuntos que não conhecia.

Nunca vi e nem soube, nem por ouvir dizer, que Teori se jactasse de qualquer posição intelectual, de ciência particular, de qualquer fato ou de qualquer prerrogativa funcional para se fazer de importante, de inatingível, de diferente ou de superior. Nada disso o atingia ou lhe enchia os olhos. Teori era (me assusta falar dele com o verbo no passado) de uma austeridade natural, espontânea, sem qualquer afetação ou exibição. Tinha um saber jurídico vastíssimo, adquirido em anos e anos de estudos dedicados e profundos, mas nunca o usava para reduzir a importância dos que argumentavam contra si nem para desqualificar as teses dos que divergiam de seus pontos de vista. Teori era um jurista completo e um perfeito intelectual do Direito. Para ele, as leis eram referências obrigatórias e seguras dos seus raciocínios, mas não as via como algemas do pensamento ou corrente das ideias.

Tive a boa fortuna de ser colega do ministro Teori, por largos anos, no Superior Tribunal de Justiça, por isso as conclusões que guardo a respeito de sua inteligência e devotamento à Justiça, de suas posturas e de suas atitudes de julgador e de homem de bem, probo, honesto, valoroso e destemido, não são observações ligeiras ou colhidas ao acaso de alguma circunstância, mas apoiadas em longa e diária convivência que sempre teve, para nós ambos, o valor de uma autêntica e fraternal amizade. A sua morte (custa-me muito aceitar essa dura realidade) me soa como uma notória improbabilidade, como uma notícia sabidamente falsa que logo será desmentida e censurado asperamente aquele que a inventou.

Não posso encarar de frente a morte do meu amigo Teori, porque é uma dessas tragédias totalmente inverossímeis, uma coisa inexplicável e rude, tão sem sentido e sem nexo que deve ser mesmo uma ilusão dos sentidos. Conversamos mais de uma vez, ele e eu, sobre a brevidade da existência, sobre a nossa retirada da vida pública e os nossos projetos pessoais de mais presença nos nossos ambientes familiares sobre os quais tínhamos ideias idênticas. Muitas vezes, Teori me disse que desejava ficar mais perto de sua família, de seus filhos, Francisco, Alexandre e Liana.

O seu destino lhe reservava o Supremo Tribunal Federal, meu caro Teori, você tinha ainda uma missão indispensável a cumprir, missão que você cumpriu às inteiras, deixando para todos nós um legado de honradez e probidade que o tempo não desgasta, nos legando um acervo de grandes e imperecíveis exemplos, que mais aumentará quanto mais for seguido.

Cesar Asfor Rocha é ex-presidente do Superior Tribunal de Justiça. Mestre em Direito Público pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, é autor do livro A Luta pela Efetividade da Jurisdição, entre outros.

Revista Consultor Jurídico, 20 de janeiro de 2017, 14h23

Comentários de leitores

1 comentário

Meus sentimentos, excelência !

Rejane Guimarães Amarante (Advogado Autônomo - Criminal)

Excelentíssimo ministro Cesar Asfor Rocha, sou solidária ao seu pesar. Muito bonita a homenagem que o senhor prestou para o seu amigo. É complicado ver a própria geração terminar, é difícil para todos nós. O único consolo é que eles estão melhores do que nós. Excelência, o senhor ainda tem uma missão. Saúde !

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